Kurt Busch
Se falássemos em um Busch demitido há um mês, aposto que você imaginaria outra pessoa

A Penske anunciou nesta segunda-feira, dia 5, a rescisão de contrato de Kurt Busch. A equipe evitou falar em demissão e afirmou que foi um acordo amigável entre as partes.

Embora essa rescisão amigável possa ser questionada, a situação do piloto estava insustentável desde a etapa final da Nascar, em Homestead-Miami, quando Busch foi flagrado por um fã ao xingar membros da equipe e um repórter, após ter abandonado a corrida ainda nas voltas iniciais. O video caiu no YouTube, e a Shell, patrocinadora do piloto, não gostou nada do que viu.

Eu sou extremamente contra um investidor se aproveitar da posição que ocupa para forçar uma decisão fora da área comercial. Acredito que a única atitude que caiba a um patrocinador é definir se vai investir ou não na equipe. Ou seja, se não está feliz com os rumos dos acontecimentos, saia.

Só que esse não foi o caso de Kurt Busch. Não há muitas dúvidas de que a Shell pediu a cabeça do piloto após a polêmica em Homestead, mas, no caso, essa não foi uma decisão somente esportiva. Aliás, pelo contrário, a Penske e a Shell saíram perdendo com a rescisão de um ex-campeão.

O que pesou contra Busch foi a atitude incompatível com a conduta de um piloto. É lógico que é possível entender a frustração do americano após ter deixado a corrida, mas isso não dá legitimidade para sair falando o que quer e da maneira como quiser.

Até é normal dizer que um piloto não tem obrigação de ser legal sempre. Mas isso é mentira. Ele tem sim! Kurt Busch – e tantos outros – tem contrato de oito dígitos anuais. Ou seja, para ganhar esse dinheiro precisa, sim, seguir uma certa conduta. E não falo aqui sobre aquela padronização do comportamento dos pilotos imposta pela F1 e seguida por tantas outras categorias, o problema é ver que um salário anual de oito dígitos traz outras responsabilidades além de guiar um carro o mais rápido que puder.

O que Kurt Busch esqueceu é que o automobilismo é uma atividade que não gera nenhum produto, nenhuma riqueza para os países, salvo em condições muito específicas dentro das montadoras. Quem paga para que o esporte a motor aconteça são os fãs, que consomem os produtos dos anunciantes. Foram esses mesmos torcedores que acabaram desrespeitados quando o piloto se negou a falar com um repórter. Aí a Shell viu que não tinha como manter Kurt Busch, temendo represália nos negócios.

No outro extremo, de forma curiosa, o principal envolvido nesse cenário de que os pilotos precisem devolver de alguma forma aos fãs a possibilidade de viver essa vida de salário elevado e boa vida nas pistas é Brad Keselowski, ex-companheiro de Busch na Penske. Kese explicou que comemora as vitórias carregando a bandeira americana para homenagear as pessoas que trabalham duro enquanto ele ganha dinheiro para ‘apenas’ competir.

Não quero dizer que o trabalho de piloto seja pior que qualquer outro. Pelo contrario. Justamente por ser igual é que Kurt Busch – e qualquer outro atleta – precisa seguir um determinado comportamento.