Logan Sargeant, piloto que terminou com o terceiro lugar na F3 2020 ao deixar o título escapar ao se envolver em um acidente na segunda curva da última corrida do ano, revelou que não tem onde correr em 2021. O motivo? Falta de dinheiro.

Sargeant disse que a crise econômica afetou seus patrocinadores (no caso, o pai do próprio piloto), e não conseguiu o orçamento necessário para subir para a F2. Assim, busca alguma vaga em categorias de protótipos ou até mesmo no Road to Indy em 2021.

O atual terceiro colocado da F3 ter ficado a pé reacendeu o debate sobre como fazer carreira no esporte a motor se tornou insustentável. Afinal, competidores que terminaram (bem) atrás dele na tabela já tem onde correr em 2021.

Mais do que isso, também é um caso de como alguns nomes recebem mais oportunidades que outros, mesmo os que não têm resultados tão bons assim.

Um exemplo é Marcus Armstrong, neozelandês que integra a Academia da Ferrari e já era considerado fenômeno das pistas desde a época em que estava no kartismo. Só que seus resultados recentes, de 2018 para cá, não foram tão promissores assim.

Em 2018, Armstrong foi o quinto colocado na F3 Euro, categoria que rivalizava com a GP3. Terminar em quinto em seu ano de novato e não é um desempenho ruim. O único problema foi que outros três estreantes (Dan Ticktum, Robert Shwartzman e Juri Vips) ocuparam da segunda à quarta colocação na tabela naquele ano.

Já em 2020 o desempenho do neozelandês deixou muito a desejar em seu primeiro ano na F2. Correndo pela equipe ART, ele foi derrotado com facilidade pelo então companheiro de time, Christian Lundgaard. Enquanto o dinamarquês da academia da Renault obteve duas vitórias e outros quatro pódios para ser o sétimo na tabela, Armstrong encarou um jejum de 12 corridas sem marcar pontos, sendo somente o 13º na classificação final.

Só que após o desempenho ruim em 2020 ele não foi “punido”. Pelo contrário. Acabou premiado com a vaga de primeiro piloto da Dams, uma das escuderias mais tradicionais da F2 e que, com Sergio Sette Câmara e Nicholas Latifi, terminou em primeiro lugar no campeonato de equipes de 2019.

Alguém pode argumentar que sempre houve política envolvida no automobilismo. Seja por serem mais bem avaliados, pelo dinheiro ou pelo lobby, alguns pilotos acabam recebendo mais oportunidades que outros.

Falta de concorrência nas categorias de acesso da F1

O problema hoje é que essa situação acontece de forma mais intensa porque praticamente não há concorrência nas categorias de acesso. Não existem campeonatos alternativos à F2 e à F3.

Além disso, as mesmas equipes estão presentes em todos os degraus da base: a Prema, por exemplo, corre na F2, na F3, na F-Regional e também na F4. O mesmo acontece com a MP. E a Carlin anda na Euroformula Open e na F3 Inglesa em vez da Regional. Como consequência, acabam sendo os mesmos pilotos que recebem as mesmas oportunidades.

Assim, fica a dúvida, será que esses competidores são bons mesmo ou eles só se destacam porque têm acesso aos melhores carros?

Se houvesse mais campeonatos na base, poderíamos ver outros pilotos andando bem e teríamos um retrato melhor de quem realmente é muito acima da média e de quem está progredindo graças ao equipamento à disposição.

E um dos motivos para não haver mais campeonatos para os jovens pilotos foi a FIA ter favorecido as categorias que ela mesmo organiza na hora de distribuir os pontos da superlicença, o documento obrigatório para correr na F1. Dessa maneira, algum promotor até pode criar um campeonato concorrente à F2, por exemplo, mas com poucos pontos para a superlicença dificilmente encontrará pilotos interessados.

Assim, enquanto há praticamente um monopólio nas categorias de baste, vemos casos como o de Sargeant e de muitos outros, que, mesmo com bons resultados, não conseguem dar prosseguimento à carreira.

foto do topo: prema/divulgação

foto do carro de Sergio Sette Câmara
Sergio Sette Câmara se destacou correndo pela Dams em 2019- foto: james gasperotti/quick comunicação/divulgação