A incoerência da F3

Em Pau, o grid da F3 Inglesa chegou a 24 carros com a ajuda dos colegas da F3 Euro

Em 2011, Yann Cunha terminou a temporada da F3 Inglesa com 36 pontos negativos. Ao longo das 30 corridas daquele ano, o brasileiro marcou quatro pontos, mas acabou sendo punido em 40 por ter participado da etapa de Spa-Francorchamps da F3 Espanhola.

Na ocasião, o regulamento da categoria determinava que um piloto não poderia disputar uma etapa de outro campeonato da F3 caso o certame inglês ainda fosse correr nesse circuito. Assim, Cunha correu na pista belga pelo torneio espanhol, nos dias 25 e 26 de junho, e retornou ao circuito um mês mais tarde para correr pela F3 Inglesa.

Assim que ficou sabendo do descumprimento da regra, a organização da F3 puniu o piloto, que acabou terminando a temporada na lanterninha. O brasileiro até tentou recorrer afirmando que o regulamento da categoria espanhola é diferente da inglesa e por isso não acarretaria na infração da regra, mas acabou não dando certo.

Avançando um pouco no tempo, nesta terça-feira, dia 15, a equipe Double R (da F3 Inglesa) anunciou que vai participar da rodada de Brands Hatch da F3 Euro e F3 Europeia marcada para este final de semana. De acordo com o dono da equipe, Anthony Hieatt, o objetivo é fazer com que os pilotos se adaptem aos pneus Hankook, que serão usados no round de Norisring, quando F3 Inglesa e F3 Euro voltam a dividir às pistas.

Além da Double R, a Carlin também estará presente em Brands Hatch, com Carlos Sainz Jr., Jazeman Jaafar e Harry Tincknell.

A equipe inglesa, como eu já escrevi aqui em outras oportunidades, foi um dos times recrutados pela Volkswagen para participar do novo campeonato Europeu de F3. Esse novo torneio, aliás, nada mais é do que um amontoado de etapas da F3 Inglesa e da F3 Euro. A ideia da FIA foi atrair as equipes de ambos os certames para aumentar os respectivos grids.

O problema agora é que a F3 Euro corre em Brands Hatch um mês antes da etapa da F3 Inglesa no local

Assim, na semana passada, a F3 Europeia disputou a rodada de Pau, que originalmente faz parte do calendário da F3 Inglesa. Ao invés dos 14 carros que participaram das primeiras rodadas do certame britânico, a etapa teve 24 inscritos, já que dez pilotos da F3 Euro se inscreveram para a competição. Agora, a etapa da F3 Europeia acontece em Brands Hatch, que é da F3 Euro. Mas algumas equipes da F3 Inglesa também se inscreveram para correr e o grid deve ter 19 carros.

A princípio, podemos dizer que essa medida foi um sucesso e conseguiu fazer com que os dois principais campeonatos de F3 do mundo voltassem a ter grids respeitáveis. O problema é a incoerência da medida. A rodada desse final de semana da F3 Europeia é válida pelo campeonato da F3 Euro Series. Só que a F3 Inglesa também volta a correr no tradicional circuito inglês nos dias 23 e 24 de junho. Então, teoricamente, aquela regra que puniu Yann Cunha no ano passado está sendo desrespeitada.

Evidentemente, esse trecho do regulamento não existe mais, e as equipes são livres para competir onde quiserem agora.

E nem é isso – a possibilidade de punição a Sainz, Jaafar, Tincknell e à dupla da Double R – que deveria ser discutido agora. O problema é como o regulamento original da categoria era primitivo.

A regra original servia em dois momentos. No primeiro, evitava uma escalada de custos nos campeonatos. Ou seja, uma equipe que tivesse mais recurso, na época em que as F3 de toda a Europa tinham mais ou menos o mesmo pacote técnico, poderia levar seus pilotos aos outros campeonatos para ganhar quilometragem nesses circuitos onde eles ainda iriam correr. Com essa vantagem, eles já sairiam na frente quando chegasse a hora de competir para valer.

Do outro lado, os campeonatos também adotaram essa regra como protecionismo. A maioria dos times ficou impedida de conhecer outros campeonatos, evitando que fossem atraídas por um certame com um custo menor ou maior competitividade. Dessa forma, todo mundo saiu ganhando.

Agora, com as F3 tradicionais cada vez mais esvaziadas, chegou-se a um consenso de que ou os grid juntam e se ajudam, ou as categorias acabam. Então, a pergunta que fica é por que essa regra não caiu antes?

Por uma lógica até que óbvia, se o novo campeonato europeu conseguiu aumentar o grid dos campeonatos, significa que a regra antiga foi uma das responsáveis pelo esvaziamento das F3 nos últimos anos. No fim, é possível concluir que a F3 agora luta contra ela mesma – e suas medidas conservadoras – para voltar ao posto de principal campeonato no automobilismo de base.

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