O automobilismo está distante das Olimpíadas, mas não seria tão difícil realizar competições de corridas de carro

A Olimpíada de Londres serviu para reacender uma velha discussão: e se o automobilismo fizesse parte dos Jogos? Quer dizer, com as modalidades mudando edição após edição, por que não dar uma chance aos carros de corrida disputarem a medalha de ouro?

O melhor é que não seria tão difícil para o esporte a motor ter essa chance. Talvez a principal discussão gire em torno do automobilismo como um esporte olímpico, o que obviamente não é. No entanto, também é difícil considerar o futebol e o rugby dessa forma e nada impedirá que os atletas dessas modalidades estejam no Rio de Janeiro, em 2016.

Para que um esporte faça parte das Olimpíadas é necessário cumprir uma série de requisitos. Em primeiro lugar, ele precisa ser disputado por homens em 75 países filiados ao COI, em quatro continentes, e por mulheres em pelo menos 40 países de três continentes. Além disso, precisa de regras padronizadas e competições internacionais organizadas pelas diferentes federações.

O automobilismo já pecaria na parte das regras padronizadas. Talvez também ficasse de fora no número de mulheres praticantes. Outra coisa que poderia complicar a vida do esporte a motor é o fato de o COI não querer expandir o número de modalidades para mais do que 30. Assim, esportes que precisam de uma maior logística dão lugar a competições mais simples. E estamos falando de uma modalidade onde seria necessário construir carros e um autódromo.

Mas vamos supor que o automobilismo consiga transpor todos esses obstáculos e seja aprovado como evento de exibição em alguma Olimpíada no futuro. A verdade é que não seria muito complicado realizar as corridas de carro valendo medalhas por aí.

Em primeiro lugar, a FIA e as confederações nacionais deveriam determinar quem está apto para participar dos Jogos. Todos os pilotos do mundo? Apenas os kartistas? Apenas jovens pilotos? Os de rali estão fora? Os da F1 estão fora? Mas isso não é muito complicado definir. É na base da canetada. Decide-se que todos estão aptos e pronto. Ou então ouve as pressões políticas e econômicas – como Bernie não querer liberar seus atletas – e estipula-se um regulamento.

Com os atletas definidos, é necessários fazer a peneira, isto é, bolar a forma de classificação para os Jogos. A forma mais fácil é a criação de um ranking mundial e a partir dessa lista pinçar os melhores nomes. Evidentemente, a FIA precisaria se reunir com as confederações e determinar os critérios da formação do ranking. O jeito mais óbvio é premiar um piloto conforme seu desempenho ao longo do ano dando mais peso a campeonatos mundiais, como a F1. Esse ranking não é algo difícil. A revista inglesa Autosport tem o seu. Então a FIA precisaria apenas que aperfeiçoá-lo.

Talvez o WTCC fosse um exemplo próximo do que poderíamos ver nos Jogos

Com a lista de pilotos em mãos, seria a hora de determinar como os atletas ganharim vaga para os jogos. Por exemplo, os 24 primeiros colocados do ranking estão dentro. Ou então, os 24 primeiros, desde que o limite de dois por país. Ou seja, Sebastian Vettel, Michael Schumacher e Nico Rosberg não poderiam participar juntos. Assim, a delegação alemã fica com Vettel e Rosberg, enquanto o 25º colocado entra nas Olimpíadas. O limite também poderia ser de um piloto por país.

Outra opção é que os 24 países com atletas mais bem classificados no ranking ganhassem vaga, mas cabendo à federação de cada um deles escolher seu representante. Assim, caso Bernie Ecclestone não liberasse os pilotos da F1, mesmo que Sebastian Vettel fosse o primeiro do ranking, a Alemanha ainda poderia manter sua vaga. Aí caberia aos chefões da ADAC determinar o olimpiano. Poderia ser Nick Heidfeld, por exemplo, alguém do DTM ou algum piloto de categorias menores.

Com os 24 participantes definidos, estaria na hora de determinar em que tipo de carro eles vão competir. Pelo ideal olímpico de igualdade, provavelmente será um mesmo equipamento para todos. Aí não seria absurdo pensar que as montadoras do mundo inteiro se digladiariam pela chance de fornecer os equipamentos olímpicos. Eu acredito que uma fábrica de grande porte – Chevrolet, Ford, Volkswagen, Honda, Toyota – acabasse escolhida. Os carros seriam um intermédio entre o WTCC e o Global RallyCross, afinal também é do interesse da montadora promover a marca e vendê-los após a competição.

Portanto, eu não ficaria surpreso em ver corridas de Fiesta, Golf, Scirocco, Cruze, Citroën DS3 ou até mesmo Mini ao invés de supermáquinas como Porsche, Ferrari e Lamborghini ou mesmo protótipos.

Mas o Global RallyCross – sem sua pirotecnia – também tem um formato interessante

O mais importante seria definir o que fazer com esses carros após a competição. Talvez leiloar alguns, dar as máquinas aos respectivos vencedores, reciclá-los ou até mesmo reaproveitá-los em algum certame. Não seria de todo impossível fechar um acordo com a Dallara para a produção de 24 monopostos para as Olimpíadas e, após os Jogos, reutilizá-los na AutoGP, por exemplo.

Temos os pilotos e os carros. Falta definir onde eles vão correr. Praticamente toda cidade olímpica tem um autódromo por perto. Em Londres, poderiam correr em Silverstone. É um pouco distante, mas alguns jogos de futebol estão sendo disputados no País de Gales, então isso não é um problema muito grande. A outra opção é fazer um circuito de rua.

O problema dessa segunda opção é fechar algumas vias da cidade em plena época de jogos, quando o trânsito já é mais caótico que o normal. Talvez o interessante seria fazer um cronograma em que treinos livres e classificatórios acontecessem antes da Cerimônia de Abertura, com a corrida realizada no dia seguinte, junto com o Ciclismo de Estrada. De qualquer forma, ainda há outras soluções, como usar as ruas de uma cidade vizinha ou fechar vias de outro ponto da cidade.

Por fim, chegamos ao mais importante, o formato da competição. Levando em conta que praticamente todas as modalidades têm fases preliminares antes da grande decisão, o formato mais provável seria algo similar ao Global RallyCross, nos X Games, com baterias preliminares eliminatórias, antes de uma decisão com seis ou oito carros.

Assim, os 24 inscritos poderiam ser pareados em quatro grupos com seis competidores. Esse pareamento seria formado após treinos livres um classficatório, com os três melhores avançando. Nas semifinais, 12 pilotos em dois grupos com seis atletas, com os quatro mais rápidos passando para a final, quando valeria a medalha. A duração das corridas poderia ser de 30 a 40 minutos.

É claro que essa é só uma ideia, mas é o que eu vejo como mais provável de acontecer. Por exemplo, não vejo como possível, mas ao invés de tudo isso poderíamos ter uma corrida de endurance com as equipes formadas apenas por pilotos/mecânicos/engenheiros do país. Seria algo mais completo, mas, obviamente, o custo seria maior. Aí esbarraria naquela situação de o COI só permitir modalidades que tenham uma logística mais fácil.