Por que as corridas de carro foram proibidas na Suíça por 63 anos?

Quando as luzes verdes se apagarem, e os 20 carros da Formula E largarem para a décima etapa da temporada, neste domingo, em Zurique, eles estarão encerrando um longo período de 63 anos sem corridas na Suíça.

Mas você sabe por que o automobilismo foi praticamente proibido no país europeu por tanto tempo?

Foi por causa da grande tragédia das 24 Horas de Le Mans de 1955, em que o pior acidente da história do automobilismo matou 83 espectadores e o piloto Pierre Levegh e deixou quase 200 feridos.

No dia 11 de junho de 1955, a corrida ainda nem tinha completado duas horas e meia de duração quando a batida ocorreu. Foi na 35ª volta, momento no qual o britânico Mike Hawthorn, que liderava a prova em um Jaguar, foi fazer sua primeira parada nos boxes.

Na época não existia em Le Mans – nem na maior parte das pistas – uma área de desaceleração para quem fosse ao pit-stop. Os pilotos precisavam avisar por sinais uns aos outros que iam parar.

O Jaguar era um dos carros mais avançados do grid, com um freio bastante eficiente. Quando Hawthorn foi para os pits, ele saiu do traçado ideal, na esquerda, e se dirigiu para o lado direito, onde ficava a entrada dos boxes, cruzando bem na frente de um retardatário, o Austin Haley do também britânico Lance Macklin. Este nem esperava que o primeiro colocado pudesse desacelerar a tempo e tomou um susto com a manobra.

Para não bater no líder, Macklin tentou desviar, mas ficou sem controle, indo para a esquerda, onde o Mercedes de Levegh, que tinha acabado de tomar uma volta, vinha em alta velocidade, a cerca de 200 km/h.

O francês não teve tempo de evitar o acidente. Com o impacto, seu carro decolou e foi parar em um morro que servia para separar o público e a pista. Ao se chocar com essa barreira, o equipamento tomou impulso e atingiu uma área de concreto, se desintegrando. Partes como o motor e o radiador caíram em cima de alguns espectadores, enquanto componentes pontiagudos do carro funcionaram como um facão vindo dos céus, rasgando quem estivesse pelo caminho.

Uma segunda parte do carro, com o tanque de combustível, também foi parar perto da arquibancada. Por causa do magnésio que tinha sido usado para construir sua carroceria, pegou fogo imediatamente, causando ainda mais vítimas entre quem assistia.

Como os pilotos não usavam cinto de segurança na época, Levegh foi arremessado para fora do veículo e morreu ao bater no asfalto.

Para conseguir fazer o resgate dos feridos a tempo, a direção de prova tomou uma curiosa decisão e não acionou a bandeira vermelha, continuando com a corrida. Eles queriam evitar que o público fosse embora da pista, causando um enorme congestionamento na saída de Le Mans e impedindo que ambulâncias e carros de resgate chegassem ao autódromo.

Cerca de 30 minutos após o acidente, o americano John Fitch, parceiro de Levegh no Mercedes, resolveu ligar para sua família e avisar que estava bem. Ele tinha medo que seus parentes soubessem da batida pelo rádio e imaginassem que ele era quem tinha se acidentado. Enquanto buscava um telefone, o piloto foi para a área onde estavam os jornalistas e ficou sabendo que naquele momento quase 50 mortes já tinham sido confirmadas.

Fitch voltou aos boxes e contou à Mercedes o tamanho da tragédia. Assim que a notícia chegou aos chefões da montadora, em Stuttgart, eles aprovaram que a equipe abandonasse a corrida imediatamente, mesmo com o outro carro – pilotado por Juan Manuel Fangio – na liderança.

A marca alemã não só deixou a prova, como o automobilismo como um todo. Só voltou às competições em 1989, como parceira da Sauber no Mundial de Esporte-Protótipos.

Obrigado a sair da corrida, Fangio perdeu sua melhor chance de vencer as 24 Horas de Le Mans, um objetivo que nunca alcançou em sua carreira, mesmo tendo participado de praticamente todas as edições dela na década de 1950.

Em entrevistas, o argentino disse que Levegh conseguiu salvá-lo do acidente. Segundo o pentacampeão da F1, o francês, antes de seu automóvel decolar, tinha feito um pequeno sinal com a mão para que o companheiro de equipe diminuísse a velocidade. Foi assim que Fangio conseguiu evitar o carro de Macklin, que continuara desgovernado pela pista.

Apesar das investigações sobre a batida não terem apontado um piloto como culpado – disseram que a pista não era segura o suficiente -, Levegh foi bastante criticado por estar correndo aos 49 anos – considerada uma idade avançada para alguém em um autódromo de altíssima velocidade.

Curiosamente, ele tinha recebido a chance de competir pela Mercedes em Le Mans porque três anos antes quase se tornou a primeira pessoa a vencer a tradicional prova francesa correndo todas as 24 horas sozinho. Em 1952, ele abandonou quando estava na liderança por causa de um problema no motor faltando pouco mais de uma hora. Com sua saída da disputa, a montadora alemã herdou a ponta e recebeu a bandeirada na frente. Nos boxes, Levegh foi cumprimentar os adversários pelo triunfo, quando ouviu a promessa de que um dia andaria na França pela fabricante.

A entrevista de Fangio, portanto, aliviou as críticas a Levegh.

O acidente também fez com que França, Espanha, Alemanha e Suíça proibissem a prática do esporte a motor. Nos EUA, a modalidade foi reformulada, com a criação da Usac para chancelar as provas.

Nos meses seguintes França, Alemanha e Espanha liberaram as corridas de carro, mas o veto continuou na Suíça, onde apenas provas contra o relógio – como rali e subida de montanha -, além do motocross, foram permitidas.

Nos últimos anos, houve alguns debates para que a proibição acabasse. No fim da década passada, o órgão que equivale à câmara dos deputados da Suíça até aprovou o retorno das corridas, mas o senado (Ständerat) manteve o veto.

Enquanto as provas com veículos usando motor a combustão ainda são proibidas, a Suíça liberou, em 2015, corridas com automóveis elétricos, abrindo caminho para a etapa da Formula E em Zurique.

Há um fator ambiental na decisão, mas também há um componente econômico. Afinal, a abertura aconteceu justamente no momento em que Sébastien Buemi se firmou como um dos principais pilotos da Formula E, então é uma forma de garantir receitas de público e patrocinadores interessados na categoria.

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