Antes de dirigir a Indy, Randy Bernard era presidente da associação dos rodeios. Agora ele terá que domar um fera

A Indy vive um dos momentos mais curiosos da sua história. Depois de as 500 Milhas de Indianápolis terem sido um sucesso absoluto – mesmo com um resultado previsível –, a categoria entrou em uma crise profunda que colocam o presidente, Randy Bernard, de um lado e alguns donos de equipe do outro.

Quem revelou o problema foi o próprio Bernard. Há alguns dias, o dirigente escreveu no Twitter que alguns donos de equipe estavam se juntando para pedir a sua demissão. O motivo? Tudo leva a crer que seja uma questão política.

De acordo com o jornalista Robin Miller, do canal americano Speed, o movimento começou com John Barnes, dono da Panther. O americano não vive um bom ano em 2012 e tem muitos motivos para reclamar. O primeiro deles foi o chamado Turbogate, aquele episódio em que, antes da etapa de Long Beach, a Indy permitiu uma alteração no turbo da Honda.

Embora a categoria tivesse alegado que a mudança já havia sido aprovada e apalavrada, as equipes da Chevrolet não ficaram satisfeitas, já que o congelamento dos propulsores tinha sido combinado. Quem não ficou nada contente com o episódio foi – adivinhe – John Barnes, que foi reclamar no Twitter.

Barnes escreveu algo como “Hoje é o dia para se resolver o TURBOGATE! Eu espero que a Indy resolva essa situação porque está ficando embaraçosa”. A resposta da categoria? Multa de US$ 25 mil. Aí o cara ficou possesso. Primeiro viu a Honda poder mudar o motor, depois foi censurado no Twitter com um gancho pesado desses.

O dono da Panther, então, fez uma lista de coisas que ele odeia em Randy Bernard. Começou, claro, com o escândalo dos motores, seguiu para as multas elevadas e ainda adicionou o preço elevado dos carros – custam cerca de US$ 500 mil, sendo que o prometido era US$ 350 mil. Para a Panther, que é uma equipe decadente, cada dólar vale. Ou seja, gastar US$ 150 mil a mais com o equipamento e receber uma multa de 1/6 disso é algo que pesa no bolso.

E isso em um momento que a equipe está prestes a perder o principal patrocinador. O congresso americano deve aprovar, em breve, a proibição dos patrocínios militares em eventos esportivos como uma forma de contenção de gastos. Quando isso acontecer, a National Guard sai fora, e a Panther fica sem patrocinador. E o principal problema é que isso pode acontecer da noite para o dia.

Juntando tudo isso, Barnes chegou à conclusão de que o melhor seria pedir a cabeça de Bernard. O dono da Panther saiu ligando para um monte de colegas para ver quem se juntava a ele na caçada. Ainda segundo o Robin Miller, quem gostou do que ouviu foi Kevin Kalkhoven, da KV. Também não é absurdo pensar que Ed Carpenter e os donos da Dreyer & Reinbold estejam do lado de Barnes devido à proximidade desses dois times com a Panther.

Esse é John Barnes, dono da pantera selvagem

Outros que se mostraram a favor de Barnes é Tony George, o antigo presidente da categoria, e possivelmente Brian Barhardt, o antigo diretor de provas, que foi afastado no final de 2011 depois de se envolver em atritos com os pilotos.

Dito isso, a situação é mais ou menos a seguinte. Barnes tem um ponto interessante e as reclamações procedem. Afinal, pagar a mais por um carro é, sim, algo que implica diretamente no crescimento da categoria. A multa no Twitter foi a cereja do bolo de tão descabida que foi.

Provavelmente, o dirigente tenha procurado a Indy para falar sobre esses pontos e não deve ter sido ouvido. Então, ele decidiu se juntar com todo mundo disponível nas garagens da categoria para que tivesse uma voz. Em algum momento, o movimento mudou e passou a pedir a cabeça de Randy Bernard.

No entanto, mesmo com todas as reclamações, Bernard não deve sair. Ou ao menos não para promover o retorno de Tony George. Bem ou mal, a Indy é uma categoria financeiramente saudável. Em 2012, mesmo com a mudança do carro, a categoria não teve dificuldade nenhuma em colocar um grid de mais de 20 carros. E isso que Dreyer & Reinbold e Andretti cortaram um carro e a Newman/Haas e a Conquest deixaram o campeonato.

Há outros fatores que também beneficiam Bernard: a chegada da Izod, o fim das corridas deficitárias, os recordes de audiência e consequentemente contratos mais atraentes de televisão. Isso sem falar no interesse de pilotos renomados como Jean Alesi, Rubens Barrichello e Bryan Clauson, que fizeram sucesso em suas respectivas categorias.

Por isso, é difícil imaginar que a cúpula da Indy vá se reunir em Indianápolis e votar a saída de Bernard. É claro que Tony George não só faz parte do conselho, como também tem alguma influência por lá, mas é incoerente pensar que a melhor alternativa seja tirar o cara que livrou a categoria da dependência de Milka Duno e Marty Roth para completar o grid.

No final, Barnes quer que os donos de equipe tenham uma maior participação nas decisões da categoria. E provavelmente é nesse ponto que Bernard terá que afrouxar se quiser manter o emprego.