A Haas, equipe que terminou com a última colocação na temporada 2021 da F1, se viu no olho do furacão da Guerra da Ucrânia. O problema da escuderia é que seu principal patrocinador é uma empresa da Rússia: a Uralkali, do setor de fertilizantes, cujo um dos sócios é o pai do piloto Nikita Mazepin, titular da esquadra americana.

Como resultado, com o início da guerra, da noite para o dia, a Haas precisou tirar todas as publicidades da Uralkali de seus equipamentos, e o futuro de Mazepin na F1 está mais do que ameaçado.

Só que essa não é a primeira vez que a Haas enfrenta um problema com um patrocinador. Na verdade, é a terceira.

Os problemas da Haas com patrocinadores na F1

A primeira delas aconteceu em 2019, quando o time foi patrocinado por uma empresa chamada Rich Energy. Na época, a fabricante não tinha lançado seu energético no mercado (como não fez até hoje), o que levantou suspeitas sobre a capacidade de honrar o acordo com a escuderia da F1.

Conforme o campeonato foi andando, a Rich Energy passou a ser cada vez mais questionada sobre se realmente tinha o dinheiro para pagar a Haas até que no fim de semana do GP da Áustria a empresa anunciou que estava rompendo o contrato que tinha com a equipe da F1. O motivo? Os pilotos da Haas terminaram atrás dos da Red Bull naquela corrida. Veja se pode uma justificativa dessas…

A partir daí, os carros da Haas correram sem o logo da Rich Energy, e a situação foi parar na Justiça.

Cerca de dois anos depois, veio a segunda polêmica em que a Haas se envolveu. No fim de 2020, o time anunciou que Mazepin seria um dos titulares da equipe para o ano seguinte, ao lado de Mick Schumacher.

Na época, Mazepin já era considerado um piloto problema por causa do comportamento nas categorias de acesso, em que costumava causar acidentes com outros competidores. A situação só piorou quando foi acusado de assédio em um vídeo postado em suas redes sociais.

A escolha por Mazepin podia ser questionada, mas não tinha necessariamente a ver com os problemas do patrocínio que ele trazia.

A polêmica, na verdade, foi que a Haas pintou seu carro de 2021 (da mesma forma como pretendia fazer em 2022) com as cores da bandeira russa, por causa do dinheiro investido pela Uralkali. Só que nessa época a Rússia estava banida das competições esportivas devido a um escândalo de doping. Na prática, significava que seus atletas não poderiam oficialmente defender a Rússia (eram tratados como “equipe dos atletas russos”), não poderiam aparecer com a bandeira do país nem o hino seria tocado.

O carro da Haas pintado nas cores da Rússia era, portanto, uma gambiarra para burlar essa decisão.

Nisso chegamos a 2022, quando o problema deixou de ser um escândalo de doping e passou a ser uma guerra, o que aumentou a pressão para que a bandeira da Rússia fosse removida dos carros da Haas.

Como que uma equipe frequentemente está envolvida nesses problemas de patrocínio? Será que seu departamento comercial enlouqueceu? Será que eles clicam em todo o tipo de spam que recebem por e-mail ou em correntes de zap e tentam fechar acordos?

Não é nada disso. Até 2020, o orçamento da F1 era muito alto. Escuderias como Mercedes e Red Bull chegavam a gastar mais de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) por temporada. Mesmo times menores, como é o caso da Haas, precisavam desembolsar valores bastante elevados.

Não é fácil encontrar uma empesa com bala na agulha para bancar essas quantias. Por isso, as equipes acabavam aceitando acordos mais questionáveis, por exemplo, de empresas que não estão preocupadas com governança ou com a questão ambiental ou então localizadas em zonas de conflito e de desrespeito aos direitos humanos.

Não é uma exclusividade da Haas. Williams, Lotus (as duas mais recentes), Alfa Romeo, entre outras, também tiveram algum problema envolvendo patrocinador ou ficaram a mercê de um de seus pilotos. Essas equipes não são mal intencionadas. Como diria Lewis Hamilton, na F1 “cash is king”.

O lado bom é que a F1 está mudando aos poucos. Desde o ano passado entrou em vigor o teto orçamentário, com as equipes podendo gastar em 2022 até US$ 140 milhões (R$ 720 milhões). Ao mesmo tempo, a popularidade da categoria está crescendo, principalmente nos EUA, e aumentando o número de empresas dispostas a investir no campeonato. Um exemplo é a Red Bull, que acaba de fechar o maior acordo de patrocínio de sua história com a Oracle.

Ou seja, com um limite de gastos (que vai ficando cada vez mais restritivo) e mais empresas interessadas, a tendência é que as equipes passem a ter mais opções para fechar seu orçamento e depender menos de patrocínios questionáveis. Na teoria, é uma evolução. Mas resta ver se na prática é isso o que vai acontecer.

foto de Romain Grosejan
Romain Grosjean pilotando o carro da Haas patrocinado pela Rich Energy em 2019 – foto: lukas raich, own work, CC BY-SA 4.0