Se tem uma coisa que eu aprendi acompanhando a F1 há tantos é que, se uma notícia é muito boa para ser verdade, então geralmente é isso mesmo: muito boa para ser verdade. Daí o pé atrás com a possibilidade de Colton Herta acertar com a AlphaTauri para 2023.

Caso o interesse rubro-taurino no americano realmente seja verdadeiro, vai restar um último obstáculo para ser superado: obter os 40 pontos da superlicença, requisito obrigatório para quem busca correr na principal categoria do automobilismo mundial.

Com os resultados conquistados de 2019 a 2021 (terceiro, quinto e sétimo na Indy), Herta acumula 32 pontos. A menos que a FIA decida abrir algum tipo de exceção, ele ainda precisaria de alguma maneira assegurar os oito que faltam.

Aí fica a dúvida: será que a F1 ainda precisa do requisito dos pontos da superlicença para seus competidores?

Não estou dizendo que qualquer um deveria ser liberado para correr na principal categoria do automobilismo mundial. Talvez o ideal fosse um processo mais simplificado. Por exemplo, um painel de especialistas da FIA que se reunisse de tempos em tempos para aprovar um piloto na F1 ou não.

O formato atual é muito burocrático e obriga competidores, equipes, empresários e fãs a fazerem contas sem sentido para descobrir se um nome já assegurou a superlicença ou não. “Qual é o resultado da soma de um sétimo lugar na Super Formula, um vice-campeonato na Euroformula Open e um terceiro lugar na F3 internacional?”

Colton Herta deveria receber a superlicença para correr na F1 2023?

Voltando a Herta, será que alguém argumentaria que, apesar de ele ser uma das estrelas da Indy nos últimos anos, não está pronto para a F1? E qual a diferença do americano para Jack Doohan ou Logan Sargeant, que ainda buscam se firmar na F2, não têm nenhuma experiência como profissionais, mas já conquistaram os 40 pontos da superlicença?

Alguém pode defender que a superlicença, no formato atual, impediu que nomes como Sean Gelael e Roy Nissany, costumeiramente últimos colocados na F2, mas vindos de famílias ricas, tivessem uma chance na F1.

Isso é verdade. Mas ao mesmo tempo vimos Nicholas Latifi e Nikita Mazepin alcançar a principal categoria do automobilismo mundial, muito por causa do dinheiro que suas famílias levavam às equipes.

Só que hoje a situação da F1 é um pouco diferente, e os pilotos pagantes estão perdendo espaço. Com a chegada do teto de gastos e do aumento do interesse pelo campeonato no mundo tudo – principalmente nos EUA -, as equipes estão conseguindo sobreviver com o dinheiro da premiação e de seus próprios patrocinadores, sem depender da grana trazida pelos competidores. Tanto que Latifi está ameaçado e deve ficar sem a vaga na Williams em 2023.

Ou seja, mesmo se o requisito dos 40 pontos da superlicença caísse, boas chances de Gelael, Nissany e companhia continuarem sem a menor chance de disputar a F1.

Assim, em vez de impedir pagantes de chegar ao campeonato, a superlicença acabará na prática bloqueando competidores talentosos que, por um motivo ou por outro, não conseguiram os 40 pontos. Já passou da hora de repensar esse processo.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos do GP da Holanda da F1, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

carros branco e azul da AlphaTauri, um atrás do outro, fazendo curva para direita em Spa-Francorchamps
A AlphaTauri pode ter uma dupla totalmente nova na F1 2023, com Colton Herta – foto: peter fox/getty images/red bull content pool