Quem acompanha a carreira de Sergio Sette Câmara vai concordar com este post. O desempenho do piloto mineiro na primeira rodada da temporada 2021 da Formula E, em Ad Diriyah, foi típico do que ele tem feito nos últimos anos.

Mas o que é um desempenho ao estilo Sette Câmara?

Vou usar uma definição que a imprensa internacional cravou sobre ele em 2017. Naquela época, o brasileiro era descrito como um piloto que, em seus melhores dias, não tem adversários. Consegue encarar de igual para igual qualquer outro competidor no mundo. O problema é que nem sempre ele está em seus melhores dias.

Esse conceito veio em um ano que o atual titular da Dragon na Formula E estava em baixa. Ele havia acabado de ser dispensado pelo Red Bull Junior Team e tinha surpreendentemente decidido subir para a GP2 (como a F2 era chamada na época). Corria pela MP, uma escuderia que hoje os brasileiros conhecem bem (foi onde Felipe Drugovich alinhou em 2020), mas que não estava entre as grandes do campeonato.

Nas seis primeiras corridas da F2 naquele ano, um mesmo piloto cravou a pole-position em todas as provas: Charles Leclerc, que defendia a Prema. A impressão era que o monegasco poderia até mesmo terminar aquela temporada largando em primeiro sempre. Mas aí veio a etapa do Red Bull Ring, e de repente um piloto praticamente desconhecido começou a andar no mesmo ritmo de Leclerc. Era Sette Câmara.

Quando ninguém esperava, o brasileiro marcou o segundo tempo na classificação e ia dividir a primeira fila com Leclerc. Só que Sette Câmara foi desclassificado porque seu carro teve uma pane seca no fim do treino. Ainda assim, ele voltou a andar forte no fim daquele ano, conquistando uma vitória em Spa-Francorchamps.

Os altos e baixos de Sergio Sette Câmara

Esse episódio mostra como a carreira dele tem sido marcada por esses altos e baixos às vezes instantâneos. Por exemplo, o que falar do GP de Macau de 2017, em que Sette Câmara foi o piloto que mais se acidentou nos treinos livres, ainda assim conseguiu liderar a prova praticamente toda e só foi derrotado porque se envolveu em uma batida na última curva da última volta?

Isso depois de em 2016 ele ter liderado o começo da corrida de Macau e terminado no pódio sendo o mais bem classificado entre os pilotos vindos das categorias de base. Na frente dele, só António Félix da Costa e Felix Rosenqvist, que foram (inexplicavelmente) liberados para correr, apesar de já serem profissionais naquela época.

Teve também a estreia de Sette Câmara na Super Formula, no ano passado, quando o brasileiro conquistou a pole-position de forma totalmente surpreendente, mas bateu na corrida principal ao cometer um erro ao forçar o carro na saída dos boxes, quando ainda estava com os pneus frios e com pouca aderência.

Em Ad Diriyah, o fim de semana começou não muito bom para o brasileiro, com ele batendo na classificação disputada na sexta-feira. Era a chance de a equipe Dragon, uma das piores do grid, se beneficiar das regras da Formula E (que dá uma pequena vantagem para quem está na parte de baixo da tabela poder fazer a tomada de tempo quando a pista tem mais aderência) e encerrar o jejum de mais de um ano fora do top-10.

A recuperação veio no domingo, com Sette Câmara marcando o segundo melhor tempo na definição do grid de largada. Por mais que haja esse benefício das regras para as equipes menores, o desempenho do brasileiro foi muito bom. Ele colocou quase 1s no companheiro de Dragon, o experiente Nico Müller, e também foi 0s2 mais rápido que Sam Bird, o vencedor da prova.

Na corrida, Sette Câmara praticamente não cometeu erros. Ele não conseguiu segurar Bird na largada e teve dificuldades para manter o ritmo dos pilotos que geralmente lutam pelo título, como Jean-Éric Vergne e Félix da Costa, da DS Teecheetah. Ainda assim, cruzou a linha de chegada em sexto, que já poderia ser considerado um ótimo resultado e acabou virando um quarto posto com as punições aplicadas a JEV e a Nick Cassidy.

O quarto lugar do brasileiro foi o melhor resultado da Dragon na Formula E desde o pódio obtido por Jérôme D’Ambrosio no fim de 2018.

E lembrando que Sette Câmara corre com um equipamento defasado. A Dragon Penske é uma das poucas equipes que começaram a Formula E 2021 com o carro da temporada anterior. E olha que no ano passado o time só tinha marcado dois pontos, então o equipamento era ruim mesmo.

Para este ano, a escuderia apostava em melhores resultados, pela reformulação do time de engenheiros e também pela chegada de Sette Câmara. Mas nem os mais otimistas esperavam comemorar o quarto lugar (e o quinto com Müller) na abertura da temporada.

Você pode clicar aqui para conferir os resultados completos da Formula E em Ad Diriyah, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

Sergio Sette Câmara largou da segunda colocação na segunda corrida da etapa de Ad Diriyah da Formula E 2021 – foto: dragon penske autosport/quick comunicação/divulgação