David Coulthard sempre levou a bandeira da Escócia no capacete
David Coulthard sempre levou a bandeira da Escócia no capacete

A primeira lição das aulas de história, lá na quinta ou sexta série, é que precisa de muitos e muitos anos para podermos ter compreensão de um fato. Somente os historiadores do futuro que olharem para 2014, terão noção exata do quão importante foi a votação para a independência da Escócia. Terá sido um ato isolado ou algo maior, parte de um processo global nacionalista-separatista nos próximos anos?

Hoje, como foi ensinado, ainda não dá para responder. Por isso, mais fácil focar no presente e especular o que poderia ter sido da Escócia — e do Reino Unido — caso o ‘Sim’ tivesse sido vencedor na ultima semana. Como o World of Motorsport é um blog sobre automobilismo, o esporte a motor será o assunto aqui.

Não é surpreendente, mas caso a independência tivesse sido aprovada, o Reino Unido perderia boa parte da própria história nas corridas de carro. Seriam cinco títulos a menos na F1, uma vez que o tricampeão Jackie Stewart e o ‘golden boy’ Jim Clark nasceram em terras escocesas.

Pensar que Stewart e Clark deixariam de ser considerados britânicos poderia ser tão devastador para o automobilismo inglês quanto se a zona norte de São Paulo se desligasse do resto do país e um certo Ayrton Senna não fosse mais considerado brasileiro.

Dario Franchitti seria uma perda para o automobilismo britânico
Dario Franchitti seria uma perda para o automobilismo britânico

Evidentemente, alguém poderia argumentar e dizer que os títulos de Clark e Stewart vieram enquanto o país estava unido, por isso a história pertence aos dois locais. É verdade. Também não dá para dizer se eles teriam condições de chegar à F1 sozinhos caso a Escócia fosse independente nas décadas de 1960 e 1970. Mas é curioso pensar que os britânicos poderiam dormir megavencedores da F1 e acordar com cinco campeonatos a menos.

E o prejuízo não ficaria restrito apenas à principal categoria do automobilismo mundial. Na Indy, a situação é ainda pior. Melhor piloto da história recente da categoria, Dario Franchitti também é escocês. Ou seja, das cinco taças britânicas no certame norte-americano quatro teriam ido embora com o ‘Sim’.

Algo similar aconteceria no rali. O saudoso Colin McRae, que fez história no Subaru Impreza azul e amarelo, era escocês. Considerado um dos maiores nomes do WRC na década de 1990, o piloto seria outra perda para o Hall da Fama britânico.

As gerações mais novas, aliás, se acostumaram a torcer por escoceses na televisão. David Coulthard venceu 13 das 246 corridas que participou na F1, competindo por Williams, McLaren e Red Bull, sempre carregando a bandeira do país no capacete. Hoje, ele é comentarista de televisão e passaria a ser visto como um estrangeiro nas coberturas. Allan McNish, que fez mais sucesso no endurance que na principal categoria do automobilismo mundial, é outro nascido no fora da Inglaterra.

Apesar desses desfalques para o automobilismo do Reino Unido sem a Escócia, a tendência é que o cenário mudasse no futuro. É que hoje é mais comum vermos garotos ingleses que escoceses começando a carreira. Da terra de Glasgow e do uísque, os principais nomes nas divisões de base são Lewis Williamson, dono de uma passagem relâmpago pelo programa de pilotos da Red Bull, Gregor Ramsay, da Lotus Junior, e Sam MacLeod, na F3 Alemã.

Por outro lado, os escoceses não têm feito feito nos campeonatos britânicos. Gordon Shedden venceu o BTCC há duas temporadas, enquanto Charlie Robertson está na briga para conquistar o principal campeonato da Ginetta em 2014. Aliás, não deixa de ser curioso saber como eles votaram na última semana.