Por que Dmitry Suranovich não deve levar toda culpa pelo acidente em Mônaco

Dmitry Suranovich em um raro momento com o aerofólio traseiro no carro

Dmitry Suranovich não imaginava que ia se tornar um dos protagonistas do final de semana em Mônaco. Com F1, GP2, GP3, World Series e Porsche SuperCup dividindo as ruas do Principado, o novo contratado da Marussia Manor na categoria menor da F1 não tinha muitos motivos para ganhar destaque.

No entanto, as coisas fugiram um pouco do roteiro na segunda prova da GP3, disputada na tarde – quase início de noite – do sábado. Suranovich estava na 11ª posição e se defendia dos ataques de Conor Daly. O americano, por sua vez, no poderoso carro da Lotus – ex-ART Grand Prix –, vivia um final de semana bastante frustrante.

Antes de encontrar o russo pela pista, Daly havia abandonado a corrida da sexta-feira com um problema na bomba do combustível. Um resultado bastante desanimador após ter vencido em Barcelona e tendo entrado na briga pelo título. Assim, o americano estava motivado em conseguir o melhor resultado possível para tentar compensar a falha mecânica.

Daly tentou de tudo nas ruas do Principado para superar Suranovich, mas os dois pilotos acabaram se tocando, com a asa traseira do carro do russo se soltando com a batida. A partir daí, era natural imaginar que o piloto da Manor fosse recolher para os boxes e abandonar a corrida. Passou uma volta, e Suranovich não tomou o caminho do pit-lane. Passou outra volta e nada.

Surpreendentemente, três giros depois e sem aerofólio, o russo seguia na pista. Sem a asa, naturalmente o ritmo dele era pior, o que permitiu uma longa fila de carros se formar atrás de Daly. O americano, por sua vez, fazia de tudo para conseguir a ultrapassagem na tentativa de somar algum ponto importante.

O resultado possivelmente você já tenha visto. O carro de Daly foi catapultado na saída do túnel ao tocar na roda traseira de Suranovich, atingindo o alambrado com violência. Por sorte, o ângulo dos impactos foi favorável ao piloto americano, que nada sofreu embora o carro tenha ficado completamente destruído. Assim, Conor praticamente renasceu após o choque, enquanto o piloto russo saiu como vilão do acidente.

É evidente que Suranovich foi bastante imprudente no lance com Daly ao bloquear com um carro sem aerofólio um adversário visivelmente mais rápido. É claro que ele merece ser punido por todo o acontecido, mas o acidente é mais do que isso. É mais do que ver um carro voando em direção ao alambrado em Mônaco.

Em primeiro lugar, após a prova, a GP3 emitiu um comunicado desclassificando o russo da corrida não só pelo acidente, mas também por ter ignorado a bandeira preta com o circulo laranja – indicação de que era obrigado a retornar aos boxes para fazer os reparos necessários. Pessoalmente, eu não vi nenhuma bandeira ser acenada. Mas é claro que fico limitado pela transmissão. Ele pode ter recebido a indicação, enquanto a televisão mostrava o duelo pela liderança.

Mas me parece muito imaturo da direção de prova jogar toda a culpa do incidente em um piloto de apenas 16 anos, que faz apenas a segunda temporada da carreira desde que saiu do kart.

Para começar, do toque entre os dois pilotos até o voo de Daly não se passaram apenas duas curvas. Foram voltas e mais voltas. Quer dizer, então, que mesmo com centenas de fiscais, além de comissários de prova e dos membros da equipe, em nenhum momento ninguém conseguiu tirar um carro sem aerofólio da pista?

Ou seja, durante três ou quatro voltas, a direção de prova mostrava a bandeira negra exaustivamente para Suranovich, a equipe gritava para que ele recolhesse aos boxes, mas o garoto endoidou e resolveu pilotar um carro quebrado – mesmo com a desclassificação iminente – pelas ruas de Monte Carlo como se não tivesse acontecido nada? Eu acho que não. Que o russo errou em não ter voltado aos boxes, isso está mais do que claro. Mas colocar a culpa toda nele pelo acidente, ainda mais em se tratando de uma categoria-escola me parece uma afobação muito grande para fazer a corda arrebentar do lado mais fraco.

Em segundo lugar, a conduta do russo no acidente não me parece tão errada. No momento em que ele bloqueou o americano, a impressão foi do piloto ter feito apenas um movimento – para a direita – para impedir a ultrapassagem. Depois, ele praticamente manteve a trajetória em que estava na curva. Levando em conta alguns lances da F1 neste ano, em que não houve punição, seguindo a mesma lógica, também não deveria ter acontecido nada em Mônaco.

Outra coisa que precisa ser levada em conta é que os dois pilotos estavam se tocando há algumas voltas. Enquanto os dois batiam rodas, os fiscais assistiam a tudo como se não fosse nada demais. O lance no fim do túnel não foi tão diferente do embate travado na Mirabeau naquela mesma volta. É claro que existe o agravante de um dos competidores estar sem aerofólio. Mas, novamente, apenas a defesa de posição não foi algo desleal.

Não encontrei uma imagem do Suranovich sem a asa, então usei todo meu talento para fabricar essa acima para voce entende o estado do piloto durante a prova

Por fim, o acidente na GP3 mostra o fracasso que é este ano. Desde o momento em que os planteis das equipes foram anunciados, estava claro que alguns pilotos não tinham a menor condição de pilotar um carro da categoria. Aí nessas horas sempre tem alguém que fala algo como: “tem um piloto das Filipinas e outro do Chipre, não tem como dar certo!”

Só que se engana quem falar isso. O filipino (Marlon Stockinger, vencedor em Mônaco) e o cipriota (Tio Ellinas) fizeram por merecer para chegar à GP3. Começaram no kart, passaram anos nas categorias menores antes de avançar ao campeonato preliminar na F1. Por outro lado, há pilotos que chegaram à categoria com experiência mínima em monopostos.

E olha que Suranovich não está entre os piores. O russo até pode ser considerado como alguém no limite entre os pilotos bons/profissionais e aqueles que descolaram uma vaga na GP3 para fazer figuração. O problema é que, na maioria das etapas, os pilotos dessas duas realidades não se encontram. Os atletas de ponta geralmente disputam as primeiras colocações, enquanto os demais brigam no fim do grid. Só que em Mônaco foi diferente. Daly – que está entre os bons pilotos – teve o problema mecânico e precisou fazer a corrida de recuperação no sábado. Deu no que deu.

Depois de tudo isso, tem gente que acha mais fácil jogar toda a culpa no garoto de 16 e acordar no dia seguinte achando que está tudo bem na categoria. Então tá…

5 comentários sobre “Por que Dmitry Suranovich não deve levar toda culpa pelo acidente em Mônaco

  1. Realmente, o Daly bateu na traseira e deve levar a culpa, já que ele tem que acertar a frenagem conforme o carro da frente. No caso, o russo tinha que frear antes por conta da falta de asa traseira.
    MAS, PORÉM, que o russo não deveria estar lá, não deveria. Fiquei surpreso ao saber que ele já estava sem asa há bastante tempo. Se tivesse morrido um fiscal, ia feder muito por não terem tirado o cara antes…

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  2. Se a equipe, direção não chamou não importa. O cara tem de saber que daquela forma não poderia continuar. Que ideia imbecil. E se o cara morre, ou se um fiscal, bombeiro, torcedor morre, ia falar o que?

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  3. Sinceramente, vendo o vídeo, a culpa foi mais do Daly do que do Suranovich. Independentemente da falta da asa, o acidente foi bem semelhante ao do Schumacher com o Bruno Senna em Barcelona. E, na F1, o punido foi quem bateu.

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  4. Quando vi as imagens do acidente não pensei tanto na vida do Conor Dany, mas sim na dos bandeiras, bombeiros, e fiscais que estavam ali.
    Seria extremamente chato ver alguém morto ali, principalmente se levarmos em conta que esse pessoal está ali como voluntário e pela paixão pelas corridas.

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