Fabiano Machado
Fabiano Machado venceu 17 vezes em 2011. Mas muitas dessas vitórias podem ser contestadas pela qualidade duvidosa dos adversários

A temporada 2011 da F3 Sudamericana finalmente chegou ao fim. Não que alguém ainda tivesse acompanhando o que acontecia nas pistas, mas fica anunciado que acabou. Registro feito, podemos fazer outra coisa. Até o próximo post!

Opa, não é isso. O campeonato de 2011 foi um amontoado de erros que resultaram no fracasso da competição. O torneio começou no dia 26 de março, no Velopark, e terminou neste sábado, dia 17 de dezembro, em Campo Grande. A efeito de comparação, a F1 começou dia 27 de março e terminou em 27 de novembro. A F3 foi maior, portanto.

Não era intenção da organização fazer um calendário tão ruim, mas esse foi o resultado de uma série de mudanças ao longo do ano. Entre as etapas do Velopark e de Interlagos, houve um intervalo de quatro meses sem correr. Essa pausa, entre outros motivos, aconteceu para igualar o calendário da F3 com o do Brasileiro de Marcas. Assim, algumas corridas marcadas acabaram não acontecendo e tudo foi amontoado em sete rodadas ao longo de três meses e meio.

Depois, para piorar, a etapa de Londrina não ocorreu por conta das reformas na pista após o vexame durante a corrida da Stock Car, que o asfalto se soltava por conta do precário recapeamento, e no lugar entrou a corrida natalina de Campo Grande.

Qual o resultado desse calendário bagunçado? O total desinteresse pela categoria. Apenas dois pilotos que largaram no Velopark também correram em Campo Grande: Fabiano Machado, o campeão, e Ronaldo Freitas.

Os poucos bons nomes que o campeonato revelou passaram longe do Mato Grosso do Sul. Bruno Bonifácio e Guilherme Silva perceberam a furada que a F3 Sudamericana foi e se mandaram no meio da temporada. Enquanto o paulista esperou para garantir o título da divisão Light antes de se mudar para Itália, onde passou a competir na F-Abarth, Silva largou a F3 a tempo de garantir o título da F-Futuro. Muito mais lucrativo.

Agustin Canapino
Agustin Canapino, ídolo na Argentina, foi o primeiro sinal da chegada dos hermanos na F3

Entre os que sobraram na F3, Fabiano Machado correu sozinho. Foram 17 vitórias em 2011, mas a maioria delas contra ninguém. O piloto da Cesário teve dificuldades contra Bonifácio – em um carro da Light –, Fernando ‘Kid’ Resende e Agustin Canapino, que não deveria ter havido. Sem Silva e outro piloto que pudesse gerar disputa, o paulista deveria ter dominado as provas.

Para abusar um pouco mais dos números, de acordo com site Driver Database – que funciona de uma forma similar que a Wikipedia por isso não é 100% seguro – o australiano Caine Lobb venceu as mesmas 17 vezes em 2011. Foi o sétimo maior vencedor do ano. Fabiano Machado estaria nessa mesma colocação. Acima deles, apenas Scott Malvern, Sean Rayhall, Jason Johnson, Hayden Cooper, Craig Baird e Kyle Busch.

Nos treinos da World Series, o primeiro treino que há registro de tempo com o brasileiro foi no dia 9 de novembro, em Navarra. Machado marcou 1min32s395, enquanto Igor Salaquarda, o penúltimo, cravou 1min30s768. O paulista testou pela Tech 1 ao lado de Will Stevens, que obteve 1min30s757. Nesse treino, não é possível saber pelos registros se Machado testou o dia todo ou apenas durante a tarde, já que Steven andou somente de manhã.

No treino dos campeões, também da World Series, realizado no dia 28 de novembro, Machado foi melhor. Marcou 1min45s828 com o carro da Epic/Dams em Alcañiz. Foi 2s7 mais lento que o líder Richie Stanaway e apenas 1s pior que Felipe Nasr, companheiro de equipe na atividade.

Isso tudo prova que Fabiano Machado é ruim? Claro que não. Ele é só um parâmetro de exemplo. As explicações para esse fraco desempenho internacional passam pela bagunça que foi o calendário da F3 em 2011, pelo calendário do automobilismo brasileiro que não permite um jovem piloto a ir à Europa para testar regularmente na pós-temporada e pela falta de orientação que alguns atletas recebem ao terem a carreira queimada em dar passo maior que a perna, entre outras razões.

Ainda sobre estatística de 17 vitórias de Machado, ela fica um pouco melhor quando colocada no confronto direto com Guilherme Silva. Ambos correram juntos em 13 etapas. O mineiro venceu cinco, o paulista, sete. E outra foi de Leonardo de Souza. Aí sim um resultado bem mais equilibrado e que mostra a realidade do que esperar desses pilotos.

Para 2012, existe a possibilidade de a F3 se reerguer devido ao interesse dos argentinos na competição. Ao que tudo indica, a organização da Top Race deve abraçar o campeonato e inscrever alguns carros para pilotos nascidos por lá. Ao mesmo tempo, metade das etapas do campeonato deve ser disputada fora do Brasil, com uma corrida no Uruguai sendo bastante possível.

Isso pode resolver o problema da categoria em parte. Com um grid forte, acaba atraindo pilotos melhores preparados, que vão chegar à Europa em condição de brigar relativamente de igual para igual com garotos de outras nacionalidades.

Mas isso não é um milagre. Pelo contrário, os argentinos estão fazendo aquilo que acabou no Brasil: estão demonstrando interesse na categoria. Se ela vai servir para revelar para o mercado interno deles ou para tentar alçar pilotos de lá para Europa/Estados Unidos ainda não dá para saber.

Da mesma forma, ainda não dá para saber qual vai ser o futuro da F3 no Brasil. É possível ver o que foi no passado. Um campeonato que nos últimos cinco anos desandou por falta de interesse de pilotos e equipes, mas, principalmente, por erros de quem organiza e de quem deveria promover o esporte no Brasil.