Escrevi aqui no World of Motorsport, na semana passada, um post chamado “Outro forte adversário para Caio Collet na F-Renault Eurocup“. Era sobre o britânico Johnathan Hoggard, recordista de vitórias por onde passou, que estrearia no campeonato como companheiro de equipe do brasileiro e poderia complicar as coisas dentro da escuderia.

O texto foi publicado na terça-feira. Na quarta, a organização da F-Renault anunciou a chegada de outro competidor para a etapa de Imola no fim de semana: David Vidales, de 18 anos, considerado o maior piloto surgido na Espanha desde Fernando Alonso. E olha que estamos falando de uma época em que também apareceram Carlos Sainz Jr e Alex Palou.

Resultado: Hoggard, de quem eu enchi a bola, terminou as duas corridas na parte debaixo do grid e nem sequer marcou um único ponto. Já Vidales chegou atropelando, ganhando as duas baterias do fim de semana, que também foram suas duas primeiras corridas da carreira nos monopostos.

Moral da história, se eu tivesse segurado o texto sobre Hoggard para quarta e acrescentado um parágrafo sobre Vidales, não ia estar precisando fazer essa mea culpa agora.

Voltando ao espanhol, de um lado o resultado dele em Imola foi surpreendente, porque ninguém esperava o tamanho do domínio. Mas, do outro, estamos falando de um competidor que já era considerado muito acima da média desde seus anos no kartismo.

Sua principal conquista no kart é um curioso tri-vice-campeonato mundial. Em 2016 ele foi o segundo colocado na divisão OKJunior (atrás do francês Victor Martins, que também correu em Imola no fim de semana), no ano seguinte subiu para a OK e ficou só atrás do britânico Danny Keirle (em uma das maiores zebras no kartismo dos últimos tempos) e, em 2019, foi o vice do francês Emilien Denner na KZ2, os karts com marcha.

Por mais que ninguém queira ficar marcado por ser vice-campeão, disputar o título mais importante da modalidade por tanto tempo e em diferentes divisões só mostrou que Vidales é um piloto muito bom.

A estreia da David Vidales na F-Renault Eurocup

Na verdade, já havia a expectativa que ele estreasse nos monopostos em 2019, mas optou por ficar mais um ano no kartismo e fazer a transição só nesta temporada. E, em vez de correr na F4, como a maior parte dos jovens pilotos fazem no começo da carreira, o espanhol preferiu subir direto para um certame de F3.

Ele estava escalado para tomar parte na F-Regional pela equipe US, de Ralf Schumacher. Mas devido ao desempenho abaixo do esperado na pré-temporada e do pequeno número de inscritos para o certame, Vidales optou por mudar para a F-Renault Eurocup em cima da hora, acertando com a equipe italiana JD. O acordo veio tão tarde que ele ficou de fora da abertura do campeonato, em Monza, disputada há duas semanas.

Por causa do acerto tardio com a JD, havia dúvidas se Vidales conseguiria se adaptar rapidamente ao equipamento da F-Renault. Mas todas essas questões foram rapidamente respondidas pelo espanhol com um domínio impecável no fim de semana.

A primeira vitória da carreira

Mas o quão comum é um piloto vencer logo na estreia nos monopostos?

Se compararmos a outros nomes bastante famosos, veremos que é raríssimo.

Talvez nenhum dos jovens pilotos da atualidade tenha um sobrenome tão conhecido quanto Mick Schumacher. E o alemão demorou apenas três corridas nos monopostos para conquistar o primeira triunfo da carreira. Então com 16 anos de idade, triunfou na terceira bateria da rodada de Oschersleben da F4 Alemã, de 2015. Ou seja, ele levou dois dias ou três corridas para subir ao degrau mais alto do pódio.

Prodígio nas categorias de base com três títulos em três anos, Robin Frijns, hoje no DTM e na Fórmula E, demorou um pouco mais. Precisou de cinco corridas para cruzar a linha de chegada na frente, quando disputava a F-BMW Europeia em 2009.

Já Nyck De Vries, que assim como Vidales era dono de um currículo recheado no kartismo e chegou a ser comparado a Lewis Hamilton no começo da carreira, demorou 15 provas até a primeira conquista, em 2012.

Mas o que acontece quando olhamos para a F1?

Atual campeão, Lewis Hamilton debutou nos carros no fim de 2001, no campeonato de inverno da F-Renault UK, mas a primeira vitória só veio no ano seguinte, na temporada regular do certame. Foram nove corridas no período.

E Max Verstappen, fenômeno em tudo o que competiu, demorou um pouco menos: seis provas ou onze dias. O primeiro triunfo do holandês aconteceu em 2013, no roval de Homestead-Miami, em um certame de pré-temporada chamado Florida Winter Series, que havia sido organizado pela Academia da Ferrari para dar mais quilometragem aos seus pupilos e teve alguns convidados, incluindo Verstappen.

Vidales, portanto, foi mais rápido que todos eles. Mas fica o aviso. Ganhar na estreia não é garantia de sucesso no resto da carreira.

Afinal, entre aqueles que também venceram suas primeiras corridas da vida, Beitske Visser, que hoje está na W Series, ainda busca se firmar, enquanto Kevin Magnussen luta no máximo por pontos na F1. A holandesa, antes de estrear nos monopostos, foi convidada para participar de uma prova de GT na Holanda e saiu-se vencedora. Já Magnussen, assim que saiu do kartismo, levou a melhor na rodada de abertura da F-Ford de seu país.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos da etapa de Imola da F-Renault Eurocup, assim como os das principais categorias do automobilismo mundial no fim de semana.

foto do topo: françois flamand/dppi/renault sport/divulgação

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David Vidales já era considerado um fenômeno das pistas desde o kartismo – foto: antonin vincent/dppi/renault sport/divulgação