Foi de partir o coração ver Charles Leclerc ter um problema de motor, faltando pouco mais de dez voltas para o fim do GP do Bahrein, e deixar escapar sua primeira vitória na F1.

Mas a corrida disputada no domingo também serviu para lembrar que os carros da principal categoria do automobilismo mundial em algum momento podem quebrar.

Quer dizer, se você for piloto de um equipamento da Renault, aí todo GP é uma lembrança que o carro pode falhar…

É verdade que abandonos assim, ainda mais nas grandes equipes, não são tão comuns. Desde o fim da década de 1990, as escuderias (e as montadoras que entraram na F1) passaram a investir pesado na confiabilidade de seus componentes.

Quase ao mesmo tempo, com a justificativa de corte de custos, o regulamento foi modificado, impedindo que os carros andem no limite. Por exemplo, agora cada piloto pode usar apenas três motores ao longo de toda a temporada. Para evitar quebras – e eventuais punições – os propulsores andam numa margem de segurança e jamais são forçados ao máximo.

Assim, episódios como o de Leclerc no Bahrein ainda acontecem, mas são raros na F1 contemporânea.

Há 22 anos, Damon Hill passou por situação semelhante à do atual piloto da Ferrari. Foi no GP da Hungria de 1997, disputado debaixo de muito sol em Budapeste.

Damon Hill e o GP da Hungria de 1997

Os problemas do britânico, na verdade, começaram cerca de um ano antes. Apesar de ter sido campeão da F1 em 1996, ele foi demitido da Williams para a vinda de Heinz-Harald Frentzen. Para não ficar sem vaga, assinou com a Arrows, considerada uma das piores escuderias do grid.

Só que contar com um campeão não mudou o patamar do time. Tanto que antes do GP da Hungria, realizado em agosto, Hill tinha somado um único ponto naquela temporada. Pedro Paulo Diniz, seu companheiro, não tinha nenhum.

Mas bastou chegar a Hungaroring que o carro da Arrows mudou da água para o vinho. No primeiro treino livre, Hill foi o quinto mais veloz. E olha que ele só pôde sair à pista nos últimos cinco minutos, já que o resto do tempo a equipe passou consertando um problema na caixa de câmbio.

A boa fase continuou na classificação, com Hill marcando o terceiro tempo no grid, 0s3 atrás de Michael Schumacher, o pole.

Na corrida, o campeão de 1996 ultrapassou a Williams de Jacques Villeneuve logo na largada e não deixou Schumacher disparar. Quando os carros abriram a 11ª volta, Hill colocou por dentro, passou o alemão da Ferrari e assumiu a liderança.

Talvez você esteja se perguntando qual foi a mágica da Arrows para, da noite para o dia, Hill ter o melhor equipamento do grid.

O segredo da Arrows na F1

O segredo eram os pneus. Enquanto as equipes grandes, incluindo Ferrari e Williams, usavam borracha da Goodyear, as menores, como era o caso da Arrows, tinham contrato com a Bridgestone, recém-chegada à F1.

Como estava muito quente na Hungria, quem tinha compostos da Goodyear estava sofrendo com granulação da borracha, cuja consequência é a perda de aderência e, portanto, de velocidade. Por essa razão, Schumacher precisou fazer três paradas nos boxes durante a prova, desabando na classificação, enquanto Villeneuve andava o mais devagar possível, sem forçar seus pneus, para conseguir chegar ao fim.

Com seus adversários tendo problema, Hill voava pelo traçado húngaro. Faltando três voltas para o fim, a vantagem para o canadense era de 35s. Se o britânico recebesse a bandeira quadriculada na frente, seria a primeira vitória da Arrows na F1, o primeiro triunfo do péssimo motor Yamaha e também a primeira vez que um carro com pneu Bridgestone ganharia.

Foi quando o equipamento de Hill teve um problema hidráulico, ficando preso na terceira marcha.

Assim que houve a quebra, a Williams falou pelo rádio a Villeneuve que seu antigo companheiro de equipe estava ficando lento e pediu ao canadense que acelerasse tudo o que podia – e também o que não podia. O piloto descontou mais de 25s nas duas voltas seguintes e abriu o último giro em perseguição a Hill.

Na metade do traçado, a Williams grudou no adversário, que fez de tudo para defender a posição. Para fazer a ultrapassagem, Villeneuve botou o carro na grama, mas conseguiu assumir a ponta e receber a bandeira quadriculada na frente, partindo os corações de todo mundo que torcia por Hill nesse embate entre Davi e Golias da F1.

A vantagem para o resto do pelotão era tão grande, que o britânico ainda foi capaz de cruzar a linha de chegada em segundo. Johnny Herbert, também com pneus Bridgestone, completou o pódio em uma Sauber.

Na entrevista após a corrida, Hill preferiu ver o lado positivo. Disse que, quando a Arrows começou a falhar, ele pensou que ia abandonar, então salvar o segundo lugar foi lucro.

Apesar da vitória ter escapado na Hungria, Hill voltou ao degrau mais alto do pódio no ano seguinte. Em 1998, ele assinou com a Jordan e saiu vitorioso do GP da Bélgica. A expectativa, agora, é que Leclerc não demore tanto tempo para triunfar pela primeira vez na F1.

Você pode clicar aqui para ver os resultados completos do GP do Bahrein da F1 2019, assim como os das principais categorias do esporte a motor no fim de semana.

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Damon Hill liderou a maior parte do GP da Hungria da F1 1997 em sua Arrows – foto: race27 – Own work, CC BY-SA 3.0