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Para entender a crise no automobilismo italiano

fevereiro 17, 2012
Jarno Trulli

Jarno Trulli não se mostrou muito animado quando soube que deixaria a F1. Sem ele, a categoria não tem mais italianos

No início da semana, o site Italiaracing, por meio da revista eletrônica, publicou entrevistas feitas com Gabriele Lucidi e Antonio Ferrari, dono das equipes italianas Lucidi e Eurointernational, respectivamente.

Em comum os dois dirigentes desistiram de fazer parte do automobilismo italiano em 2012 e devem inscrever as equipes nos certames da Alemanha – embora Lucidi tenha decidido ter um ano sabático. Cada um por seus motivos, os dois criticaram a organização do esporte a motor na velha bota.

Lucidi, dono de uma das maiores equipes da F3 Italiana, afirmou que o campeonato se tornou pouco atraente para os times. A CSAI – a CBA da Itália – optou por não adotar o novo carro da Dallara na F3, o F312, nesta temporada por uma questão de redução de custo. As equipes e os engenheiros chiaram bastante, pois queriam trabalhar com o que há de mais moderno na modalidade.

Até aí, parece uma reclamação justa. Com a crise econômica tão presente, é natural que as federações sejam obrigadas a tomar decisões para manter essas categorias vivas e nem sempre acabam agradando a todos. No entanto, a CSAI criou um “campeonato europeu de F3 Italiana”, por mais bizarro que o nome pareça. Isto é, além das corridas na Itália, haverá um torneio paralelo disputado nas pistas da Europa pelos mesmos competidores. Além das pistas italianas, haverá rodadas em Barcelona, Hungaroring e Spa-Francorchamps (que já fazia parte do calendário).

Ou seja, a categoria optou por não adotar o novo carro, mas os times serão obrigados a gastar mais dinheiro para participar de um “campeonato europeu de F3 Italiana” e viajarem para Hungria e Espanha.

F-Abarth

Depois de ter pré-classficação em 2010, a F-Abarth sofreu para ter um grid competitivo no ano passado

Ferrari, dono da Eurointernational, por sua vez, afirmou que a equipe dele foi prejudicada pela CSAI – propositalmente ou não – em diversas ocasiões nos dois últimos anos. O dirigente disse que, em 2010, a entidade se recusou a fazer uma equalização do equipamento da Dallara com os Mygale usados pelo time. No ano seguinte, a Eurointernational – equipe que revelou Felipe Nasr – participou da F-Abarth, e Ferrari afirmou que a equipe foi prejudicada pela organização em diversas oportunidades com punições questionáveis em vários momentos da temporada.

Se já não bastassem os problemas internos enfrentados pelo automobilismo italiano, nesta sexta-feira, dia 17, veio o golpe final. A Caterham dispensou Jarno Trulli para ter Vitaly Petrov na F1 em 2012.

Do ponto de vista técnico, parece uma boa troca. Trulli vinha fazendo temporadas bastante lamentáveis, tomando tempo de Heikki Kovalianen e abandonando com problemas hidráulicos corrida sim, outra também. Petrov não é um piloto ruim. Foi vice-campeão da GP2 e sofreu na F1 tendo Robert Kubica como companheiro de equipe quando ainda era um novato e, depois, com um carro ruim no ano passado.

Só que com a saída de Trulli, os italianos perceberam que não tem mais nenhum piloto do país na F1. Nos últimos anos, os transalpinos contaram com o nosso amigo defenestrado, com Vitantonio Liuzzi e com a eterna promessa Giancarlo Fisichella. Embora todos eles tenham passado por um ou outro bom momento na carreira, estavam afastados da luta pelas vitórias há alguns anos.

Como qualquer piloto, eles tiveram os momentos de auge, conseguiram certo destaque e depois se apagaram, andando em equipes menores. Agora, sem representantes na F1, os italianos se voltam para as categorias de base do automobilismo para tentar entender o que aconteceu.

Luca Filippi

Luca Filippi é o recordista de participações na GP2, mas deixou de ser cogitado na F1 faz algum tempo

Recentemente, aqui no Brasil também passamos por uma situação parecida. Com o futuro de Felipe Massa, Bruno Senna e Rubens Barrichello indefinido na F1, a GP2 ganhou algum destaque, mas os resultados do Luiz Razia não empolgaram. Fora o baiano, até a chegada de Nasr não tínhamos mais nenhum representante.

Só que o nosso problema foi a entressafra de pilotos. A geração de Bruno Senna, Lucas Di Grassi e Nelsinho Piquet chegou à F1 e depois disso houve um buraco até a entrada de Nasr. Mas não é esse o problema com os italianos, eles sempre tiveram pilotos na GP2. Para você ter ideia, a Itália é o país com mais competidores na história do certame, com 14.

O que complicou foi que os representantes na categoria de acesso estagnaram na carreira. Não conseguiram subir para a F1 – seja por falta de dinheiro ou de talento –, mas também não largaram o osso da GP2.

O resultado é bastante conhecido. O piloto com mais participações no campeonato menor é Luca Filippi, com 108 provas disputadas. Caso compita a temporada toda de 2012, Davide Valsecchi se tornará o segundo dessa lista (tem 72 e chegaria a 96). O quarto é Giorgio Pantano. Porém, o campeão da temporada 2008 tem 106 participações se contar também a F3000 (que não tinha rodada dupla). Desses, apenas Pantano chegou a participar da F1, pela Jordan (!) no distante ano de 2004.

Edoardo Mortara

Edoardo Mortara abandonou os monopostos e arrumou companhia melhor no DTM

Aí aconteceu aquele efeito dominó. Não houve renovação dos italianos na F1. Como consequência, também não houve na GP2. Os poucos garotos promissores, como Edoardo Mortara, disputaram uma única temporada e foram obrigados a mudar de categoria porque não tinham apoio financeiro. Valia mais investir nos incansáveis Pantano e Filippi que apostar em gente talentosa como Mortara, Giacomo Ricci ou Davide Rigon.

Assim, esses meninos entupiram categorias como a F2 e a AutoGP. Enquanto isso, a CSAI achava que a F3 Italiana era a salvação para tudo. Gente como Mirko Bortolotti e Daniel Zampieri, campeões da categoria, foram elevados a um status de grandes promessas do esporte a motor, mas não correspondiam na pista essas expectativas. Quando a entidade viu que algo estava errado, resolveu fazer as mudanças e deu no que deu.

A efeito de comparação, a F-Abarth teve, em 2010, pré-classificação e mais de 40 carros em algumas etapas. No ano seguinte, algumas corridas não chegaram a 20 competidores. O mesmo pode ser dito da F3 Italiana. Em apenas um ano, o grid passou de 30 para 15 (ou menos) carros. Assim fica difícil falar em renovação.

E não há grandes sinais de melhoras. Se tudo der errado, em 2012 a situação vai continuar a mesma. Vamos supor que Davide Valsecchi confirme o favoritismo e seja campeão da GP2. Com 96 corridas disputadas na categoria de acesso, a tendência é que ele só consiga uma vaga na F1 se levar um caminhão de dinheiro para Caterham, Marussia ou HRT. Se ele chega à F1, vai ser o mesmo paliativo que vinha acontecendo com Trulli e Liuzzi: vai correr por um time pequeno, mas os italianos vão continuar dizer ‘opa, mas temos pilotos na categoria’. Enquanto isso, pode ser que nada mude nas categorias de base.


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