Quando a Globo anunciou, em setembro do ano passado, que ia parar de transmitir a F1 em 2021, escrevi aqui no World of Motorsport que podia ser o fim do mundo para o automobilismo brasileiro.

Não que a Globo e sua liderança na audiência fossem intocáveis. Mas é que se tratava de mais um episódio na talvez maior crise da história no automobilismo brasileiro.

Na época, o GP do Brasil estava ameaçado de não acontecer por causa do imbróglio entre Rio e São Paulo, não havia (como ainda não há) um representante do país no grid (o que poderia gerar interesse em assegurar a corrida por aqui), não temos uma categoria de base para desenvolver pilotos para a F1 e dependemos de por volta de uma dúzia de competidores que resolveu ir correr na Europa, mesmo em uma época de 1 euro a 7 reais.

Somado a tudo isso, havia o risco de a F1 sair da TV aberta de vez e ir se esconder na TV paga e no streaming, com alcance limitado.

Foi aí que entrou a Band, que apostou no automobilismo como seu carro-chefe (perdão pelo trocadilho) em um momento no qual a emissora tenta voltar a se posicionar como o canal do esporte. Nesse plano, a Band adquiriu o direito de transmissão de campeonatos como a Stock Car, a Porsche Cup, a F2, a F3 e, como cereja do bolo, a F1.

A Globo era criticada pelo seu pouco caso com a F1. Classificação aos sábados e pódio já tinham deixados de ser exibidos. Alguns GPs, que aconteciam no mesmo momento que o futebol, eram mostrados só na TV paga. Pós-corrida, então, nem em sonho na TV aberta.

Os pontos fortes da F1 2021 na Band

E neste primeiro fim de semana de transmissão, a Band foi a anti-Globo. Isto é, ela fez tudo o que os amantes da F1 queriam ver. Começou a transmissão para valer 10h da manhã, duas horas antes de as luzes vermelhas da largada se apagarem, e continuou no ar repercutindo o GP do Bahrein até entregar, já no meio da tarde, para o debate sobre futebol. Isso tudo feito praticamente pela mesma equipe que já trabalhava na cobertura da F1 na Globo.

Outro mérito da Band – e pouco explorado pela emissora concorrente nos últimos – foi entender que a F1 como um todo estava em alta. A equipe de marketing da categoria tem trabalhado para expandir o alcance das corridas e, mais do que isso, de engajar esse público. O maior exemplo é a série Drive to Survive, da Netflix, que conta os bastidores do campeonato. Há também esforços em produzir conteúdo para o YouTube e para as redes sociais e em promover as corridas virtuais.

Ao mesmo tempo, tem surgido inúmeros produtores de conteúdos em Twitter, Instagram e YouTube, que conseguem deixar a F1 em evidência no período entre GPs sem mais a necessidade de se recorrer apenas às mídias tradicionais.

O estouro de Gianluca Petecof, no ano passado, é o que deixa esse fenômeno mais evidente. De repente, pessoas que estavam acostumadas a assistir apenas à F1 passaram a acompanhar um campeonato pré-F3 de olho em um brasileiro que perdeu seu principal patrocinador quando liderava a tabela, ainda assim conseguiu continuar a correr e tinha como companheiro o queridinho da equipe e irmão mais novo de um piloto da Ferrari. Quando que uma categoria para quem está em início de carreira foi tão falada assim antes?

Com tudo isso em conta, o plano da Band para o fim de semana deu mais do que certo, como mostra o Ibope. Pelos dados preliminares, publicados pelo UOL, a emissora teve durante a corrida uma audiência cinco vezes maior que a obtida por ela própria no domingo passado. Teve média de 5,1 pontos, contra 5,2 da Record e 6,8 do SBT. A Globo atingiu 9,2 pontos.

Claro que houve uma dose de sorte. O GP do Bahrein foi bastante emocionante, e a vitória de Lewis Hamilton só foi confirmada no finzinho. Fosse um passeio da Mercedes, como vimos inúmeras vezes nas últimas temporadas, talvez não houvesse fôlego para segurar uma programação falando somente de F1 por tanto tempo.

Mas não entenda o parágrafo anterior como uma crítica à Band. Pelo contrário. A emissora se preparou para falar da corrida – mérito total dela, o que não vinha sendo feito pela Globo – e foi recompensada com um assunto que rendeu.

Havia uma curiosidade para ver como seria o primeiro GP fora da Globo, e a resposta da Band foi muito boa. Mas agora o desafio é repetir a qualidade da cobertura e manter o público engajado por mais 22 corridas neste ano, o que pode se tornar uma tarefa complicada pela quantidade de provas e pela falta de perspectivas de ter um brasileiro no grid.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos do GP do Bahrein da F1, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

A Band ainda contou com a sorte de o GP do Bahrein da F1 2021 ter sido tão disputado – fotos do post: daimler/divulgação