Oswaldo Negri A.J Allmendinger 24 Horas de Daytona
O domingo, dia 29, foi o grande dia das vidas de Oswaldo Negri, A.J. Allmendinger, Justin Wilson e Michael Shank

Alguns anos atrás, quando eu precisava decidir o tema da minha monografia, tinha pensado em fazer alguma análise sobre a narrativa das transmissões das 24 Horas de Le Mans. Afinal, a corrida geralmente é chatíssima e, principalmente durante a noite, as emissoras precisam inventar algum drama para manter o público atento durante o tempo todo.

Eu acabei fazendo o estudo sobre outra coisa, mas acho que essa ideia é boa. Ainda bem que eu pensava em fazer sobre Le Mans e não sobre Daytona. Se eu quisesse analisar a prova americana não dava. A de 2012, por exemplo, foi muito boa e ação na pista bastou para entreter os fãs ao longo de toda a disputa.

A corrida de 2012, que marcou o aniversário de 50 anos do evento, começou quando ainda no final do ano passado, quando a Corvette lançou o novo protótipo e deixou todo mundo de queixo caído. A montadora americana, no entanto, sabia que o grande adversário era a BMW, dos carros das Chip Ganassi.

Para vencer os alemães, a Chevrolet foi atrás só de todas as principais equipes do campeonato. Assinaram com todas as grandes, menos com a própria Ganassi, obviamente, com Michael Shank, que tem um acordo muito bom com a Ford, e com a Starworks, que também ficou com a rival do oval azul.

Na pista, no entanto, o plano não saiu como o esperado. Por problemas mecânicos, os Corvette foram ficando pelo caminho um a um, abrindo espaço para a disputa entre Ford e BMW. Nas horas finais, os alemães sofreram falhas no sistema de câmbio e coube a Oswaldo Negri e AJ Allmendinger derrotar Allan McNish e Ryan Dalziel.

Oswaldo Negri, A.J. Allmendinger, Justin Wilson e John Pew
Oswaldo Negri, A.J. Allmendinger, Justin Wilson e John Pew comemoraram pouco a vitória em Daytona

É por esses acontecimentos que contar a história da corrida é fácil. Tanto o carro da Shank quanto o da Starworks andaram forte desde as primeiras voltas, ficando sempre na briga pela liderança. Nas horas finais, que era quando importava, Negri segurou McNish em um duelo sensacional, com direito a quatro carros lado a lado na curva inclinada do oval, enquanto Allmendinger retomou a posição contra o escocês na marra para garantir o título.

Aliás, é curioso como a vitória significa coisas diferentes para cada um dos ganhadores. Para Allmendinger, por exemplo, foi o jeito de começar o ano com o pé-direito. AJ sabe que 2012 será decisivo. Com a demissão de Kurt Busch da Penske, Allmendinger tem apenas essa temporada para impressionar Roger Penske e mostrar que ele é o piloto certo para levar a equipe ao título da Nascar, assim como Brad Keselowski demonstrou na temporada passada. O triunfo em Daytona não deve ter muita relação com o desempenho no restante do ano, mas é uma ótima maneira de começar essa nova fase. E pensar que alguns anos atrás o piloto aceitou correr de graça para a RPM para não ter que assistir à Nascar pela TV.

Justin Wilson, por sua vez, precisava de um grande desempenho para provar que está recuperado. Em 2011, o gigante inglês – o piloto mais gente boa do grid da Indy – sofreu um grave acidente na etapa de Mid-Ohio, quando lesionou as costas ao ter a compressão de uma vértebra e perdeu as últimas sete corridas da temporada. Geralmente, quando um piloto sofre um acidente sério, a corrida que marca o retorno é deveras importante para a confiança própria. Não ter o mesmo ritmo de antes, pode significar fim de carreira, mas um título importante mostra que Wilson está pronto para voltar aos monopostos em alto nível.

E o que falar de Oswaldo Negri? Essa possivelmente tenha sido a última grande conquista do brasileiro televisionada aqui no Brasil. Afinal, com a saída do Speed Channel, ninguém sabe como vai ser a cobertura dessas corridas no futuro. Negri fez uma prova impecável e mostrou que faz parte da linhagem de pilotos como Jaime Melo, Augusto Farfus, Thomas Erdos e João Paulo de Oliveira como grandes ídolos desconhecidos do Brasil.

Por fim, chegamos a Michael Shank. Embora sempre relembrem os momentos de dificuldade da equipe, a MSR vive tempos melhores. O investimento da Ford está cada vez maior, e o time também está conseguindo grandes patrocinadores. Tanto é que Allmendinger virou sócio de Shank na equipe que eles vão inscrever na Indy nesta temporada. O triunfo indica que o dirigente está no caminho certo do crescimento.

Felipe Nasr Daytona
Talvez o prêmio dado pela Sunoco para Felipe Nasr correr em Daytona tenha sido mais importante que o título da F3 Inglesa

Para terminar, chegamos a Felipe Nasr. O atual campeão da F3 Inglesa estreou em Daytona e andou como se conhecesse todos os segredos da pista. Foi o principal piloto no segundo carro de Michael Shank – que era defasado em relação ao principal – e, em tese, era o que tinha menos experiência no quarteto formado também por Jorge Goncalvez, Gustavo Yacaman,  e Michael McDowell.

Em determinado momento da corrida, o repórter Diego Mejia entrevistou Amir Nasr, tio de Felipe. Acho que a leitura feita por Amir é muito acertada. Ele disse que o importante não era o resultado – o garoto terminou no pódio, em terceiro –, mas a experiência que o brasiliense estava ganhando por estar em Daytona e competir contra os melhores pilotos do mundo na modalidade.

Acho isso bastante válido e talvez mais importante que o título da F3 Inglesa. Durante o ano, uma das principais críticas que eu fiz ao desempenho de Nasr era o fato de ele não estar disputando contra grandes pilotos. Os adversários na Inglaterra eram bons, alguns bastante talentosos, mas nenhum fora de série.

Em uma analogia, seria como o Neymar. Jogando no Brasil, o atleta do Santos é o melhor em atividade, mas todo mundo queria ver como ele iria se sair no mundial, contra os principais jogadores. Em relação a Nasr, era a mesma coisa. Na F3, ele sobrou, mas faltava a comparação com os tops. Levando em conta o vice-campeonato em Macau e o terceiro lugar em Daytona, essa questão já foi respondida. O piloto competiu contra os melhores e sempre se destacou. Agora é ver como a experiência nessas duas corridas vai ajudá-lo a chegar à F1.

E, por último, ele causou uma impressão muito boa nos Estados Unidos. Imagino que se a F1 não der certo, ele poderá escolher onde correr deste lado do Atlântico.