Se tem um comportamento que eu não costumo entender no esporte a motor, é quando um piloto recusa uma vaga em um campeonato profissional para o qual ele nem está garantido. É justamente essa situação que costumava enfrentar a Aprilia, sensação da temporada 2022 da MotoGP.

Hoje a fabricante italiana vive boa fase e está comemorando a vitória de Aleix Esparagaró no GP da Argentina, a primeira de sua história na categoria rainha. Mas na maior parte de sua atual trajetória na MotoGP os resultados da Aprilia foram minguados. De 2015 a 2020, período em que formou parceria com a Gresini, jamais conquistou um top-5. Quanto mais lutar pelo primeiro lugar.

Essa falta de resultados expressivos fez com que muitos competidores fugissem da Aprilia. No fim de 2020, a fabricante teve dificuldades para encontrar um substituto para Bradley Smith.

Dava até para entender por que Andrea Dovizioso e Cal Crutchlow, que estavam deixando a Ducati e a LCR Honda, respectivamente, não quiseram correr pela Aprilia na época. Eles já tinham carreiras consolidadas e não viam motivação em andar na parte de trás do pelotão. No caso do italiano, também acreditava que poderia descolar um contrato mais lucrativo com algum time de ponta após ser três vezes vice-campeão do mundo.

Mas é difícil imaginar por que três pilotos da Moto2 não toparam se aventurar na Aprilia. Fabio Di Giannantonio, por exemplo, argumentou na época que já tinha um acerto com a Gresini. Hoje a equipe italiana é um dos destaques da temporada 2022 da MotoGP, tendo vencido a etapa de abertura, no Qatar, com Enea Bastianini. Por outro lado, a esquadra é a terceira na escala de prioridade da Ducati, atrás da Pramac e do time de fábrica, então vai levar um tempo para Di Giannantonio ter do bom e do melhor, mas é uma aposta válida do piloto.

Outro que negou foi Marco Bezzecchi, que também alegou já ter vínculo com outro time da MotoGP. No caso dele, era a VR46, que neste ano está estreando na categoria rainha. O caso do italiano de 23 anos de idade é o mesmo de Di Giannantonio. Vai demorar para um dia ter prioridade dentro da Ducati, mas é um risco que ele preferiu tomar.

E o que falar do americano Joe Roberts? No fim de 2020, ele estava em alta na Moto2 ao ter terminado aquela temporada com três poles e na sétima colocação na classificação geral. Como a MotoGP também busca por um competidor dos EUA, ele recebeu uma proposta para correr na Aprilia. E recusou. Alegou que preferia ficar mais um ano na Moto2 e lutar por títulos, o que poderia abrir outras portas para ele no futuro.

Faltou só combinar com os adversários. No ano passado, Roberts caiu para 13º na tabela, fechando a temporada sem poles nem pódio. Neste começo de 2022, seu melhor resultado foi um oitavo lugar no Qatar.

A situação foi tão esquisita que o empresário do piloto deu uma entrevista dizendo não entender a decisão de seu pupilo de recusar uma vaga em um time de fábrica para continuar na categoria intermediária.

No fim, quem aceitou correr na Aprilia foi… Maverick Viñales. Não que o espanhol tivesse lá muitas opções. No meio de 2021, ele foi demitido da Yamaha. Estava frustrado com a falta de resultados, via seu companheiro, Fabio Quartararo, liderar o mundial e decidiu danificar sua moto de propósito na etapa da Áustria em um momento de fúria.

Para não ficar a pé, aceitou a segunda moto da Aprilia, que naquele momento já estava mostrando evolução, principalmente devido ao aumento dos investimentos por parte da montadora, com Aleix Esparagaró já tendo conquistado um pódio e andando constantemente no grupo dos cinco primeiros.

Hoje, com a Aprilia tendo começado a investir pesado na MotoGP, a aposta dos dois deu resultado, com Espargaró conquistando sua primeira vitória na MotoGP, e Viñales fechando em sétimo na Argentina.

Na comparação, Bezzecchi foi o nono, Dovizioso, o 20º, Di Giannantonio abandonou, Crutchlow não correu e Roberts nem no top-10 da Moto2 está.

Essa situação me lembrou uma que aconteceu na F1 em 2011. Naquela época, a pior equipe da categoria se chamava HRT. Era tão bagunçada que fazia a Aprilia de uns anos atrás parecer a Mercedes do auge de Lewis Hamilton.

A vaga que ninguém queria na F1

Para você ter ideia, a HRT foi selecionada para entrar na F1 em 2010, porque na época iria haver um teto orçamentário, que teoricamente iria permitir times menores lutarem de igual para igual com Ferrari, Red Bull etc.

A HRT, na verdade, se chamava Campos (a mesma que hoje está na F2, F3 etc.), mas, sem patrocinadores, faliu antes mesmo da estreia. O projeto foi salvo porque um empresário espanhol chamado Ramon Carabante resolveu abraçar a equipe.

Agora, imagine que se houvesse o tal teto orçamentário, a HRT já começaria atrás das demais porque faliu e foi salva. Só que esse limite nunca saiu do papel, e as grandes escuderias puderam gastar praticamente o quanto queriam. Nesse cenário, ninguém corria andar pelo time espanhol em 2011.

E quem ficou com a vaga? Daniel Ricciardo. A Red Bull buscava uma vaga para que o australiano, considerado um de seus principais jovens talentos, acumulasse quilometragem na F1 e não estava preocupada com a falta de desempenho da HRT. Imagina só a cara de quem recusou a equipe nessas horas.

Falando sério, o que leva muitos pilotos a recusar esses times menores é que consideram andar na parte de trás do pelotão prejudicial à carreira. Correm o risco de não chamar a atenção das escuderias maiores e rapidamente serem esquecidos. Para eles, vale mais buscar vagas com um pouco mais de garantias, mesmo que não haja nenhuma segurança de que vão conquistá-las.

O problema é que, em alguns casos, o trem não passa duas vezes pela mesma estação. E quem recusou a vaga na Aprilia pode correr o risco de nunca mais embarcar na locomotiva da MotoGP.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos da MotoGP na Argentina, com a primeira vitória da Aprilia, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

HRT F111 Hispania F1 2011
Daniel Ricciardo em seus anos de HRT