O caso Nikita Mazepin, que apareceu em um vídeo postado nas próprias redes sociais do piloto abusando de uma mulher e que praticamente não recebeu nenhuma punição da F1 (além das famosas nota de repúdio), coroou um ano de atitudes bastante questionáveis da principal categoria do automobilismo mundial.

Uma das maiores críticas que as empresas recebem hoje em dia é que elas promovem valores como diversidade e ESG (sigla em inglês que significa meio-ambiente, social e governança), mas que não estão dispostas a adotar essas práticas.

São poucas as companhias que de fato estão empenhadas a colocar esses valores em prática e tentar quebrar a estrutura vigente, que na maior parte das vezes dá lucro para elas.

Por isso, quando a F1 anunciou em junho a campanha We Race As One, por mais igualdade, já havia a dúvida sobre se a categoria estava realmente disposta a mudar. Pelo que vimos até agora, a resposta é que não.

1) O acordo da F1 com a Aramco

A primeira polêmica envolvendo a principal categoria do automobilismo mundial em 2020 veio antes mesmo do lançamento da We Race As One.

Em março, a F1 anunciou um acordo de patrocínio com a maior petroleira do mundo, a Aramco, da Arábia Saudita. O mais curioso é que o acerto aconteceu apenas cinco meses após a categoria divulgar que pretendia se tornar mais sustentável e zerar as emissões de carbono até 2030.

Mas o patrocínio da Aramco acabou sendo fundamental para a sobrevivência do campeonato. Nos meses de quarentena mais severa, a F1 teve problemas de fluxo de caixa, uma vez que não estava recebendo dinheiro de patrocinadores nem de TVs porque as corridas não estavam sendo realizadas.

Quem antecipou os pagamentos foi a Aramco. Até mesmo os logos da empresa apareceram durante as corridas virtuais no período do isolamento social, antes de o campeonato começar para valer, o que aliviou a crise econômica da F1. Lembrando que na época não havia ainda uma certeza de que as corridas de verdade poderiam ser disputadas em 2020.

2) O GP da Arábia Saudita

É de se esperar que a Aramco tenha ganhado força nos bastidores da F1 pela ajuda econômica. Por essa razão, não é uma surpresa que meses depois a principal categoria do automobilismo mundial tenha anunciado o plano de realizar, a partir de 2021, um GP da Arábia Saudita.

O país do Oriente Médio é criticado por usar o esporte para passar uma visão progressista e mais moderna ao mesmo tempo em que é acusado de perseguir ativistas contrários ao governo, com prisões baseadas em acusações frágeis e parco direito à defesa. Isso sem falar de leis autoritárias. Tanto que só em 2018 as mulheres receberam a permissão de dirigir.

Em 2018, a Formula E foi criticada ao realizar uma de suas etapas por lá, mesma polêmica em que a F1 se envolveu agora.

3) Vitaly Petrov como comissário da F1

O ex-piloto de F1 criticou as manifestações feitas por Lewis Hamilton contra o racismo, em setembro, e também fez comentários considerados homofóbicos na época. Um mês depois, ele foi chamado pela F1 para ser comissário de prova no GP de Portugal.

A decisão da F1 não foi bem recebida pelo piloto da Mercedes nem por organizações LGBT no esporte, mas mesmo assim a categoria resolveu manter o piloto russo na função.

4) O vídeo de Nikita Mazepin

Para falar a verdade, era bem difícil esperar que a Haas fosse tomar qualquer atitude contra Mazepin. Assim como aconteceu com a F1 no começo do ano, a equipe americana sofre com a crise econômica e precisou recorrer a pilotos pagantes para completar o orçamento para 2021.

Como é Mazepin quem está trazendo dinheiro, dificilmente a escuderia demitira o piloto e aumentando o risco de ela própria fechar as portas.

Ainda assim, a forma como lidou com o caso deixou a desejar, principalmente ao não divulgar nenhuma punição ao piloto. Pior do que isso foi a F1 mal se posicionar durante as última semanas, tendo soltado apenas um comentário à imprensa dizendo que apoiaria qualquer decisão tomada pela Haas.

Muito pouco para um campeonato que se diz mais inclusivo.

O exemplo da Penske nos EUA

Enquanto o We Race As One da F1 parece ser da boca para a fora, Roger Penske está mostrando que a Indy está empenhada em promover maior inclusão no esporte.

No início do segundo semestre, ele disse que diversidade seria uma das prioridades para sua gestão. E não ficou só nas palavras. No começo deste mês, ele anunciou a criação de uma equipe na USF2000, o primeiro passo do programa Road to Indy, apenas para pilotos, mecânicos e engenheiros vindos de minorias.

A ideia é que o time, chamado de Force Indy e pago pela própria Penske, cresça junto com seus integrantes nos próximos anos e um dia chegue ao campeonato principal. Outras iniciativas por mais igualdade no esporte a motor devem ser anunciadas pela Penske nos próximos meses.

Lembrando que a Nascar, conhecida por ser muito mais conservadora que F1 e Indy, há anos já tem um programa para facilitar o acesso de pilotos vindo de minorias ao esporte. Foi assim que Kyle Larson, Bubba Wallace e Daniel Suárez foram descobertos.

foto do topo: haas

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Vitaly Petrov correu na F1 por Renault e Caterham antes de ser convidado para ser comissário em algumas provas – foto: andrew griffith/CC BY 2.0