A F-Futuro acabou. Mas não é o fim do mundo

F-Futuro grid
A F-Futuro ficou conhecida pelo grid vazio. Mas havia pilotos, a categoria que não conseguiu atraí-los

Como você já deve saber, a F-Futuro acabou. Conforme foi amplamente noticiado, a categoria-escola criada por Felipe Massa para tentar revelar novos nomes no automobilismo brasileiro não aguentou duas temporadas de poucos carros e decidiu pedir as contas.

Curiosamente, o fim da F-Futuro é como se tivesse morrido alguém. Gente que passou a vida criticando a categoria – pelos seus oito carros no máximo no grid –, agora lamenta o fim do campeonato. Apesar disso, a verdade é que o campeonato criado por Massa pouco teve a ver com a formação de pilotos.

Em dois anos, 13 garotos disputaram o certame de forma integral. Entre todos eles, apenas três conseguiram sair do Brasil: Nicolas Costa, Guilherme Silva e Victor Franzoni. Sendo os dois primeiros, os campeões da categoria, que se aproveitaram da bolsa dada ao vencedor. De qualquer forma, não é absurdo dizer que eles tinham todas as condições de dar prosseguimento à carreira se não fosse o campeonato de Massa.

Costa tinha começado a carreira nos Estados Unidos e já tinha aberto negociações com algumas equipes de lá quando optou por correr no certame de Felipe Massa. Guilherme Silva, por sua vez, era piloto da Hitech na F3 e teria um desenvolvimento parecido ao que a equipe fez com Pietro Fantin, enquanto Franzoni, por ser o único a mudar para a Europa sem a bolsa-prêmio, poderia ter dado esse passo na carreira quando quisesse. Para ele, disputar a F-Futuro na verdade foi a antecipação da saída do kart.

Dos demais pilotos que disputaram o campeonato de Massa, apenas Vinícius Alvarenga é especulado pela imprensa italiana para correr na F-Abarth em 2012. Todos os outros sumiram ou pretendiam permanecer no Brasil nesta temporada. E fazer um segundo ano na F-Futuro sempre significou queimar um ano de aprendizado na Europa.

Guilherme Silva
Guilherme Silva (assim como Nicolas Costa e Victor Franzoni) tinha todas as condições de continuar a carreira sem competir na F-Futuro

Ou seja, repetir a finada categoria só era válido em caso de um garoto que precisasse da bolsa para correr fora do país. Generalizando um pouco, se um piloto precisa do prêmio para disputar um campeonato europeu que custa menos de 300 mil euros, jamais poderá pensar em GP2 e F1, onde as equipes pedem milhões e milhões.

Dito isso, há outra mentira contada sobre o fim da F-Futuro: que ela morreu pela falta de pilotos interessados. Talvez essa frase não esteja totalmente errada, mas é uma meia-verdade. Não vou discutir a capacidade do kartismo nacional abastecer de pilotos campeonatos como a F-Futuro, a F3 Sul-americana e os certames europeus. Obviamente, algum dia ele pôde fazer isso, hoje não mais.

Mas também não adianta jogar toda a culpa no kartismo. A F-Futuro era um produto ruim quando comparado às demais categorias europeias. Talvez a única vantagem de correr por aqui fosse a não necessidade de adaptação ao país, além do prêmio em dinheiro dado ao campeão. Com tão poucos atrativos, boa parte dos pilotos preferiu se mandar para a Europa.

Mesmo com a F-Futuro, em 2012, Felipe Fraga, Gabriel Casagrande, Gustavo Lima, Henrique Baptista, e Roberto Lorena optaram por fazer a transição do kart para o automobilismo direto na Europa ou nos Estados Unidos. O mesmo vale para Leonardo Jafet, que disputou a Skip Barber e já tinha testado pela categoria de Felipe Massa. E isso tudo sem citar nomes como Marco Túlio Souza, Yukio Duzanowski e Sabrina Kuronuma, que tinham feito a transição para o automobilismo internacional sem jamais ter corrido na F-Futuro, passando apenas pela 1.6 Gaúcha. Além deles, João Câmara fez toda a pré-temporada pela equipe holandesa Van Amersfoort, mas acabou não acertando para correr de F-Renault com eles.

Gabriel Casagrande
Gabriel Casagrande é um dos pilotos que ignorou completamente a F-Futuro

Ou seja, se a F-Futuro fosse atrativa, muitos desses garotos teriam corrido nela. Aí a tal falta de pilotos que matou a categoria não teria acontecido. Portanto, não é difícil concluir que a categoria-escola foi um campeonato criado visando a um nicho muito específico de atletas: os que vislumbravam o prêmio ou os que não tinham dinheiro para correr fora do Brasil.

Não é por acaso que tantos nomes sumiram após uma única temporada. São pilotos que não tinham condições financeiras de manter a carreira. É triste ver um monte de garotos precisando abrir mão do automobilismo?  É. Mas isso não é exclusivo da realidade brasileira. Infelizmente, o esporte a motor é uma modalidade muito cara e nem todo mundo tem condições de praticá-la. Então, a F-Futuro servia como o último respiro para muita gente que deixou o kart naquela esperança quase milagrosa de estourar na carreira e arrumar um patrocinador. Uma tarefa praticamente impossível de se realizar aqui no Brasil.

Por outro lado, acredito que a organização da F-Futuro fez de tudo para manter o campeonato ativo até o último momento. Só que o bom pacote apresentado pelos promotores era muito inferior ao que os principais campeonatos europeus oferecem. Por exemplo, ninguém sabe como a F-Renault Eurocup explodiu de um dia para o outro, mas hoje conta com um grid de 38 carros. Isso depois de receber 52 inscritos, com 14 deles tendo a vaga negada para 2012.

Agora, pensando como um garoto que acabara de sair do kart, o que é mais interessante, correr na F-Renault contra pilotos da McLaren, Caterham, Lotus e Red Bull e aprender na marra contra eles ou vir para a F-Futuro e duelar contra seis ou sete garotos? É contra esse tipo de coisa que a F-Futuro não conseguia  competir, independentemente de bolsa ou de investimentos feitos pela Felipe Massa. É por isso que eu falei em nicho específico, quem optava por começar a carreira por aqui não tinha muita escolha de ter tentado algo diferente. E o caso de Felipe Fraga retrata bem isso. Para quem não conhece, o garoto é tido como um desses prodígios do automobilismo, mas fez a transição na Europa, justamente pelo motivo citado aqui.

Para encerrar, um último erro que a F-Futuro cometeu foi se distanciar da F3 Sudamericana. O campeonato de Felipe Massa sempre tentou passar a impressão de que era um certame que não sofria dos mesmos males que a categoria maior. Só que isso acabou matando o torneio. A partir do momento que a bolsa para campeão era destinada a correr em um campeonato europeu – e não havia prêmio como treinos em equipes da F3 Sudam – a ideia é que de que haveria uma ruptura no desenvolvimento dos atletas aqui no Brasil.

Isto é, depois de disputar a F-Futuro, a própria organização do campeonato indicava que o próximo passo seria correr na Europa. Consequentemente, os pilotos perceberam que era muito mais fácil começar a carreira no continente europeu ao invés de iniciar o desenvolvimento por aqui. Então para que a F-Futuro? Mais fácil fazer a transição direto na F-Renault não é mesmo?

Antes de terminar, só vou dar uns pitacos. Para os garotos que pretendiam fazer a transição do kart para a F-Futuro neste ano e agora ficaram sem correr, minha sugestão seria continuar no kartismo em 2012. Enquanto isso, treinar com os vários carros de F-Renault que estão espalhados por aí e tentar negociar com alguma equipe para correr no segundo semestre na Europa. Já quem estava na categoria, acho que a F3 Sudam é a melhor opção, mesmo que seja para correr na Light, até porque o campeonato ainda não começou. Outros campeonatos que também não deram o início são o italiano de F-Abarth, a JK Asia (antiga F-BMW do Pacífico) e a F-Pilota China (a F-Abarth do país asiático). Equivalente à F-Futuro existe a F4 Francesa, mas essa começa a temporada dia 29 de abril.

Hitech F3 Sudam anúncio
Eu devia cobrar royalties por colocar esse anúncio de novo aqui. Mas acho bem apropriado

3 comentários sobre “A F-Futuro acabou. Mas não é o fim do mundo

  1. Se eu fosse um desse garotos , iria correr la no sul , na fórmula 1.6 guaucha , la com uns 100 mil voce faz uma temporada ia correr umas 16 etapas , claro que não e uma opção dos sonhos , mas pra quem quer correr acho que compensa

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  2. bom ouvir falar do Vinicius Alvarenga, o vi realizar ótimas performances nos karts, não acompanhei a F-Futuro e não tinha idéia se continua a carreira – tomara consiga ir pra Itália, e tomara seja bem sucedido lá.

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  3. Após ler esta matéria e a do Allkart acredito que a única oportunidade de darmos um bom aprendizado para os pilotos que estão saindo hoje do kart é a de criar uma Verdadeira Categoria Escola, nada da atual forma do piloto vir gastar dinheiro para correr algumas etapas e depois só sair com uma experiência que nem sempre foi bem aproveitada e que talvez não o tenha deixado preparado o suficiente para dar prosseguimento na carreira. ir para fora do País sem nenhuma experiência também não é o ideal porque aumenta o risco do piloto ir e voltar em apenas um ano, muitas vezes por ter escolhido a categoria ou equipes erradas.

    É essencial fazer uma categoria Escola onde o piloto aprende os conceitos teóricos sobre pilotagem e também sobre a parte mecânica do monoposto antes de ir para a pista, com o seu desempenho sendo acompanhado por instrutores e comparado com os dos outros pilotos do curso, parecido com o que é feito nas escolas de pilotagem como a Alpie e o Centro de Pilotagem Roberto Manzini, mais com o objetivo de formar os pilotos para competirem na Europa ou EUA, utilizando equipamentos idênticos ou parecidos com os quais eles irão encontrar lá fora, além de usar várias pistas do Brasil.

    Para que os pilotos Brasileiros cheguem preparados para competirem na Europa precisamos oferecer um produto muito bom para eles, e isso é algo que infelizmente não têm acontecido nos últimos anos.

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