Quando comecei o World of Motorsport, lá em 2010, uma das categorias que eu mais dava atenção por aqui era a F3 Inglesa. Afinal, cinco pilotos brasileiros (Felipe Nasr, Lucas Foresti, Adriano Buzaid, Gabriel Dias e Pietro Fantin) corriam nela e tinham grandes chances de conquistar bons resultados.

Naquele ano, a F3 Inglesa tinha sido marcado por uma polêmica, com a Carlin recebendo a autorização para inscrever seis carros. Nenhuma outra equipe tinha mais que três representantes.

A expansão da Carlin não foi o único motivo para a derrocada da F3 Inglesa nos anos seguintes, mas a crise no campeonato se tornou evidente. Se em 2010 foram 18 competidores espalhados por oito escuderias, dois anos mais tarde o grid teve somente 12 pilotos de apenas quatro times diferentes.

Por que estou contando isso agora?

É que a F4 Espanhola começa a temporada 2021 neste fim de semana com uma equipe, a MP, alinhando nove carros. Imagina só se os concorrentes da Carlin na época da F3 Inglesa ficassem sabendo disso?

Puxada pela infantaria da MP, a F4 Espanhola está no auge. São 28 pilotos confirmados para a rodada de abertura, em Spa-Francorchamps, colocando a categoria como uma das F4 mais populares do planeta, ao lado da Italiana, da Japonesa e da dos Estados Unidos.

O início da F4 Espanhola 2021

Tudo isso depois que a categoria rompeu com seu antigo promotor e, nos últimos anos, passou a ser organizada pelas próprias equipes, o que garantiu, entre outras medidas, que os custos não disparassem.

Ainda assim, vale o alerta. Se a expansão desenfreada da Carlin fez parte da ruína da antiga F3 Inglesa, não há nenhuma garantia que a F4 Espanhola esteja a salvo.

O problema de uma equipe monopolizar as atenções é que ela prejudica a saúde do campeonato como um todo. Enquanto a MP terá nove pilotos neste ano, esquadras como Drives, GRS e Pinnacle alinharão apenas um carro cada uma delas. Já a Praga terá uma dupla.

Dessa maneira, equipes menores passam a ter dificuldade de encontrar pilotos – ainda mais se o desempenho na pista não for bom – e eventualmente podem abandonar o campeonato e fechando as portas. Como consequência, o grid como um todo acaba diminuindo nos anos seguintes, o que enfraquece a categoria e prejudica a própria MP, uma vez que outras F4 passam a ser mais interessantes para quem está começando a carreira.

Daí todo o trabalho feito pela F4 Espanhola para se firmar como uma das principais categorias de acesso do mundo pode se posto a perder.

O segredo da MP na F4 Espanhola

E quem não está reclamando da situação da F4 Espanhola em 2021 é a MP. A escuderia holandesa conseguiu atrair uma infinidade de pilotos, mesclando nomes mais experientes, como o marroquino Suleiman Zanfari, com recém-saídos do kart, como é o caso do holandês Dilano Van’t Hoff.

Desde que a F4 Espanhola foi criada em 2016, só em 2019 a MP foi derrotada, quando o título ficou com Franco Colapinto, da Drivex. Para ter uma ideia de como a escuderia é dominante, de seus seis pilotos no ano passado, cinco deles estavam no top-5 da classificação final.

Não é por acaso que todo mundo quer correr por ela.

Além disso, a MP também foi beneficiada pelo “efeito Max Verstappen”, com mais competidores da Holanda decidindo fazer carreira no esporte a motor, inspirados no titular da Red Bull na F1. Tanto que um dos contratados da MP 2021, Rik Koen tinha feito carreira em uma categoria de Ford Fiesta, na Holanda, antes de decidir se aventurar nos monopostos. Um caminho bastante incomum, mas que contou com um empurrãozinho do sucesso do rubro-taurino.

Você pode clicar aqui para ver como o grid da F4 Espanhola 2021 foi formado, incluindo a gigantesca presença da MP.

foto do topo: f4 espanhola/divulgação

James Calado foi o mais rápido nos treinos em Snetterton
James Calado foi um dos pilotos da Carlin na F3 Inglesa em 2010 – foto: f3 inglesa/divulgação