Richie Stanaway
Com uma carreira meteórica na Europa, Richie Stanaway é o principal nome do novo programa da Lotus

Lembra quando a Renault apresentou o carro de 2011, e a equipe contava com uma enorme lista de pilotos reservas? Além de Bruno Senna – que acabaria virando titular –, o time também tinha Romain Grosjean, Ho-Pin Tung, Jan Charouz e Fairuz Fauzy.

Em 2012, agora chamada de Lotus, a equipe resolveu inovar e, assim como todos os outros times medianos, contratou apenas um reserva. Ou seja, se Kimi Raikkonen ou Grosjean não puderem correr, a única pessoa disponível será Jérôme D’Ambrosio.

No entanto, alguém mais atento logo pode dizer que essa escolha não faz sentido. Afinal, a Renault (agora Lotus) tem um longo histórico no desenvolvimento de jovens pilotos. E desde que a equipe na F1 foi comprada pela Gravity (que é uma empresa de gerenciamento de jovens atletas) não teria porque o time contar só com um reserva e esquecer hordas de jovens talentosos nos campeonatos menores.

Nesta segunda-feira, dia 6, o mistério acabou. A equipe inglesa em parceria com a Gravity (o que não quer dizer nada, afinal são a mesma empresa) lançou um novo programa de jovens pilotos para a F1, chamado de i-Race. (Favor não confundir com o iRacing).

Dessa vez são somente cinco participantes: Kevin Korjus e Richie Stanaway (ambos na World Series by Renault), Óscar Tunjo e Esteban Ocon (F-Renault Europeia) e Dorian Boccolacci, de apenas 13 anos, que ainda está no kart.

O programa consiste nas mesmas fases que todos os outros da F1, como o Red Bull Junior Team ou a Ferrari Driver Academy. Na verdade, deve ser apenas uma continuação do que a Gravity já vinha fazendo ao trabalhar jovens para chegarem à categoria maior. Então, qual a grande novidade desse anúncio?

Bom, são duas. O primeiro é o facão passado tanto na Gravity quanto na Lotus. Como dito lá em cima, o exército de pilotos reservas na equipe inglesa acabou, com D’Ambrosio passando a ter toda a atenção. Isso significa que o belga agora tem uma concorrência menor para negociar uma vaga de titular tanto em Enstone quanto com outra equipe.

Kevin Korjus
Campeão da F-Renault Europeia em 2010, Kevin Korjus quebrou recoredes de precocidade na World Series by Renault e testou o carro da F1 em Abu Dhabi

A Gravity também deve ter mudanças estruturais. Até 2011, o logo da empresa – uma letra ‘g’ em um círculo cor de marca texto desbotado – era visto em uma série de categorias de acesso do automobilismo europeu. No site, da empresa, além de D’Ambrosio e Grosjean, também são listados Natacha Gachnang, Jim Pla, Alex Sims, Petri Suvanto, Adrien Tambay, Javier Tarancón, Ho-Pin Tung, Christian Vietoris e Marco Wittmann.

Ainda não houve um anúncio do que será feito com eles, se eles seguem na Gravity, ou o programa da empresa deixa de existir. Mas é uma situação curiosa. Imagina se eles continuam, mas sem serem incorporados ao i-Race. É como se tivesse primeira e segunda divisão em um programa de jovens pilotos. Não vejo muito futuro nesse caso, por isso mesmo a tendência é que apenas o novo grupo continue.

A outra vantagem é a integração dos novos pilotos com a Lotus na F1. Não é impossível imaginar que caso Kimi Raikkonen e/ou Romain Grosjean não deem certo nesse retorno à categoria a equipe opte por promover Korjus ou Stanaway. Como os dois garotos ainda estão na World Series, não seria absurdo pensar que em mais duas temporadas eles já estejam prontos para pular para a categoria principal. Tempo suficiente para sabermos o futuro de Kimi/Grosjean.

Na verdade, essa ligação entre equipe titular e programa de jovens pilotos não é uma novidade na Lotus. Na Renault verdadeira, por exemplo, funcionava dessa maneira. O time empregava os garotos do Renault Driver Development na equipe da F1 como piloto de testes e eventualmente eles eram promovidos à função de titular. É o mesmo processo que acontece na Red Bull, e Sebastian Vettel é a prova viva disso.

Mas é o contrário do que estava acontecendo na Renault de 2011. Bruno Senna e Vitaly Petrov jamais tiveram o apoio da Gravity ao longo da carreira, mas os dois tiveram chance de correr, enquanto os pilotos do programa ficaram chupando o dedo.

No final das contas, o i-Race não é nenhuma novidade no que já acontece na F1. Não é de hoje que para chegar à categoria é necessário fazer parte desses programas ou contar com fundos ilimitados de algum bilionário ou de empresas estatais, então essa foi a forma que a Lotus encontrou para se readequar ao mercado de jovens pilotos.

Os participantes são interessantes e as chances na F1 são boas, mas resta saber se na hora que a Lotus estiver em dificuldades e precisar de um novo piloto se vão recorrer ao i-Race ou contratar o primeiro endinheirado que mandar currículo para Enstone.