Com a surpreendente ida de Fernando Alonso para a Aston Martin e Oscar Piastri tendo recusado a vaga de titular para a temporada 2023 da F1, a Alpine vai cada vez mais se parecendo com a Renault que disputou a F1 no fim da década de 2000.

Naquela época, a escuderia francesa ficou conhecida por não conseguir subir seus jovens pilotos para o time principal e “revelar” competidores para outras equipes.

Robert Kubica, por exemplo, tomou parte das categorias de base integrando a academia da montadora francesa, mas foi pela BMW que se destacou na F1, tendo vencido o GP do Canadá de 2008. Anos mais tarde, o polonês até acertou o retorno à Renault, mas jamais estreou pelo time ao sofrer um grave acidente na disputa de um rali.

Lucas di Grassi também tinha o apoio do chamado Renault Driver Development Program e recebeu a promessa de que seria promovido à F1 caso fosse campeão da GP2 (categoria que antecedeu a F2) em 2007. Ficou com o vice. Mais tarde, teve uma breve passagem pela F1 pela Virgin e depois se acertou com a Audi. Pela marca germânica conquistou a taça da Formula E, em 2017, derrotando justamente a equipe da Renault.

Mas talvez o caso mais emblemático seja o de Pechito López. O argentino nunca esteve entre os mais cotados para subir à F1 pela montadora francesa, mas o que chama a atenção é que seus principais títulos no automobilismo, o tri do WTCC, de 2014 a 2016, vieram defendendo a Citroën, arquirrival da Renault na indústria automotiva. Nada mais frustrante para uma academia que entregar um piloto de bandeja à sua principal concorrente.

Naquela época, apenas Nelsinho Piquet, Heikki Kovalainen e Romain Grosjean integravam a academia da Renault e tiveram oportunidade na F1, mas nenhum conseguiu se firmar na equipe francesa.

Agora, com a indefinição sobre quem será o companheiro de Esteban Ocon na F1 em 2023, a Alpine vem se deparando com a mesma situação: pode acabar perdendo seus jovens para suas rivais. Veja abaixo quem integrou a academia francesa nos últimos anos, mas já arrumou outro lugar para correr:

Os pilotos desperdiçados pela academia da Alpine na F1

Oscar Piastri

É difícil apontar o que pode ter dado errado para o australiano não ter sido alçado pela Alpine à vaga de titular na F1. Afinal, ele conquistou três títulos em três anos consecutivos (F-Renault Eurocup, F3 e F2). Difícil exigir mais.

Talvez o erro da escuderia francesa tenha sido a lentidão para se adaptar às mudanças. O time até podia ter planejado dar uma chance ao australiano em 2023 ou em 2024, levando em conta que ele precisaria de mais tempo para ser campeão da F2. Mas como a terceira das taças de Piastri veio em 2021, no ano de estreia dele na categoria, qualquer planejamento de longo prazo foi por água abaixo.

Com a ida de Fernando Alonso para a Aston Martin, o australiano chegou a ser anunciado como novo titular da Alpine, mas recusou a vaga por não se sentir prestigiado — seu “prêmio” pelos três títulos foi o posto de reserva na marca francesa e uma possível oportunidade na Williams. É especulado na McLaren, por quem é valorizado.

Christian Lundgaard

Tendo recentemente renovado o contrato com a RLL para continuar na Indy por mais alguns anos, Lundgaard foi vítima da impaciência típica das academias de jovens pilotos das equipes da F1.

Não que o dinamarquês seja dono de uma carreira brilhante. Mas teve resultados bastante positivos, como o título da F4 Espanhola e da antiga versão Norte-Europeia da modalidade, o vice da F-Renault Eurocup e a sexta colocação na F3 como novato.

Por esse bom desempenho, era considerado um dos favoritos ao título da F2 no ano passado, mas sumiu. Em meio às polêmicas mudanças de regras, terminou a temporada na 12ª colocação, tendo obtido apenas três pódios em 23 corridas. Em comparação, o então novato Theo Pourchaire, seu companheiro na ART Grand Prix, fechou 2021 em quinto, com duas vitórias.

Sem maiores perspectivas na Europa, migrou para a Indy, onde impressionou a equipe RLL ao largar em quarto em sua estreia no misto de Indianápolis.

É difícil especular o que poderia ter acontecido, mas imagina se Lundgaard tivesse ficado por um terceiro ano na F2 e lutado pelo título com Felipe Drugovich e Pouchaire nesse momento em que há uma vaga aberta na Alpine?

Guanyu Zhou

Apesar de estar recebendo bastante elogios, Zhou não vem tendo um ano de estreia na F1 em 2022 tão fácil. Somou somente cinco pontos até agora, contra 46 de Valtteri Bottas, seu companheiro de equipe na Alfa Romeo. Mas é verdade que o piloto chinês vem tendo certa dose de azar, acumulando abandonos devido a problemas mecânicos e a acidentes em que não teve culpa, como na largada em Silverstone, onde foi parar depois da barreira de pneus.

De qualquer forma, se Piastri, mesmo com os três títulos conquistados, demorou a ser cogitado pela Alpine em uma vaga de titular na F1, imagina as chances de Zhou, com resultados bem mais modestos? Melhor mesmo ter ido para a Alfa Romeo e se assegurado no grid da F1 já em 2022.

Com Jack Doohan e Oli Caldwell na F2 e Victor Martins e Caio Collet na F3, fica a dúvida: será que a Alpine finalmente conseguirá aproveitar algum de seus pupilos nos próximos anos ou veremos esses pilotos brilhar em equipes/montadoras rivais?

Citroën número 37, cinza e branco, de Pechito López, fazendo curva para a esquerda
Pechito López foi um dos casos mais famosos de piloto que a academia da Renault deixou escapar — acabou campeão pela arquirrival Citroën – foto: morio/own work, CC BY-SA 3.0