Tony Kanaan Rubens Barrichello
O teste de Rubens Barrichello na Indy, na realidade, é um convite do amigo Tony Kanaan

Rubens Barrichello deveria ganhar o prêmio de membro honorário da WikiLeaks. É impressionante como todas as notícias o envolvendo vazam antes da hora. Só para mencionar os últimos anos, tanto a troca da Brawn pela Williams quanto o treino na Indy ganharam as páginas do noticiário antes do anúncio oficial.

Piadinha à parte, esse post é para falar do teste que Rubens Barrichello vai fazer pela KV, em Sebring, na próxima segunda e terça-feira. O brasileiro aceitou um convite do amigo Tony Kanaan para dar umas voltas no novo carro da equipe e ajudar no desenvolvimento do equipamento, lembrando que a Indy estreia um novo modelo em 2012.

Sem vaga na F1, é quase inevitável dizer que esse teste pode levar o brasileiro à disputa da Indy em 2012, principalmente por conta do número cada vez menor de ovais. No entanto, tanto Barrichello quanto Kanaan já declararam que foi apenas um convite para trabalhar no desenvolvimento do carro, já que o antigo piloto da Williams não tem mais contrato na F1. Isso, em tese, desmentiria qualquer rumor sobre a troca de categoria.

Caso Rubens acerte para correr na Indy será algo bastante interessante. A categoria ganharia um nome de peso internacional – o que ajudaria a diminuir a rejeição pelo certame criada a partir da morte de Dan Wheldon –, e o piloto poderia mostrar que ainda pode brigar por vitória, mesmo aos 39 anos. Outro ponto a favor, é que Barrichello mora em Miami com a família, então ele já está adaptado ao país.

Talvez tão interessante quanto a mudança de categoria é entender que a participação de Barrichello na Indy só é possível porque ele esteve ligado ao auge do campeonato americano na década de 1990 e início dos anos 2000.

Ano passado, Felipe Nasr se tornou o 12º piloto brasileiro a vencer a F3 Inglesa – para lembrar todos eles, basta clicar aqui. Excluindo o garoto, por motivos óbvios, entre os outros 11, Barrichello vai se tornar o oitavo a pilotar um carro da Indy. Apenas José Carlos Pace, Chico Serra e Nelsinho Piquet não guiaram na categoria.

E o que isso tem a ver com o Rubens? Enquanto ele crescia e passava a se dedicar à F1, via os antigos ídolos – Emerson Fittipaldi, Nelsão Piquet e Ayrton Senna – darem uma chance ao automobilismo americano.

Ayrton Senna Indy
Ayrton Senna testou o carro da Penske, em 1992, para pressionar a McLaren

Aliás, Senna também só participou de um treino pela categoria. Foi no final do ano de 1992. O tricampeão não estava satisfeito com o desempenho da McLaren comparado ao da campeã Williams e cogitou a mudar de campeonato. Perto do Natal daquele ano, Ayrton guiou o carro da Penske em um circuito misto em Phoenix para conhecer o campeonato e dar uma pressionada no time de Ron Dennis.

O treino aconteceu como um convite de Emerson, que trabalhava junto com a Indy para colocar o maior número possível de campeões da F1 na categoria. Além dele próprio, Piquet, Mario Andretti e Nigel Mansell disputaram ao menos as 500 Milhas de Indianápolis. A ideia era que Senna fosse o quinto membro desse grupo, mas o brasileiro acabou permanecendo na McLaren.

Além de Senna, Emerson e Piquet, Barrichello também viu toda a geração de pilotos que o acompanhou nas categorias de base optarem pela Indy em algum momento da carreira.

Após o acidente fatal de Ayrton em San Marino, restaram na F1 apenas dois pilotos brasileiros: o próprio Rubens e Christian Fittipaldi. Este, como se sabe, acabou trocando o certame europeu pelo americano, onde competiria praticamente até o fim da carreira na Newman-Haas.

Na F3 Inglesa, Barrichello teve Gil de Ferran e André Ribeiro como adversários no título de 1991. Após alguns testes pela Footwork e uma cabeçada na porta do caminhão da equipe, Gil também seguiria para os Estados Unidos, onde foi bicampeão da Cart e venceu uma 500 Milhas de Indianápolis. André fez a mudança para o mercado americano antes e disputou quatro temporadas, correndo pela Tasman e pela Penske, conquistando três vitórias.

Gil de Ferran
Gil de Ferran deixou o automobilismo europeu para seguir carreira nos Estados Unidos

Só que enquanto essa geração optou por tentar os Estados Unidos, os novos pilotos brasileiros escolheram ignorar o mercado americano. Quem acabou correndo por lá não tinha opções muito melhores na carreira ou já estava decidido a crescer no mercado americano. Não é novidade que a Stock Car atraiu muito mais gente interessante que a Indy nas últimas temporadas.

Além disso, nos últimos anos, a Nascar ganhou o espaço que a Indy ocupava como alternativa para os pilotos. Nelsinho Piquet, por exemplo, outro dos campeões da F3 Inglesa, não titubeou na hora de optar pelo turismo americano.

E essa não é uma realidade apenas para os brasileiros. Antes de Barrichello, os últimos pilotos da F1 a terem feito a transição para a Indy foram Takuma Sato, Robert Doornbos, Enrique Bernoldi e Justin Wilson. Sendo que apenas Sato foi para a Indycar, todos os demais inicialmente buscaram correr na ChampCar, mas acabaram no outro certame após a união das categorias.

Entre eles pilotos citados, Sato foi o que teve maior relevância na F1. E ele só mudou para os Estados Unidos por conta da Honda, que era a fornecedora de motores.

Assim, caso Barrichello decida por fazer mais do que um teste na Indy, essa mudança de categoria só será possível porque o piloto conheceu o que o campeonato pôde oferecer de melhor ao longo dos últimos 20 anos. Acredito, portanto, que qualquer outro piloto da F1 nessa mesma situação acabaria considerando o DTM, o WEC, ou o GT1 como melhores opções. Vide Sébastien Buemi e Karun Chandhok praticamente fechados para correr o Mundial de Endurance.