Tristan Nunez venceu o Trofeu Walter Hayes neste fim de semana

Todos os anos, duas competições agitam o automobilismo de base/amador do Reino Unido. São o Festival de F-Ford e o Troféu Walter Hayes. Esses dois eventos acontecem nas pistas de Brands Hatch e de Silverstone, respectivamente, e costumam juntar centenas de participantes das mais variadas F-Ford ao redor do mundo.

Como a modalidade vive um momento de crise, a edição de 2012 sofreu com o esvaziamento de competidores. Mesmo assim, mais de 120 atletas estiveram em Silverstone, neste fim de semana, para participar do Troféu Walter Hayes. Assim, depois de dois dias de disputa e cerca de 20 corridas, o americano Tristan Nunez se sagrou campeão.

Apesar de fazer carreira nos Estados Unidos, o garoto não caiu por acaso no meio da competição inglesa. Ele defende o chamado Team USA, um prêmio dado por uma organização norte-americana aos pilotos que mais se destacam no automobilismo de base dos EUA, levando-os para competir na Inglaterra.

Contando com uma série de patrocinadores, o Team USA foi criado em 1990 pelo jornalista Jeremy Shaw, que queria, de alguma forma, ajudar a carreira dos jovens talentos norte-americanos. Desde então, ele já revelou nomes como Jimmy Vasser, Bryan Herta, Buddy Rice, Joey Hand, AJ Allmendinger, Charlie Kimball, JR Hildebrand, Josef Newgarden, Conor Daly e mais recentemente Felix Serralles.

Estrela da F3 Inglesa em 2012, Felix Serralles foi descoberto pelo Team USA

O grande objetivo do Team USA é permitir que os garotos viajem para a Europa e conheçam alguns dos principais nomes da indústria do automobilismo. Ou seja, com uma conversa aqui e com um aperto de mão ali, eles podem dar um novo rumo à carreira. Claro que nem todos são bem sucedidos, mas muita gente acabou chamando a atenção de algum olheiro.

Para ter sucesso, Shaw estipulou algumas regras para sua organização. Como uma forma de cortar os custos, ele acaba inscrevendo os pilotos apenas para participar de algumas competições no final do ano. Em anos anteriores, os garotos disputaram corridas de F3, de Palmer-Audi e de F-Renault. Em 2012, Nunez e Jack Mitchell Jr foram escalados para correr nos torneios de F-Ford, enquanto Matthew Brabham – um pouco mais experiente – participa do campeonato de inverno da F-Renault Barc.

No entanto, nenhum deles compete por uma equipe americana. A grande sacada de Shaw foi se associar a times que já estão nesse certame e apenas arrendar os carros para as competições. Esperto, o americano sempre escolhe times de ponta para que seus garotos tenham chances de vencer as corridas caso sejam naturalmente competitivos. Por isso, Nunez é o terceiro representante do programa a vencer o Trofeu Walter Hayes. Antes dele, Conor Daly e Connor de Phillipi já haviam triunfado.

Com o Team USA explicado, eu tentei transpor a ideia para o automobilismo brasileiro. Será que temos condições de ter um Team Brasil por aqui?

Seria possível tem um Team Brasil um dia?

Acho que não nos moldes desenvolvidos por Shaw. Primeiramente, por aqui não temos categorias de base do automobilismo que sirvam como um degrau intermediário entre o kart e a F-Renault (na verdade, não temos nem entre o kart e a F3). Por isso, não daria para caçar pilotos para disputarem os troféus da F-Ford ou a F-Renault Barc.

Por isso, talvez a melhor opção fosse pegar algum kartista mais experiente e com alguma experiência com monopostos – como Olin Galli ou Gustavo Myasava (só para citar alguns de 2012) – e colocá-los para correr nos dois eventos. De qualquer forma, eles correriam o risco de se queimar desde cedo por serem forçados a fazer a transição para os monopostos para competir com alguns atletas que têm décadas de experiência na modalidade.

No caso da F-Renault Barc, continuaríamos sofrendo do mesmo problema. Desde o fim da F-Futuro, os pilotos brasileiro têm feito a transição do kart para o monoposto pela F-Renault da Europa. Só que essas competições são um nível acima da Barc, então não seria muito interessante para eles voltarem um degrau abaixo para competir.

Esse ano, tivemos um brasileiro na Barc, Henrique Baptista. Talvez ele pudesse representar o Team Brasil nessa competição. Outra opção seria pegar alguém como Gustavo Lima e Antonio Furlan, que acabaram de fazer a transição de categoria e pagaram o preço da inexperiência, nesse primeiro ano da Europa, com desempenhos abaixo da média dos compatriotas. Por fim, talvez fosse possível resgatar algum nome da F-Futuro, como Luir Miranda ou Guilherme Salas, que ficou sem correr depois do fim da categoria.

Matthew Brabham também foi um dos selecionados do Team USA

Por outro lado, o Team Brasil poderia escolher outras competições para estar presente, até mesmo para se adequar à realidade brasileira. Todos os anos são disputados campeonatos de inverno na Espanha, Estados Unidos e Nova Zelândia, então o piloto selecionado por esse programa poderia disputar alguma dessas competições. O problema aqui é que esses certames são mais caros que os disputados pelo Team USA, que basicamente só acontecem em um fim de semana.

Por isso, uma opção melhor seria fechar uma parceria com algumas equipes de ponta da F-Renault para permitir que os jovens pilotos brasileiros possam testar com elas durante a pré-temporada. Se de um lado a exposição do patrocinador do Team Brasil será menor por não se tratar de uma competição, do outro haverá uma chance muito maior de os pilotos fazerem contatos úteis para a carreira, além de chamar a atenção dos olheiros.

Para encerrar, não acho que um projeto desses seja inviável de se fazer, até mesmo por causa dos custos menores, em se tratando do esporte a motor. De qualquer forma, como tudo, precisa de dinheiro para ser realizado. Talvez algo via Lei de Incentivo ao Esporte.

De qualquer forma, supondo que desse certo, qual caminho você prefere? Competir em certames em que o Brasil não tem tradição – como a F-Ford e a F-Renault Barc – ou apenas participar de treinos coletivos sem o retorno a patrocinadores?