A ética da manipulação

Antonio Pizzonia ganhou a primeira na Stock Car abusando das novas regras
Antonio Pizzonia ganhou a primeira na Stock Car abusando das novas regras – foto de fernanda friexosa/vicar

A Stock Car iniciou uma nova era neste domingo, dia 13, em Santa Cruz do Sul. Dando prosseguimento ao novo regulamento, a categoria estreou neste fim de semana um complexo sistema de rodadas duplas. Como resultado, houve dois vencedores diferentes. Valdeno Brito superou Cacá Bueno na estratégia dos boxes para ganhar a primeira prova, enquanto Antonio Pizzonia tomou a ponta de Sergio Jimenez na última curva para conquistar a segunda.

Esses finais emocionantes são consequência das novas regras. Em 2014, a maioria das etapas será disputada em duas baterias. A primeira, longa, com 40 minutos e a segunda, sprint, logo em seguida, de apenas 20. Além disso, os pilotos precisam trocar ao menos um pneu na primeira prova, enquanto os times são liberados para escolher como farão o reabastecimento.

Assim, Valdeno pôde trocar apenas um único pneu e, consequentemente, colocar menos combustível para não só tirar a diferença para Cacá, mas também vencer a corrida 1. Por outro lado, o paraibano foi obrigado a retornar aos boxes na segunda bateria para não sofrer uma pane seca.

Pizzonia, por sua vez, fez o oposto. Mudou três pneus e colocou muita gasolina na parada obrigatória. Daí, mesmo largando em 11º na sprint race, o amazonense foi capaz de superar os adversários para comemorar o primeiro triunfo na categoria.

Rafael Suzuki tentou fazer uso das novas regras, mas não conseguiu
Rafael Suzuki tentou fazer uso das novas regras, mas não conseguiu – foto de carsten horst/hyset

Embora esse regulamento possa parecer confuso, é algo que a gente já conhece. Na verdade, o que a Stock Car adotou para 2014 é institucionalizar aquela bandeira amarela duvidosa que a Nascar costuma acionar nas últimas voltas – geralmente quando a transmissão da televisão está nos comerciais – para dar mais emoção às corridas.

Só que a categoria brasileira tem todos os méritos de fazer isso de uma forma transparente. É óbvio que ao dividir o fim de semana em uma corrida de 40 minutos e outra de 20 – ainda mais com o grid tendo os dez primeiros colocados largando de forma invertida –, ao invés de uma longa disputa de uma hora, é uma maneira de manipular o resultado ao criar uma disputa artificial. Mas em momento algum eles escondem que estão fazendo isso.

E mais do que isso. Às vezes, a bandeira amarela da Nascar muda completamente o resultado de uma corrida. Com tantas estratégias possíveis nesse momento – parar, não parar, dois pneus, quatro pneus –, nem sempre quem está na frente quando o safety-car é acionado consegue manter a ponta na hora de receber a bandeira quadriculada.

Na Stock, por outro lado, a pontuação da primeira prova é preservada. Ou seja, a interrupção artificial não prejudica o desempenho de quem fez tudo certo, sendo rápido desde o primeiro treino livre. A segunda bateria, assim, se torna um bônus para o fim de semana, para termos ou não um novo vencedor.

Neste fim de semana, isso deu mais do que certo. Com todas as estratégias de combustível em jogo, Pizzonia fez valer um carro com pneus novos – olha aí a semelhança com a Nascar – para ultrapassar os rivais e ainda ganhar a primeira colocação na última curva graças a uma pane seca de Jimenez.

O problema é que essa deve ser a exceção. É mais fácil nas próximas etapas o décimo colocado na primeira prova – e pole no grid invertido – ser alguém que fez uma corrida conservadora e, portanto, conseguir abrir facilmente na segunda bateria. Aliás, quase que isso aconteceu neste fim de semana, já que a direção de prova por pouco não cometeu um erro absurdo e colocou o manauara para largar na frente, embora Allam Khodair tivesse sido o décimo.

As paradas foram decisivas em Santa Cruz
As paradas foram decisivas em Santa Cruz – foto de Duda Bairros/Vicar

Com campeonatos no mundo todo muitas vezes previsíveis, a Stock Car merece os elogios por tentar algo novo com esse novo pacote de regras. Como acontece com qualquer novidade, ainda vai levar algum tempo para que pilotos, equipes, televisão e torcedores se acostumem, então é natural que tenhamos algumas modificações nesse formato.

Só espero que não seja nada radical e acabe com os resultados imprevisíveis. A única mudança que eu sugeriria seria punir de forma pesada – com desclassificação na primeira bateria ou perda de posição no grid da etapa seguinte – quem tiver pane seca na segunda prova. Mas isso por uma questão de segurança. Pode ser perigoso um carro pesado como o da Stock Car de repente parar de acelerar. É melhor que as equipes tenham consciência de chamar os competidores aos boxes ao invés de ir para o tudo ou nada e colocar os colegas em perigo.

Por fim, pensando um pouco nas novas regas da Stock Car, me lembrei da GP2 no ano passado. Para quem não acompanhou a categoria de acesso em 2013, uma tática que se tornou famosa entre os pilotos era usar os pneus mais duros na primeira bateria – e não sofrer com o desgaste –, ao passo de abrir mão do resultado da segunda prova, uma vez que a borracha mais macia não era capaz de aguentar todas as voltas.

É uma situação parecida com o certame brasileiro porque também cria um resultado que não era para acontecer em situações normais. Mas há diferenças entre os campeonatos. A GP2 é uma categoria de base, que serve para educar os jovens pilotos a, entre outras coisas, economizar os pneus Pirelli antes de chegar à F1.

Com a tática usada no ano passado, os pilotos não precisavam de nada disso. A borracha na primeira prova não se desgastava, enquanto, na segunda, não fazia diferença economizá-la, uma vez que de qualquer jeito seria impossível chegar ao final. A Stock Car, porém, não é uma categoria de acesso e não precisa ensinar nada aos pilotos. Ela precisa, sim, criar maneiras às vezes pouco ortodoxas de se tornar competitiva e atraente.

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