Genialidade ou trapaça? Essa é a pergunta que ficou sobre Lucas di Grassi e a Audi após a segunda corrida da etapa de Londres da Formula E 2021.

Para quem não viu a prova, a equipe alemã falou para o brasileiro passar pelo pit-lane enquanto o safety-car estava na pista. O pulo do gato era que a velocidade mínima na área dos boxes era maior que a velocidade com a qual o carro de segurança estava trafegando. Assim, acabava compensando pegar esse caminho alternativo e ganhar posições.

A manobra, de fato, deu certo, e Di Grassi estava liderando a disputa até ser penalizado com um drive-through e posteriormente ser desclassificado.

A desclassificação de Lucas di Grassi na Formula E 2021

Mas a punição só veio por causa de uma tecnicalidade. Pelo regulamento, quando os pilotos vão aos boxes, eles são obrigados a parar o carro. E a Formula E constatou que o equipamento de Di Grassi não chegou a ficar totalmente estacionado. Tivesse gastado ali mais alguns décimos de segundo e parado totalmente, a tática teria dado certo.

O lance levantou o debate: vale ganhar uma corrida com uma manobra como essa?

Defensores da Audi e de Di Grassi vão dizer que o automobilismo é feito de interpretar o regulamento. Se as regras explicitamente não impedem uma manobra, então pode, sim, fazê-la para vencer.

Interpretação criativa das regras acontece direto no automobilismo. Na F1, por exemplo, a Mercedes criou um sistema chamado DAS, em que os pilotos empurravam e puxavam o volante para mudar a cambagem das rodas no meio de uma volta. O aparato foi liberado em 2020, mas para a atual temporada foi proibido. Já a Racing Point/Aston Martin causou polêmica ao desenvolver um carro copiado da Mercedes para o último ano.

Do lado oposto, críticos da estratégia da Audi vão dizer que, apesar de o regulamento não proibir, passar pelo pit-lane para ganhar posições enquanto o safety-car está na pista não faz parte de uma corrida. Nesse sentido, o espírito esportivo deveria falar mais alto, e a montadora alemã deveria mesmo ter sido punida pelo lance.

No fim, a Formula E deu uma tremenda sorte que o carro de Di Grassi não ter parado completamente produziu uma justificativa para aplicar uma punição baseada no regulamento. Do contrário, o campeonato precisaria passar pela situação constrangedora de escolher entre ratificar uma vitória criada em um lance bizarro ou penalizar baseado somente na pressão das outras equipes e dos fãs.

A Formula E tanto sentiu o golpe que já anunciou uma mudança na regra. A partir da próxima etapa, na rodada decisiva de Berlim, lances como o de Di Grassi em Londres estão definitivamente proibidos.

Por fim, a manobra da Audi se soma aos episódios lamentáveis da atual temporada da Formula E, que incluem encerrar uma corrida mais cedo na Arábia Saudita (e ainda por cima punir quem não ativou o attack mode pela segunda vez, porque as voltas finais não foram disputadas), praticamente todo o grid ter ficado sem energia em Valência, as placas de publicidade terem causado abandonos em Puebla e o treino classificatório punir tanto os líderes do campeonato que passou a ser comum um competidor sair de 15º para a liderança em apenas uma prova.

Seja Di Grassi e a Audi genais ou trapaceiros, eles deixaram claro que a Formula E tem um logo caminho pela frente para realmente ser um campeonato mundial.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos da Formula E em Londres, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

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O safety-car deu as caras na etapa de Londres da Formula E 2021 e quase decidiu o resultado – fotos do post: michael kunkel/audi/divulgação