A nova identidade dos novatos da Nascar

Stephen Leicht finalmente ganhou uma chance de disputar a Sprint Cup

Nos últimos anos, tenho reclamado da falta de renovação de pilotos na Nascar devido ao trabalho porco que a Nationwide faz com os jovens talentos. Como praticamente não há desenvolvimento dos competidores no campeonato de acesso, a consequência é a estagnação do grid da divisão principal.

Pegando apenas os pilotos que competiram pelo Rookie of the Year, fica clara essa falta de renovação. Em 2009, Joey Logano venceu o título ao superar Scott Speed, Max Papis e Dexter Bean. No entanto, nenhum dos quatro veio da Nationwide. Logano teve aquela ascensão meteórica da Nascar East para a Sprint Cup em menos de um ano, Papis competira na Truck Series e os outros dois na Arca.

A partir daí, a coisa desandou. Tanto em 2010 (Kevin Conway) quanto em 2011 (Andy Lally), o Novato do Ano competiu sozinho. Ou seja, esses dois pilotos não tiveram o menor problema para vencer a competição, mesmo que tenham ficado conhecidos pela, digamos, capacidade limitada dentro de um carro de corrida.

A situação em 2012 parecia seguir o mesmo caminho. No início do ano, Josh Wise e Timmy Hill haviam se inscrito para participar da competição. No entanto, após não conseguir para se classificar para três das primeiras quatro corridas do ano, Hill decidiu voltar à Nationwide deixando o caminho livre para o adversário.

Parecia que Wise seria o terceiro rookie consecutivo a ganhar o título sem nenhum adversário. Mas a situação mudou na última semana. A Nascar permitiu que a equipe de Joe Falk (a que usa o carro número 33, ex-RCR) inscrevesse Stephen Leicht na disputa.

Aliás, a briga entre os dois promete ser sensacional. Wise é um daqueles pilotos de start-and-park. Das dez corridas em que participou até agora (não esteve em Daytona), em nenhuma ele chegou ao final. Na única que a equipe decidiu correr – em Richmond – ele bateu após 127 voltas. Nas duas últimas etapas (Talladega e Darlington), ele percorreu somente 24 voltas.

A situação de Leicht não é muito melhor. É verdade que a equipe do carro número 33 não é do grupo do start-and-park. No entanto, o carro é muito ruim. Nas últimas etapas, Stephen não conseguiu se classificar para a etapa de Darlington, enquanto Jeff Green ficou de fora no Kansas. Em Talladega, Tony Raines teve um problema no motor e abandonou ainda na 32ª volta. E essa é a parte boa! Tanto no Texas quanto em Richmond, o carro terminou com nove (!) voltas de atraso. Em Martinsville, foram dez (!!).

É óbvio que há uma explicação. Como a equipe não tem um patrocinador principal, ela tenta conseguir o melhor resultado positivo com o que tem à disposição. Mesmo que isso signifique muitas voltas com um pneu gasto, tomando alguns segundos por volta dos líderes. Bom, é isso ou largar e parar.

Landon Cassill é um dos pilotos que conseguiu avançar na carreira após o start-and-park (é o de vermelho)

Mas não me entendam errado, isso é uma coisa legal. Wise e Leicht são exemplos de pilotos que conseguiram furar o sistema e se graduar da Nationwide para a Sprint Cup. Espertamente, eles perceberam que as grandes equipes não estão muito animadas para trazer os jovens pilotos da categoria de acesso. Como há mais pilotos que vagas disponíveis nos times top, acaba que praticamente são os mesmos competidores, que apenas migram de uma equipe para a outra.

Assim, esse pilotos se viram com duas escolhas: voltar para casa e assistir à Nascar pela televisão ou aceitar qualquer vaga de emprego e ver até onde conseguem chegar. A imensa maioria dos pilotos (pensando também na necessidade de levar dinheiro às equipes) acaba optando por voltar para casa. Esses dois quiseram tentar levar a carreira adiante mesmo no start-and-park.

A dupla, na realidade, tem bons nomes para se inspirar. O primeiro deles é o de Landon Cassill. O antigo protegido de Jeff Gordon se viu sem muitas expectativas de seguir a carreira quando foi dispensado pela equipe Hendrick, mas contando até mesmo com certo lobby dos antigos patrões ele conseguiu descolar uma vaga de start-and-park em 2010. Na ocasião, ele se alternou entre a TRG e a Phoenix Racing. Tentou se classificar para 18 provas e só ficou fora de duas.

Assim, Cassill conseguiu causar uma boa impressão nos chefes. Em 2011, a Phoenix conseguiu um patrocinador para a maior parte das provas e acabou apostando em Cassill para tomar parte dessas corridas. É verdade que em 2011, Kurt Busch chutou o garoto da equipe de Joe Finch, mas a experiência dos últimos anos deu resultado e ele logo foi disputado por duas equipes antes de acertar com a BK Racing, onde também toma parte de todas as corridas.

Outro piloto que percebeu a sacada do start-and-park foi Erik Darnell. O americano, um dos vencedores do reality-show de Jack Roush, que buscava revelar um jovem talento, até chegou a ter uma chance na Sprint Cup, mas acabou sumindo sem muitos resultados. Depois disso, ele assinou com a Key Motorsport para largar e parar na Nationwide. Em 2011, essa equipe tinha três pilotos completando poucas voltas para que Jeff Green e Mike Bliss pudessem disputar toda a corrida. Em 2012, Darnell foi promovido e é ele quem participa de todas as provas, tendo inclusive terminado em 17º em Darlington.

Vendo esses quatro exemplos, dá para perceber um padrão. Todos os garotos tinham sido contratados por grandes equipes, mas acabaram dispensados em algum momento. Ou seja, o currículo e o sucesso nas categorias de base pré-Nascar pesou na hora de eles receberem uma segunda chance.

Stephen Leicht venceu a etapa do Kentucky da Nationwide e ganhou destaque na Nascar

Para encerrar, voltando rapidamente a Stephen Leicht. De todos os quatro (contando com Wise, Darnell e Cassill), ele é o único a ter vencido uma corrida na Nationwide. Em 2007, no Kentucky, ele competia pela equipe de Robert Yates. Naquele ano, a divisão de acesso da Nascar ficou marcada pelos grids serem formados majoritariamente pelos pilotos da Sprint Cup, mas em etapas separadas, os garotos recebiam uma chance.

Na prova do Kentucky, como sempre, Carl Edwards estava na liderança, mas o piloto foi abalroado por Steven Wallace, que ocupava a segunda colocação. Sem o favorito na pista, a equipe Yates agiu rapidamente e conseguiu colocar o carro de Leicht na briga pela vitória. No final, o garoto conseguiu superar Brad Coleman (no 18 da Joe Gibbs) e recebeu a bandeira quadriculada.

No ano seguinte, a Yates fechou, e Leicht foi contratado pela RCR, mas também perdeu espaço por falta de patrocínio, voltando agora na Sprint Cup. Mas o legal de tudo isso são duas coisas: a primeira é o reconhecimento do retrospecto vencedor do piloto na hora de voltar à Nascar alguns depois e outra é a entrevista que Carl Edwards deu após a corrida do Kentucky. No vídeo abaixo, após abandonar a prova, o piloto vai para aquele momento de praxe de agradecer os patrocinadores, mas erra o nome de um deles ao chamar a Sharp de Sony. Ao perceber a gafe, ele passa a entrevista toda tentando concentrar e promovendo o investidor. Sensacional!

3 comentários sobre “A nova identidade dos novatos da Nascar

  1. A Nationwide até lembra um pouco a World Series by Renault nesse negócio de não conseguir emplacar ninguém na categoria maior, né?

    Deixo claro. Quando falo em categoria maior, me refiro à GP2.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s