imagem de Timmy Hill

Como o automobilismo voltou à vida durante o coronavírus

Faz três semanas que a pandemia do novo coronavírus tomou conta do mundo e paralisou todas as categorias do automobilismo mundial.

Nesse tempo, da mesma forma que a doença tem se espalhado rapidamente, a comunidade do esporte a motor conseguiu, da noite para o dia, organizar campeonatos nos games e nos simuladores em uma tentativa de suprir a falta de carros na pista.

Ainda no segundo fim de semana de março, quando pilotos e equipes da F1 estavam na Austrália para saber se haveria ou não corrida – e o mesmo acontecia com a Indy em São Petersburgo e a Nascar em Atlanta – duas iniciativas foram as pioneiras em montar seus torneios virtuais.

Uma delas foi o Not the AUS GP (Não é o GP da Austrália, na tradução para o português). Essa corrida foi organizada por uma empresa chamada Veloce Esports, cujo um dos sócios é Jean-Éric Vergne, atual bicampeão da Formula E. O objetivo era disputar uma etapa no game de F1 no mesmo dia em que a prova de Melbourne seria realizada.

A outra foi um torneio do site britânico de notícias The Race, que fechou uma parceria com a empresa Torque Esports, concorrente da Veloce e comandada por Darren Cox, que foi o responsável pelo antigo programa GT Academy, no qual a Nissan revelava novos pilotos a partir do game Gran Turismo, de PlayStation.

Em um primeiro momento, o The Race foi quem se saiu melhor, tendo atraído Max Verstappen para seu evento. O holandês, além de ser uma das principais estrelas da F1, costuma pilotar nos games e simuladores, então havia a expectativa para ver como ele se sai no mundo virtual. Aliás, a lista de inscritos foi enorme, com mais de 50 participantes, o que obrigou a organização a fazer baterias classificatórias.

Nesse primeiro fim de semana, os campeonatos virtuais oficiais ainda não existiam. Afinal, F1, Indy e Nascar cancelaram suas etapas reais de última hora, e toda a estrutura de organização – assim como os pilotos – estavam nos autódromos ou voltando para a cada.

Mas essas categorias não perderam tempo. Na semana seguinte, a Nascar realizou sua primeira corrida virtual, em Homestead-Miami, justamente a pista onde deveria ter competido naquela data.

O surgimento dos campeonatos oficiais

Foi um sucesso. Novamente, mais de 50 pilotos se inscreveram, embora apenas 35 puderam participar por causa das regras do iRacing, a plataforma de simuladores onde são realizadas as provas. No fim, Denny Hamlin superou Dale Earnhardt Jr. no photochart, com o clímax ficando até a bandeirada.

Melhor do que isso, a corrida – que teve 50% da distância da original – foi transmitida pela Fox nos EUA e se tornou o evento de games mais assistido da história no país.

No mesmo fim de semana, a F1 seguiu a mesma receita e realizou o GP do Bahrein virtual no mesmo dia em que era para a prova real ter acontecido. A diferença para a Nascar é que o campeonato não obrigou suas principais estrelas a competir. Na verdade, havia muitos convidados no grid, incluindo o goleiro Thibault Courtois, da Bélgica, que enfrentou o Brasil na última Copa do Mundo.

Daí para frente os campeonatos foram crescendo. No último fim de semana de março foi a vez de a Indy ter sua primeira corrida virtual, com Sage Karam dominando em Watkins Glen, em um grid que contara com 25 carros, incluindo um para Jimmie Johnson, que vai se aposentar da Nascar no fim deste ano.

O número de participantes foi para 29 na rodada seguinte, em Barber, que marcou o retorno de Robert Wickens às pistas – ainda que virtuais – após o grave acidente que sofreu em Pocono há alguns anos. A corrida também deu o pontapé inicial no acerto com a emissora NBC, para ser transmitida na TV americana. A vitória ficou com Scott McLaughlin, atual bicampeão da Supercars, da Austrália, e que deve migrar para os EUA em 2021.

Ao mesmo tempo, a Nascar também cresceu. Depois de Homestead-Miami, a categoria foi para o Texas, onde a vitória ficou com Timmy Hill, nome que costuma fechar o grid nas provas reais.

O sucesso do piloto (na foto em destaque do post) foi tanto que a empresa especializada em produzir carrinhos em miniatura anunciou que vai fazer réplicas do modelo usado por Hill nos games/simuladores e vender aos fãs.

Problemas reais no mundo virtual

Algumas equipes até conseguiram descolar patrocínios para as provas virtuais – e eles até podem migrar para as corridas reais, quando elas recomeçarem. E as empresas estão levando bastante a sério a hora de patrocinar o que acontece nos games.

No último fim de semana, Bubba Wallace ficou irritado após se envolver em um acidente, em Bristol, causado por Clint Bowyer. Nas corridas da Nascar, os pilotos têm direito a pelo menos um “reset”, isto é, um conserto automático do carro após um acidente para continuar competindo.

Wallace não quis nem saber desse benefício. Frustrado com a batida, ele desligou o jogo e disse que não leva os simuladores a sério. O patrocinador ficou tão irritado que decidiu romper o acordo com a equipe RPM pela qual o americano compete.

É comum em jogos online que as pessoas fechem o jogo – “quitem” – quando começa a perder. O que Bubba não esperava é que, quando envolve dinheiro, as atitudes são levadas mais a sério.

Já a F1 resolveu mudar sua estratégia no começo de abril. Como o game da categoria não tem a pista do Vietnam, que estrearia só neste ano, o jeito foi realizar a prova do último fim de semana em Melbourne, onde todo o problema começou e não teve corrida real.

A organização do continuou com a estratégia de reunir convidados, mas dessa vez com prioridade para aqueles que têm alguma ligação com as equipes. Foi assim que Pietro Fittipaldi representou a Haas, por exemplo.

A aposta certeira da F1

Mas o grande acerto da principal categoria do automobilismo mundial foi apostar nos pilotos mais jovens para atrair a audiência. Em Melbourne, Charles Leclerc defendeu a Ferrari (ao lado de seu irmão menor, Arthur Leclerc), George Russell e Nicholas Latifi estiveram pela Williams, Lando Norris correu na McLaren, Alex Albon participou pela Red Bull e Antonio Giovinazzi competiu pela Alfa Romeo.

Como eles têm mais ou menos a mesma idade e se conhecem desde a época do kartismo, além de ver a disputa entre eles na pista virtual, foi possível vê-los conversando – e se zoando – por programas online. No fim, melhor para Leclerc, que venceu justamente quando fazia sua primeira corrida virtual, dando prosseguimento à Charlinho-mania.

E ainda deu tempo para surgir uma liga criada pelos próprios pilotos, chamada de Real Racers Never Quit, organizada em parceria com a Redline, uma das principais equipes dos games/simuladores. O carro-chefe do certame foi a presença de Verstappen, mas também houve a participação de inúmeros nomes das pistas, como António Félix da Costa, da Formula E, e Kelvin van der Linde, das provas de GT.

Talvez você esteja se perguntando o que aconteceu com as iniciativas do The Race e da Veloce depois que os campeonatos oficiais surgiram.

Elas ainda continuam a existir, mas perderam espaço. De um lado, era questão de tempo para que as categorias defendessem que seus pilotos competissem exclusivamente em seus campeonatos oficiais.

Do outro, elas cometeram um erro grave ao misturar pilotos reais com os que são especializados nesses games/simuladores. Na primeira semana, até foi divertido acompanhar qual desses grupos é que levaria a melhor, mas depois de um tempo ficou claro que não havia interesse em ver gamers desconhecidos andando na frente sempre. Para atrair o público órfão das corridas reais era preciso trazer os pilotos que eles conhecem e acompanham.

Assim, essas iniciativas têm tentado se reinventar. O The Race, por exemplo, passou a promover uma disputa entre lendas do esporte a motor, com antigos carros da F1, que já teve vitórias de Dario Franchitti, Rubens Barrichello e Jan Magnussen. Já o campeonato da Veloce inovou em disputas 1×1 (como se fosse a Corrida dos Campeões) e teve Lando Norris como primeiro ganhador do novo formato.

Para as próximas semanas, a expectativa é que mais e mais categorias iniciem seus torneios virtuais oficiais. Só fica a dúvida se haverá espaço para todas elas.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos das corridas de F1, Indy e Nascar nos games no último fim de semana.

imagem do topo: iRacing

imagem de Charles Leclerc
A F1 tem apostado em seus jovens pilotos para promover seu campeonato virtual – foto: f1/divulgação

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