Daytona 500 2012 Matt Kenseth
Será que a Nascar tem a ver com os demais esportes dos EUA?

Futebol americano, basquete, baseball, hóquei no gelo e, em menor grau, lacrosse. Essas cinco modalidades esportivas são popularmente conhecidas como esportes americanos. Não só por terem sido inventadas nos Estados Unidos e no Canadá, mas também por fazer muito sucesso na América do Norte.

No entanto, a denominação ‘esporte americano’ é muito mais abrangente do que apenas a origem dessas modalidades. Embora elas tenham regras diferentes, há um conjunto de características que as unem e as fazem tão presente na cultura dos Estados Unidos.

Dito isso, por também ter surgido nos EUA, a Nascar muitas vezes é colocada como um esporte americano. Afinal, ela também tem um conjunto de regras próprias, razoavelmente diferente das praticadas no esporte a motor no resto do mundo, e tem um espaço de destaque na cobertura jornalística por lá.

Assim, para tentar responder se a Nascar pode ser considerada um esporte americano, peguei as características presente em boa parte das demais modalidades e comparei com o que acontece no esporte a motor para chegar a uma conclusão. Vamos a elas:

Salary cap

Presente em boa parte dos esportes nos EUA, o salary cap, como o nome diz, é um teto salarial que cada equipe pode gastar para montar o plantel. O objetivo é evitar a previsibilidade de resultados impedindo ou dificultando que um time contrate todos os superastros do esporte. Ou seja, mesmo uma equipe mais rica em tese não tem nenhuma vantagem contra as mais pobres.

Na Nascar, isso não existe, e as escuderias são livres para gastar o quanto quiser. Por isso existe times como a Joe Gibbs – com Kyle Busch, Denny Hamlin e Matt Kenseth – e a Front Row, de Josh Wise e David Ragan.

De qualquer forma, ao invés de haver um teto salarial na Nascar, a melhor escolha seria um teto orçamentário. Isto é, as equipes poderiam gastar apenas uma determinada quantia durante toda a temporada. Com isso, a Hendrick poderia ter Jeff Gordon, Jimmie Johnson e Chad Knaus, mas faria poucos testes privados e inscreveria Eric McClure, por exemplo, em um terceiro carro.

É pelo draft que os jovens atletas se tornam profissionais nos EUA
É pelo draft que os jovens atletas se tornam profissionais nos EUA

Draft

Outra maneira que as ligas esportivas nos EUA encontraram para equilibrar as disputas é o draft. Por meio dele, ao final de cada temporada, os times podem escolher um (ou mais) jogador vindo da universidade para se juntar ao plantel. Quanto pior for o desempenho da equipe em um campeonato, ela terá prioridade em selecionar um novo atleta. Ou seja, em tese, a maior promessa do esporte acaba indo para o pior time e por aí vai.

Obviamente, isso também não existe na Nascar. Seria inviável para as equipes selecionarem jovens pilotos todos os anos. Voltando ao exemplo da Hendrick, como a escuderia inscreve quatro carros, ela teria que mudar completamente os pilotos a cada quatro anos se houvesse o draft.

Mas essa não é uma medida impossível de ser implementada. Por exemplo, cada equipe poderia ter um carro exclusivamente destinado a um novato vindo do draft. Ao final do ano a equipe poderia escolher renovar com o competidor – e movê-lo a outro equipamento – ou dispensá-lo, abrindo espaço para mais um estreante.

Claro que esse é só o esboço de uma ideia e precisa de alguns ajustes. Entretanto, seria uma boa forma de fazer com que os pilotos pulassem da Nationwide para a Sprint Cup, já que nos últimos anos praticamente não houve estreantes na divisão principal.

College

Na maior parte dos esportes americanos não existe categorias de base. Quem tem a responsabilidade de formar um atleta é a universidade. Assim, cada jovem pode ficar na universidade por cinco anos – competindo esportivamente em quatro deles – e em qualquer momento decidir participar do draft para tentar se tornar profissional.

Evidentemente, também não existe o College na Nascar. Na verdade, alguns pilotos até são formados. Ryan Newman, por exemplo, é engenheiro, assim como Danny Efland, que disputou algumas etapas da Nationwide nos últimos anos. Paulie Harrka, que esteve na Truck Series em 2012, chegou a abandonar a carreira durante alguns anos para se formar em Duke, enquanto Robert Johnson, filho do lendário Junior Johnson, foi outro que deixou os carros de lado para se dedicar aos estudos também no lar dos Blue Devils.

De qualquer forma, não seria impossível haver uma liga universitária no automobilismo. Precisaria, claro, de uma padronização das regras, mas seria interessante porque, além dos pilotos, os departamentos de engenharia também estariam envolvidos. No Brasil, por exemplo, a FEI compete em diversos torneios internacionais de automobilismo e, há alguns anos, a organização da F3 Sudamericana até tentou lançar uma Fórmula Universitária, que não deu certo.

As cheerleaders são sinônimo do College. E nem isso a Nascar tem...
As cheerleaders são sinônimo do College. E nem isso a Nascar tem…

Franchise

As equipes nos Estados Unidos também são chamadas de franquias. Elas recebem esse nome porque as vagas nas principais ligas são fechadas, e não se pode criar um time do nada para participar. Ou seja, quem quiser entrar no esporte precisa comprar um time já existente. Um exemplo é na NBA, em que um magnata russo comprou o New Jersey Nets e o mudou para Brooklyn (em Nova York) disposto a fazer grandes investimentos.

A Nascar, por outro lado, sempre teve a tradição de ser um campeonato aberto, podendo participar quem quiser. Assim, basta chegar com um carro dentro do regulamento que você pode participar dos treinos e tentar se classificar para uma corrida. Por isso, o sistema de franquias vai contra o que a própria categoria defende.

Só que no esporte a motor existem as franquias. É assim que funciona na V8 Supercars da Austrália, por exemplo. Por lá, são 28 carros e se uma equipe quiser expandir de três para quatro máquinas, por exemplo, ela precisa adquirir uma vaga de outro time.

Schedule

Os esportes americanos acontecem por temporada. Mas essa palavra tem um significado um pouco diferente por lá. Ela não é apenas sinônimo de campeonato, mas pode ser entendida como época. Ou seja, há uma época do ano em que acontece o futebol americano (de setembro a janeiro, com o Super Bowl em fevereiro). Fora desse período, basta esperar ou acompanhar outra coisa.

É o contrário do que acontece com o futebol ao redor do mundo, em que ele praticamente só não é disputado quando o frio no hemisfério norte o impede.

A Nascar talvez seja um meio termo. Ela acontece de fevereiro a novembro, com corridas em praticamente todos os fins de semana. Será que podemos considerar esses dez meses como ‘época da Nascar’ ou então a categoria está mais próxima ao futebol, sendo disputada o ano todo?

Eu acredito que nesse caso a categoria automobilística se aproxime dos demais esportes americanos. Se ela tem um cronograma tão longo, é até mesmo por uma questão de logística em precisar levar os equipamentos para cada pista. De qualquer forma, um calendário longo não é exclusividade da Nascar. Aliás, as 36 etapas da Sprint Cup parecem pouco se comparadas aos 82 jogos que cada equipe faz na temporada regular da NBA e às mais de 100 partidas do baseball.

O Super Bowl faz parte da post-season da NFL
O Super Bowl faz parte da post-season da NFL

Post-season

A pós-temporada é um conceito muito fácil de entender. É o famoso mata-mata entre as equipes melhores classificadas na temporada regular. Até 2002, isso acontecia no Campeonato Brasileiro de Futebol. A diferença para os esportes americanos é que há uma separação entre temporada e pós-temporada, tanto que as estatísticas de um competidor nos playoffs não se misturam com as conseguidas durante os demais jogos.

Um exemplo é Adrian Peterson, running back do Minnesota Vikings na NFL. Na temporada recém-terminada, ele correu 2097 jardas, sendo essa a segunda maior marca da história, ficando apenas nove jardas atrás do recorde. Embora os Vikings tenham jogado os playoffs, os números que ele conseguiu na pós-temporada não são somados e, portanto, ele não pôde quebrar o recorde.

Na Nascar, a situação é um pouco diferente. É verdade que existe um playoff após a temporada regular – o Chase –, mas as regras são diferentes das demais modalidades. Em primeiro lugar, todos os pilotos disputam as etapas do Chase, mesmo que apenas 12 estejam brigando pelo campeonato.

Além disso, tudo o que é feito nos playoffs vale estatisticamente para a Nascar. Levando em conta 2012, Clint Bowyer não diz que teve duas vitórias na temporada regular e outra na pós-temporada. Ele teve três triunfos no ano e pronto. O Driver Rating do atleta também não leva em conta apenas as primeiras 26 corridas.

Para terminar, embora a Nascar tenha enormes diferenças com relação aos demais esportes americanos, considero que ela faz parte, sim, desse grupo, por mais contraditório que possa parecer. A grande diferença dela para os outros esportes é que quando ela foi criada, em 1949, o automobilismo já existia, então foi natural que ela incorporasse elementos dos outros campeonatos. Isso é ainda mais claro no surgimento da Era Moderna, em 1972.

Ainda assim, a Nascar está enraizada na cultura esportiva da população americana – principalmente no sul – e tem seu espaço ao lado das outras modalidades.