A passagem de Gerhard Berger pela FIA pode estar chegando ao fim
A passagem de Gerhard Berger pela FIA pode estar chegando ao fim

Os dias de Gerhard Berger na FIA podem estar contados. Ocupando o posto de responsável da entidade internacional pelas categorias de base, o austríaco deu uma entrevista à edição desta semana da revista ‘Autosport’ e afirmou que planeja deixar o cargo para poder se concentrar nos negócios que tem na Áustria.

O ex-companheiro de Ayrton Senna na McLaren disse que planejava ficar apenas um ano na função – ele assumiu em 2012 –, mas acabou permanecendo por mais tempo ao perceber que o trabalho era maior do que o imaginado.

Nesse período, o dirigente conseguiu reconstruir a F3 Europeia, cujo grid aumentou de 12 carros de forma integral, há dois anos, para uma média de 26 nas primeiras etapas de 2014. Esse fortalecimento da categoria freou a expansão da GP3 e conseguiu manter a modalidade viva e relevante.

O preço desse sucesso, porém, foi o enfraquecimento dos campeonatos nacionais. A F3 Inglesa praticamente acabou – apenas sete carros disputaram a primeira etapa –, enquanto a F3 Alemã teve somente dez participantes na rodada de abertura. Quem viveu um momento ainda pior foi a F3 Italiana, que definitivamente fechou as portas.

Dá para dizer que Berger foi quem manteve a F3 viva
Dá para dizer que Berger foi quem manteve a F3 viva

Com a F3 estabilizada, desde o ano passado Berger tem se dedicado ao primeiro passo dos pilotos após deixarem o kart. Para isso, ele criou a F4. Ao contrário da F3 Europeia, a ideia é que o campeonato menor fosse disputado apenas dentro dos países, sem um grande torneio continental.

Até agora, apenas a F4 Italiana seguiu as determinações da FIA. A F4 Francesa e Inglesa já existiam antes da criação de Berger e trabalham com um pacote de regras diferentes. A Sudamericana, por sua vez, surgiu neste ano e também conta com equipamentos e regras alternativos.

Mas, para o ano que vem, a situação deve melhorar. A Austrália deve lançar uma F4 conforme as regras da FIA, assim como o Japão. A Alemanha também pode ter a própria categoria, que substituirá a Adac Masters.

O problema é que a criação desses campeonatos não resolveu o excesso de categorias da base. Pelo contrário. Berger encontrou um mercado dominado pela Renault e não conseguiu fazer frente à montadora francesa. Talvez por isso as F4 estejam surgindo apenas em mercados periféricos ou em países que conseguem absorver um campeonato.

Enquanto isso, as F-Renault permanecem praticamente intocáveis. Para isso, basta ver o que acontece na Itália. É verdade que a F4 Italiana promete um grid de pelo menos 20 carros, contando com nomes como Leonardo Pulcini, Robert Schwartzman e Lance Stroll, que tiveram sucesso na divisão KFJ do kartismo internacional. No entanto, a F-Renault Alps, que compete no mesmo mercado, conseguiu atrair gente como Charles Leclerc, Matevos Isaakyan, Martin Kodric e George Russell, kartistas da principal divisão da modalidade.

A F4 estreia neste ano
A F4 estreia neste ano

O outro fracasso de Berger foi na criação de incentivos para que os jovens pilotos pudessem seguir carreira. Nos Estados Unidos, por exemplo, o campeão de uma categoria do Road to Indy recebe uma bolsa para correr na próxima, enquanto o vencedor da Indy Lights garante boa parte da grana de uma temporada da Indy. Na Europa, a situação não é tão diferente. A Renault premia o campeão da F-Renault Eurocup com uma temporada na World Series e a Pirelli ajuda o primeiro colocado da GP3 a correr na GP2 no ano seguinte, embora o dinheiro oferecido pela fabricante seja menor que o budget necessário.

Nas categorias da FIA, não há nada desse tipo. Seguindo certa lógica, o campeão das diversas F4 deveria conseguir disputar a F3 Europeia no ano seguinte, mas nada disso foi anunciado até agora. Na verdade, é mais capaz que eles acabem virando a casaca e indo correr em alguma categoria da Renault.

O vencedor da F3 também não tem qualquer tipo de ajuda. É verdade que ele recebe treinos no DTM e com o carro de F1 da Ferrari, mas na hora de definir onde correr, o piloto está sozinho e depende apenas dos próprios patrocinadores.

Isso sem falar na expansão dos programas de desenvolvimento das equipes da F1 e de grandes patrocinadores – com o banco SMP ou a organização Racing Steps Foundation –, o que tornou as vagas nas principais equipes ainda mais raras para os pilotos independentes.

Por tudo isso, evidentemente o trabalho feito por Berger está ameaçado. O austríaco afirmou que ainda não encontrou um sucessor ideal na FIA, pois não quer alguém que pense diferente e acabe com o que fez – para o bem e para o mal – nos últimos anos.

Atualizado em 21/10: Escrevi sobre os planos da FIA para a F4 no ano que vem, o que não deixa de ser outro acerto de Berger: “a partir de agora, um garoto que quiser começar a carreira na Austrália, no Japão ou na China sabe que terá à disposição o mesmo equipamento que está sendo usado em grandes centros”. Você pode clicar aqui para relembrar.