Origens: Roland Ratzenberger

Roland Ratzenberger morreu há 20 anos
Roland Ratzenberger morreu há 20 anos

Roland Ratzenberger viveu por apenas alguns metros na história da F1. O austríaco é lembrado por, há 20 anos, ter escapado na curva Villeneuve, em Ímola, a mais de 300 km/h, desintegrando todo o lado esquerdo do carro da Simtek após o choque com o muro de concreto. Ele não sobreviveu.

A morte do piloto, então com 33 anos, ganhou mais importância no dia seguinte, com o acidente fatal de Ayrton Senna. Desde então, toda vez que o brasileiro recebe algum tipo de homenagem, sempre há a lembrança de citar Ratzenberger, o austríaco que ninguém conhecia nem se preocupou em conhecer, mas que também perdeu a vida naquele fatídico fim de semana.

Roland, aliás, não podia ser mais diferente de Senna. Enquanto o brasileiro vinha de uma família rica e precisou lutar contra as ambições do próprio pai para poder se tornar piloto, o europeu não tinha dinheiro para correr. Para isso, ele trabalhava como mecânico e coach de outros garotos. É verdade que isso não dava muita grana, mas era o suficiente para começar.

Essa não é uma situação incomum na Europa. Até hoje, principalmente no automobilismo inglês, é corriqueiro ver alguns garotos acumulando todo o tipo de função de olho em arrumar o patrocínio de algum ricaço para pagar os planos de correr. Como o esporte a motor amador é bem desenvolvido nesses países, essa não é uma tarefa impossível.

Ratzenberger ganhou destaque com vitórias na F-Ford
Ratzenberger ganhou destaque com vitórias na F-Ford

Devido às dificuldades para arrumar o dinheiro necessário, o austríaco começou a competir para valer tarde, com mais de 20 anos de idade. Como vivia no meio do automobilismo, ele sabia que precisava parecer mais novo para ter chance de chamar a atenção. Por isso, durante muito tempo ele dizia que tinha nascido em 1962 e não em 1960.

O pontapé inicial no esporte a motor foi na F-Ford, competindo primeiro na própria Áustria, sendo campeão em 1983, e na Alemanha. No ano seguinte, o austríaco começou a correr em torneios europeus da modalidade, mas acabou sofrendo um acidente em Zandvoort e perdendo toda a temporada em decorrência de uma lesão na mão.

Recuperado, o piloto voltou às pistas em 1985, na F-Ford Alemã. Ainda no esquema de arrumar equipamento com algum ricaço, Ratzenberger terminou o certame com o vice-campeonato, superando Frank Biela na tabela de pontos. O campeão foi Stefan Neuberger.

No fim daquele ano, Ratzenberger ainda participou de uma mais uma corrida, o tradicional F-Ford Festival, uma espécie de mundial da modalidade que até hoje acontece em Brands Hatch. Em um grid com Johnny Herbert (o vencedor), Damon Hill e Mark Blundell, o austríaco não foi bem e acabou abandonando a corrida decisiva.

Para o ano seguinte, o piloto conseguiu financiamento apenas para duas provas: o retorno a Brands Hatch, além da Corrida dos Campeões de F-Ford. Venceu ambas. Na primeira, superou o suíço Phillippe Favre em um final emocionante por meia roda (confira o vídeo abaixo). Entre os demais competidores, ainda estavam Steven Robertson (hoje empresário de Felipe Nasr e Kimi Raikkonen) e J.J. Lehto. Na Corrida dos Campeões, o título veio com o brasileiro Paulo Carcasci ficando com o vice.

Os triunfos foram o suficiente para colocar Ratzenberger no mapa do automobilismo europeu. Assim, ele recebeu um convite da BMW para competir no WTCC defendendo a equipe de fábrica. E o desempenho foi bom. Mesmo estreando nos carros de turismo e disputando contra diversos ex-F1, ele terminou o ano em décimo com uma pole e quatro pódios em dez corridas.

Só que a passagem pelo WTCC não significou o fim da carreira nos monopostos. Pelo contrário. Enquanto disputava o campeonato de turismo, Ratzenberger também tomou parte da F3 Inglesa pela equipe West Surrey. Mas aí o rendimento deixou a desejar. Tendo participado de metade das 18 etapas, o austríaco fechou o ano em 12º. O campeão foi Herbert, com Bertrand Gachot sendo o vice.

Embora o resultado final não tivesse empolgado, o austríaco fechou a temporada com a perspectiva de um desempenho melhor caso tivesse se dedicado apenas à categoria. Isso porque ele ainda tomou parte de duas provas da F3 Europeia, conquistando uma vitória e subindo sempre ao pódio.

Por isso, não foi uma surpresa quando Ratzenberger decidiu continuar na F3 no ano seguinte. Mas mais uma vez ele não foi capaz de participar de todas as corridas. Andando pela pequena equipe Madgwick, o austríaco precisava conciliar as provas nos monopostos com o BTCC, onde novamente defendia a BMW. Aí, foram mais nove corridas em 18 possíveis e apenas o 12º lugar na classificação final, enquanto o título ficou com Lehto.

Curiosamente, enquanto estava na F3 Inglesa, o piloto recebeu o apelido de ‘Roland Rat’ em homenagem a um personagem infantil de um desenho da época. Como o nome dos dois era parecido, a alcunha não só pegou, mas a emissora que transmitia o programa acabou patrocinando o austríaco.

Ratzenberger competiu pela West Surrey, a mesma que teve Ayrton Senna na F3 Inglesa
Ratzenberger competiu pela West Surrey, a mesma que teve Ayrton Senna na F3 Inglesa

Tendo terminado 1988 com uma vitória no BTCC e dono de um bom currículo no geral, o piloto acabou acertando com a Toyota para o ano seguinte, tendo disputado os campeonatos mundial e japonês de Esporte-Protótipo, além de correr pela primeira nas 24 Horas de Le Mans com um Porsche.

Nesse meio tempo, ele encontrou tempo para competir na F3000 Inglesa, uma categoria sem a mesma importância que o campeonato internacional, mas que ainda conseguia revelar alguns bons pilotos. Com uma vitória e seis pódios em oito corridas, o austríaco encerrou o ano em terceiro, superando os brasileiros Carcasci e Marco Greco, mas perdendo para Gary Brabham, que ficou com a taça.

Embora tivesse o sonho de chegar à F1, Ratzenberger entendeu que já estava na hora de viver como piloto profissional. Graças aos laços com a Toyota, ele foi para o Japão e andou nos principais campeonatos locais. Nessa época, correr no oriente já era uma boa coisa. Entre os colegas de grid estavam Herbert, Mika Salo e até mesmo Jacques Villeneuve.

Quem acompanhou de perto a carreira de Roland Ratzenberger do outro lado do mundo foi o jornalista inglês Adam Cooper. E, embora os nipônicos sejam conhecidos pela disciplina e educação, isso não fez muito efeito com o austríaco. Conforme Cooper relata, o piloto se mostrou uma versão menos famosa de James Hunt, arrasando corações de mulheres em todas as pistas, até mesmo de namoradas de outros competidores.

O sucesso com o público feminino se repetiu em menor grau nas pistas. O austríaco não se transformou em um piloto de ponta, mas conquistou bons resultados, sempre defendendo a Toyota. Se o sonho da F1 não vinha, ele conseguiu um bom dinheiro com a carreira que fazia por lá. Tudo mudou aos 33 anos de idade, quando Roland conseguiu um patrocinador para participar das primeiras cinco etapas da F1 em 1994. A aventura fatidicamente durou apenas duas corridas e uma classificação.

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