Um dos nomes mais tradicionais da história da F1, a Brabham virou notícia no começo do mês de julho ao conquistar uma vitória, acredite se quiser, cerca de 37 anos após seu último triunfo na F1 — que havia sido registrado no GP da França de 1985.

A nova consagração foi na primeira bateria da etapa do Europeu de GT2, categoria que faz a preliminar do GTWC, em Misano, na Itália.

Apesar do nome, o GT2 na verdade é um campeonato para carros GT intermediário entre os GT3 (mais rápidos) e os GT4 (considerados porta de entrada da modalidade). Ao menos por enquanto, apenas gentlemen drivers podem competir no GT2, sendo que equipes com apoio das montadoras são proibidas.

Em Misano, a vitória ficou com a Brabham (da foto do topo do post) dividida pelo dinamarquês Andreas Fjordbach e pelo americano Kevin Weeda, veteranos das corridas de longa duração. Juntos somam quatro participações nas 24 Horas de Le Mans. Esse, aliás, foi o único top-5 da dupla no GT2 em 2022 por enquanto.

Da vitória no GP da França em 1985 para a conquista em Misano, muita coisa mudou na Brabham. Inclusive os donos.

Fundada pelo então piloto Jack Brabham e pelo engenheiro Ron Tauranac no início da década de 1960, a escuderia se tornou uma potência no automobilismo. Era o que a Dallara é hoje, fornecendo carros para uma infinidade de campeonatos pelo mundo, mas com o diferencial de ter conquistado quatro títulos da F1.

No início da década de 1980, a escuderia estava entre as mais fortes do campeonato e tinha como proprietário ninguém menos que Bernie Ecclestone, que havia adquirido o time de Tauranac e, alguns anos mais tarde, viria a comandar a principal categoria do automobilismo mundial. Aliás, todos os homens-fortes da gestão de Ecclestone na F1 faziam parte da equipe, como Herbie Blash e Charlie Whitting.

Com Ecclestone mais interessado em alcançar o poder na F1, a Brabham foi perdendo força até que acabou novamente vendida em 1988. As gestões seguintes foram bem atribuladas, mas a esquadra continuou correndo até 1992, quando fechou as portas no meio de uma temporada em que mal conseguia se classificar para as provas.

A partir daí, por quase 20 anos, não se ouviu mais falar no nome Brabham. A marca praticamente tinha sumido das corridas de carro, e a exceção era o piloto David Brabham (filho de Jack), que vinha conquistando bons resultados nas provas de longa duração.

A volta da Brabham às competições

Em 2009, a marca Brabham ressurgiu quando uma equipe alemã, que não tinha nenhuma ligação com a família de pilotos em si, tentou se inscrever na F1 com justamente esse nome. Quase ao mesmo tempo, algumas concessionárias no Reino Unido tentavam se promover usando o sobrenome famoso.

Foi o gatilho para que a família Brabham entrasse na Justiça pedindo exclusividade no uso de sua marca, o que foi concedido após uma longa disputa judicial que durou cerca de três anos.

Essas tentativas de reviver a marca fizeram com que a família Brabham percebesse que havia, sim, espaço para ela no mundo do automobilismo.

David Brabham, então, iniciou um ambicioso projeto a partir de uma plataforma de crowdfunding para construir um carro GT para um dia disputar o WEC.

Apesar de o plano não ter saído como o esperado — até hoje a Brabham não participou do Mundial de Endurance–, David teve sucesso em recriar a equipe, mesclando o desenvolvimento de carros para competições com veículos para colecionadores.

Ou seja, hoje a Brabham está mais para uma montadora que para um time de corridas. Até o fim de 2021, seus modelos só tinham participado de eventos de exibição ou então de campeonatos menores, como o endurance britânico (chamado de Britcar).

No fim do ano passado, o carro da Brabham foi homologado para disputar as provas de GT2 num ganha-ganha entre a construtora e o campeonato: o GT2 precisava de uma marca famosa, com história nas pistas, para se promover entre os gentlemen drivers, enquanto a Brabham buscava um campeonato com maior projeção para competir.

A vitória em Misano é, portanto, mais um passo nessa trajetória da tradicional escuderia de volta às pistas, mas faz parte de uma longa caminhada que ainda está no começo. Resta ver se a marca um dia será capaz de cumprir os planos e ter destaque no WEC e/ou em outras principais categorias do automobilismo mundial.

Carro branco e azul da Brabham em primeiro plano durante exibição em museu
Carro da última vitória da Brabham na F1 (em 1985) – foto: stahlkocher/own work/CC BY-SA 3.0