Com 17 corridas disputadas em 23 fins de semana, a temporada 2020 da F1 chegou ao fim em Abu Dhabi. E não é nenhum exagero dizer que a categoria trouxe alguma normalidade para nós neste ano maluco, tomado pela pandemia e com poucas perspectiva de as coisas voltarem ao normal.

Quer dizer, a F1 em 2020 foi tudo menos normal.

A gente já devia ter desconfiado que seria uma temporada um pouco diferente quando Lando Norris acelerou nas voltas finais do GP da Áustria para tomar o pódio de Lewis Hamilton. Ou quando o piloto da Mercedes venceu o GP da Inglaterra com um pneu furado. Ou então quando Nico Hulkenberg apareceu de surpresa em Silverstone, para substituir Sergio Pérez, colocou o carro da Racing Point em terceiro no grid e parecia que enfim ia conseguir seu primeiro pódio na F1.

Para falar a verdade, nesse tempo até teve umas etapas menos emocionantes, como os GPs da Espanha e da Hungria, em que Hamilton, Valtteri Bottas e Max Verstappen monopolizaram o pódio.

Mas se a gente achava que Hulkenberg com chances de pódio era o auge das cenas improváveis é porque éramos inocentes.

Aí veio o GP da Itália, e todas as definições de corrida maluca foram reescritas. Para começar, a vitória ficou com Pierre Gasly, o patinho-feio demitido da Red Bull cerca de um ano atrás, que deu a volta por cima da melhor maneira possível e salvou sua carreira. E o pódio ainda contou com Carlos Sainz – que por muito pouco não ficou com a vitória – e com Lance Stroll.

As novas pistas da F1 2020

Com a loucura de Monza ficando para trás, a segunda metade da temporada começou com o tour das pistas improváveis: Mugello, Nurburgring e Algarve entraram no calendário de última hora para garantir que 17 GPs fossem disputados em meio às restrições de viagens e de fronteiras fechadas.

Cada uma delas teve alguma especificidade. Mugello foi marcada por um incomum big-one em uma relargada, que eliminou quase metade do grid. Na Alemanha, Hulkenberg voltou ao grid depois de Lance Stroll ter testado positivo para a covid-19 e abafado o caso. Já Portugal viu o início de uma recuperação da Ferrari que nunca se firmou.

Daí a F1 chegou à Turquia, uma corrida que pretendia colocar 100 mil pessoas nas arquibancadas e acabou sendo realizada de portões fechados. E teve certa dose de Itália por lá. Stroll, quem diria, largou na pole-position e liderou boa parte da prova até precisar fazer uma parada extra por causa do desgaste dos pneus. Ainda assim, Sergio Pérez terminou com a segunda colocação, salvando em parte o fim de semana da Racing Point. Esse já era o melhor resultado do time em sua curta história na F1. O que mais eles poderiam desejar para este ano, não é mesmo?

Quem não teve nada a ver com o drama da Racing Point foi Hamilton, que cruzou a linha de chegada na frente e garantiu seu sétimo título mundial. E com direito a Sebastian Vettel no pódio, pela última vez com uma Ferrari.

Alguém mais atento pode ter percebido que eu pulei o GP da Bélgica lá em cima. É que a corrida deste ano foi cercada de emoção e homenagens a Anthoine Hubert, piloto da F2 que morreu em um grave acidente na corrida disputada por lá no ano passado, e merece um parágrafo só para ela.

Essa, aliás, não foi a única prova marcada por homenagens. Teve também o retorno da F1 a Imola – que dessa vez não foi o GP de San Marino – após quase 15 anos. Foi a chance de mais uma vez relembrarmos como era acordar naqueles domingo de manhã para acompanhar Ayrton Senna.

Mas acho que a gente pode concordar que emoção mesmo na F1 durou 28 segundos. Os 28 segundos entre o carro de Romain Grosjean ter perfurado o guard-rail do GP do Bahrein, partido ao meio, virado uma enorme bola de fogo e o piloto ser resgatado. Em um dos acidentes mais feios que já vi desde que comecei a acompanhar as corridas, Grosjean escapou apenas com queimaduras na mão.

E olha que ainda teve tempo de mais surpresas em 2020. Logo em seguida, a Haas anunciou que Pietro Fittipaldi seria o substituto do francês nas duas últimas corridas do ano, encerrando um jejum de quase três anos sem brasileiros na principal categorias do automobilismo mundial.

Brasil de volta ao grid da F1 em 2020

Fittipaldi é um capítulo à parte. Nos últimos anos, ele ouviu todas as críticas possíveis. Tinha quem defendia que ele deveria ter continuado na Nascar, quem questionava a habilidade dele por ter corrido sempre em campeonatos alternativos, quem não concordava com ele ter conseguido os pontos suficientes para a superlicença, quem achava um absurdo ele não competir em nada em 2020, entre outros detratores. Mas Fittipaldi não desistiu do projeto de um dia chegar à F1. E quando já parecia improvável que recebesse uma oportunidade, ele teve a chance de subir no carro da Haas e colocar seu nome na história do Brasil na principal categoria do automobilismo mundial.

Fittipaldi não foi o único que teve uma grande oportunidade no GP de Sakhir. O que falar de George Russell? Último colocado na temporada 2020 e que há dois anos busca somar seus primeiros pontos na F1, ele foi chamado para entrar no carro da Mercedes de Lewis Hamilton, que havia contraído a covid.

Russell não fez feio. Pelo contrário. Liderou dois dos três treinos livres, assumiu a liderança na primeira curva e ainda conseguiu ultrapassar Valtteri Bottas em outra batalha. Mas dessa vez não teve conto de fadas. Essa não é a história do piloto que estava em último, recebeu a grande uma oportunidade única e terminou no alto do pódio. É a história da Mercedes, que tentou se exibir fazendo o pit-stop de seus dois pilotos ao mesmo tempo, fez lambança com as rodas e estragou tudo. Tudo bem, ainda deu para Russell marcar seus primeiros pontos na F1.

Mas essa também é a história de Pérez. O piloto que ficou sem vaga na F1 em 2021 (mas ainda pode pintar na Red Bull), que bateu na segunda curva da prova, que estava em 18º nos giros iniciais e que conseguiu se recuperar para conquistar a primeira vitória da Racing Point. Lembra que o GP da Itália reescreveu as definições de uma corrida maluca? Pois é, tivemos que reescrever de novo.

Eu poderia encerrar essa retrospectiva por aqui, mas por algum motivo a F1 insiste em correr em Abu Dhabi. Mas para a surpresa de um total de zero pessoas, não aconteceu nada por lá. De relevante, a Mercedes perdeu, e Verstappen ganhou.

Não sei como será a temporada 2021 da F1, fico na torcida para que a situação no mundo melhore, e as 23 provas previstas sejam realizadas. Mas há duas certezas: a primeira é que ela precisará se esforçar muito para ser tão louca quanto foi a de 2020. E a segunda é que Abu Dhabi deverá ser chata demais.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos do GP de Abu Dhabi da F1, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

foto do topo: daimler/divulgação

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Pietro Fittipaldi marcou a volta do Brasil ao grid da F1 após três anos – foto: rf1/haas/divulgação