Tim Tebow
Será que o automobilismo vai pegar carona no sucesso repentino de Tim Tebow e Jeremy Lin em 2012?

Como surgem os mitos no esporte? Será que simplesmente certas pessoas são predestinadas ao sucesso? Ou será que depende de uma série de fatores tanto atléticos quanto pessoais, como carisma, simpatia e um toque de exotismo?

Essas certamente são questões bastante complicadas e dificilmente será possível chegar a um consenso como resposta. Bem, não importa. Em menos de um mês, os americanos viram o surgimento de dois novos heróis do esporte: o quarterback Tim Tebow, do Denver Broncos, e o armador Jeremy Lin, do New York Knicks.

Nos primeiros 45 dias em 2012, expressões como Tebowmania e Linsanity entraram no vocabulário dos americanos. Até mesmo quem não acompanha o futebol americano e o basquete, respectivamente, ligou a TV para ver do que se trata esses dois novos mitos. Com tamanho sucesso desses dois garotos que sequer chegaram aos 25 anos de idade, não tenha dúvidas: quando a temporada do automobilismo começar, a imprensa americana – e talvez mundial – estará disposta a encontrar um novo Tebow ou um novo Lin para dar o empurrão na popularidade do esporte a motor.

Mas antes de falar como isso pode afetar as corridas de carro, farei uma breve retrospectiva para tentar explicar como esses garotos mudaram o esporte nos Estados Unidos. Afinal, é preciso saber o que eles fizeram para saber se é possível acontecer o mesmo no automobilismo.

Tim Tebow Tebowing
Tim Tebow e sua comemoração típica, que ganhou o mundo

Aos 24 anos, Tebow disputou em 2011-12 apenas a segunda temporada da carreira na NFL. O americano era o quarterback reserva do Denver Broncos até a sexta rodada (o time tinha perdido quatro dos cinco primeiros jogos) da temporada regular. Com o time novamente sendo derrotado pelo San Diego Chargers, o treinador resolveu fazer uma substituição no intervalo e dar uma chance ao garoto.

Tebow entrou no jogo e comandou uma reação impressionante dos Broncos, que tiraram um déficit de 16 pontos, mas mesmo assim acabar derrotados. Na rodada seguinte, Tim recebeu a chance de ser titular pela primeira vez, mas o jogo começou bastante trágico. O Miami Dolphins vencia por 15-0 faltando apenas três minutos para o fim da partida. Aí Tim Tebow começou a realizar uma série de milagres. Pela primeira vez na história da NFL, uma equipe conseguiu virar o jogo perdendo por mais de 15 pontos nos três minutos finais.

Com o feito, o quarterback começou a chamar a atenção. Todo mundo passou a acompanhar os Broncos para ver se Tebow conseguiria fazer mais milagres. E eles foram acontecendo. Depois de começar o campeonato perdendo cinco dos seis primeiros jogos, a equipe reagiu – sempre com fim de jogos dramáticos – e não só venceu a divisão, como se classificou para os playoffs. No mata-mata, o Denver recebeu o Pittsburgh Steelers, uma das principais franquias da competição.

A partida foi para a prorrogação e logo no primeiro lançamento, Tebow acertou o passe para o companheiro de equipe, que cravou a vitória. Abaixo você pode ver a narração de Everaldo Marques no lance decisivo. (A partir de 2min17s)

Mas ok, até aqui, Tebow não fez nada demais. Histórias como essas – do garoto que entrou e fez a equipe mudar da água para o vinho – acontecem quase todos os dias no esporte. Então o que fez o jovem quarterback dos Broncos ser tão especial? Primeiro, ele é tremendamente carismático. Ele é jovem, mostra em campo a vontade de vencer – com as câmeras mostrando as mais diversas reações durante uma partida –, é bem-humorado nas entrevistas, atende os fãs e, talvez o principal, fez votos de castidade. Em outras palavras, enquanto a gente está acostumado a histórias e mais histórias de atletas se perdendo nas noites e nas baladas, Tebow não bebe, não fuma e é virgem. (P.S.: não estou falando do signo, se é que você me entende)

Ok, então ele é carismático, fotogênico, faz caridade, é religioso e é uma pessoa boa, mesmo sendo um atleta. Algo mais? Sim! Ele tem um jogo estranho. Ao invés de só lançar a bola, ele também corre para marcar pontos, algo bem incomum para um quarterback. E, para encerrar, ele tem uma maneira peculiar de comemorar os Touchdowns ao fazer uma pose parecida com a da estátua ‘o Pensador’. A tal comemoração rolou o mundo, foi imitada por todo o tipo de personalidade e recebeu o apelido de ‘Tebowing’. Depois de tudo isso, falar que ele quase morreu quando ainda estava sendo gestado parece pouco. Ou não.

A história de Jeremy Lin é um pouco mais curta. Aos 23 anos, o garoto nasceu nos Estados Unidos mas é filho de taiwaneses. Jeremy sempre foi um bom jogador de basquete, mas acabou sendo esnobado pelas principais universidades americanas em se tratando de esportes. Uma das únicas que o aceitou foi a de Harvard (que chato né?). No entanto, como por lá eles não têm vaga para atletas bolsistas, Lin entrou em Harvard pelas notas mesmo.

Jeremy Lin
Formado em economia por Harvard, Jeremy Lin estava encostado no banco de reservas do New York Knicks

O garoto seguiu jogando basquete na Ivy League – disputada por Harvard – e se formou em economia. Com o diploma na mão, se inscreveu para o draft da NBA em 2010, mas novamente foi esnobado. No entanto, o bom desempenho durante os torneios de verão fizeram com que o Golden State Warriors oferecesse um contrato para a temporada. Lin jogou pouco e foi dispensado pela equipe no final do campeonato.

Para 2012, o garoto foi chamado pelo Houston Rockets, mas novamente acabou dispensado em poucos dias. No entanto, tendo passado uma boa impressão em alguns treinos e também na faculdade, o New York Knicks o contratou para substituir os armadores titulares que estavam lesionados. Apesar disso, Lin jogava apenas poucos minutos por partida. Sem a certeza de continuar na equipe, o garoto foi dividir o apartamento com o irmão mais velho em NY.

No dia 3 de fevereiro, porém, a situação começou a mudar. Era uma sexta-feira, o Lin mais velho arrumou companhia para a noite e pediu para que Jeremy fosse dormir em outro lugar, para ter privacidade, entende? O armador ligou para o companheiro de equipe Landry Fields, que liberou o sofá . No dia seguinte, os Knicks enfrentaram o New Jersey Nets, no clássico local.

Com metade do time de Nova York machucado, o treinador resolveu deixar que Lin jogasse alguns minutos a mais que o habitual. O resultado foram 25 pontos e 7 assistências. No dia seguinte, contra o Utah, Jeremy teve a primeira chance como titular e correspondeu com 28 pontos. Depois, mais 23 contra o Washington e exibições de gala contra Los Angeles Lakers – 38 pontos na vitória contra o time de Kobe Bryant – e Minnesota Timberwolves, ao anular o jovem armador espanhol Ricky Rubio, sensação da temporada.

Após quatro jogos como titular e invicto, Lin alcançou alguns recordes, assim como Tebow. Jeremy é o primeiro jogador americano de origem asiática a jogar na NBA, de quebra, ele tem a melhor marca da história do campeonato em número de pontos marcados nos quatro primeiros jogos como titular. Não importa em quem você pensar: Michael Jordan, Larry Bird, Magic Johnson, Anderson Varejão, todos marcaram menos que Lin.

O nosso amigo asiático não é tão carismático quanto Tim Tebow, mas tem algumas coisas em comuns. Ele demonstra emoção durante o jogo – sendo sempre perseguido pelas câmeras –, faz jogadas estranhas, é bastante humilde e é religioso. Só não posso falar nada sobre ele ser virgem. Mas ele entrou em Harvard pelas notas, então né? Ok, ok, foi só uma piada.

Agora que é ídolo em NY, Lin já pensa em deixar a casa do irmão e arrumar um lugar para morar. Enquanto isso, os Knicks são o centro das atenções da NBA nessas semanas de fevereiro.

Se você chegou até aqui, deve estar querendo saber o que isso tem a ver com o automobilismo. Então, em comum, Lin e Tebow fizeram sucesso quando menos esperavam e geraram atenção para os respectivos esportes mesmo de quem não os acompanha. Por isso, é talvez previsível dizer que alguém vai tentar empurrar um novo mito no esporte a motor americano em 2012. Para facilitar a tarefa dessas pessoas, apresento seis nomes, três na Nascar e três na Indy, que podem gerar essa mania.

Trevor Bayne Daytona
Trevor Bayne teve a chance de se tornar um mito em 2011, mas não conseguiu aproveitá-la

Trevor Bayne – Nascar: Esse é o nome óbvio. O piloto da Roush-Fenway ensaiou uma Baynemania em 2011, quando venceu a Daytona 500 na segunda corrida que disputava na Sprint Cup. Apesar disso, os maus resultados que vieram na sequência e um período afastado das pistas por uma doença fez com que o garoto não estourasse na mídia como os dois astros desse post.

Em 2012, Bayne tem a chance de recuperar a fama. O garoto é religioso, carismático e jovem, assim como Tebow e Lin. Agora imagina se ele vence em Daytona novamente, mas consegue manter os bons resultados ao longo da temporada, terminando com o título da Nationwide no fim do ano e/ou perdendo a vaga para o Chase da Sprint apenas pelo fato de ter disputado cerca de 1/3 das corridas de todos os outros adversários?

Aric Almirola – Nascar: Ok, Tebow nasceu nas Filipinas – quando os pais estavam em uma missão religiosa – e Lin é descendente de taiwaneses, então por que não nosso amigo de origem cubana? O garoto tem bons motivos para ser o novo astro do esporte. Ele é carismático, vem de uma minoria, já foi demitido várias vezes, já teve que deixar um carro no meio da corrida por ordem do patrocinador e vai pilotar o lendário número 43 em 2012.

Agora imagina se Almirola vence em Daytona desbancando Denny Hamlin – o cara que o substituiu na história do patrocinador – nas curvas finais? Ou então entrar no Chase e deixar o piloto da Gibbs de fora? Poderia ser esse ser o início da AlmirNation? Se cuida Dale Jr!

Paulie Harraka – Nascar Truck Series: mais um piloto vindo de minoria. Se Lin é chinês e Almirola, cubano, Harraka é de origem vietnamita. O garoto vai estrear na Truck Series por uma equipe também novata e, a princípio, não deveria ter muitas expectativas de bons resultados.

O grande diferencial de Harraka é que, assim como Lin, ele é formado. Tudo bem que não foi por Harvard, mas ele conseguiu vaga na Universidade de Duke, uma das maiores nos Estados Unidos para quem quer seguir carreira esportiva. (E Paulie entrou pelas notas, já que é piloto). Mas, a efeito de comparação, quantos garotos na GP2 ou na F1 você acha que tem diploma? Nosso amigo aqui tem. Seria sensacional vê-lo disputando o título e vencendo corridas pilotando para uma equipe pequena. Os fãs do piloto poderiam se chamar Harrakers, o que acha?

J.R. Hildebrand – Indy: todo mundo lembra como Hildebrand perdeu a Indy 500 em 2011, ao bater na última curva. Teria algo mais espetacular que o garoto vencer a corrida deste ano em um desempenho dominante? E se depois dedicasse o triunfo a Dan Wheldon? Na sequência, vitórias nas etapas do Texas e de Baltimore poderiam levar JR ao posto de novo ídolo do esporte a motor nos Estados Unidos.

Já pensou chegar em uma etapa da Indy, ver uma fila enorme e perguntar para o cara na sua frente “é aqui que compra ingresso?”. E ouvir como resposta “Não, man! Dafuq? Aqui é para se alistar para a National Guard. Somos a J.R. Army, bro!”

Josef Newgarden – Indy: correndo pela pequena equipe de Sarah Fisher, quais as chances de Newgarden ser o novo ídolo do esporte? Eu diria que Lin e Tebow devem ter ouvido coisa desse tipo antes de estourarem. Já pensou se o novato vence em Indianápolis ao poupar combustível, fazer uma parada a menos e ultrapassar Helio Castroneves ou Dario Franchitti nas voltas finais? Depois, ele poderia vencer mais algumas vezes, chegando à Fontana com chances – ainda que remotas de título. Os torcedores do piloto seriam conhecidos como Gardners e plantariam uma planta carnívora no novo jardim de suas casas em homenagem ao garoto.

Ed Carpenter – Indy: aos 30 anos Carpenter não tem nenhuma característica em comum com Tebow ou Lin, que eu saiba. Mas depois de anos andando na metade do pelotão, o americano venceu pela primeira vez na Indy, em 2011, correndo pela equipe de Sarah Fisher no oval do Kentucky. Agora, dono do próprio time, o piloto-dirigente pode encantar os fãs um pouco mais velhos da categoria caso vença em Indianápolis e em mais algumas etapas.

Já imaginou o piloto aparecer ao lado do presidente Barack Obama em um discurso em sua homenagem? Obamão poderia dizer algo como: “Carpenter é o sonho americano. Um dia ele olhou no espelho e disse ‘eu quero ser campeão da Indy’ e desde então ele lutou. Passou anos sofrendo, mas sabia que dias melhores viriam. Ao invés de desistir, ele montou a própria equipe e, aos 30 anos, provou a todos que podia ser campeão. Os Estados Unidos são assim. Nós não podemos temer a crise e vamos provar a todos que somos a maior nação do mundo e, no mínimo, merecemos respeito”. Os fãs de Carpenter seriam os ‘99%’, em alusão o movimento ‘Occupy’.

Dito tudo isso, na sua opinião, quem será o novo mito do automobilismo americano em 2012? Bayne, Almirola, Harraka, Hildebrand, Newgarden ou Carpenter?