Ninguém quer correr na GP3

GP3
A GP3 está a ponto de se tornar uma categoria fantasma! Mentira, essa foto é apenas a névoa que adiou os treinos em Barcelona por 30 mins

A GP3 está realizando nesta semana dois dias de treinos coletivos na pista de Barcelona, como início da preparação para a temporada 2012. Como já era esperado, a maioria dos participantes é formada por novatos desconhecidos, que estão dispostos a pagarem uma graninha para as equipes em troca da primeira experiência com esses carros.

O problema é que apenas 26 pilotos apareceram para treinar, sendo que há 30 carros disponíveis, já que cada uma das dez equipes é obrigada a inscrever três pilotos para o campeonato.

Além da falta de participantes, a qualidade de algum desses competidores pode ser discutida. A poderosa Lotus ART, por exemplo, trouxe o badalado Daniel Abt – vindo da F3 Euro Series –, promoveu Aaro Vainio – cuja carreira é gerida pelo mesmo grupo que controla a de Felipe Massa – e inscreveu Gregoire Demoustier. Caso você não faça ideia de quem é esse francês, eu conto.

Demoustier é um piloto que jamais venceu uma corrida e nunca teve destaque. Participou em 2011 da F-Renault ALPS (que corre na Itália e na Suíça), mas ficou longe de brigar pelo pódio. Antes disso, correu no GT francês. Em resumo, é o que foi o brasileiro Pedro Nunes nas últimas temporadas: alguém que está na poderosa equipe francesa por outro$ fatore$ além do talento.

Outro nome curioso na lista de inscritos é o da italiana Michela Cerruti, que participa das atividades pela Trident. Michela tem 24 anos e compete na Superstars Series, o principal campeonato de turismo italiano, onde venceu uma corrida em Monza correndo contra nomes como Johnny Herbert e Gianni Morbidelli, que tiveram passagem pela F1.

Ela é boa (heh, entenda como quiser), verdade, mas já passou da hora de correr pela GP3. A piloto pelo menos se tornou a primeira mulher a pilotar um carro da categoria.

O último exemplo insólito é do jovem Ethan Ringel, de apenas 17 anos. O americano competiu em 2011 de forma não-integral na F2000 CS e na F-Enterprise. Ou seja, não tinha como ser mais underground. Ainda que Ringel seja fã da Lotus, tenho minhas dúvidas se ele conseguiu uma das vagas da Atech para a atividade por conta do talento que tem.

Michela Cerruti
Michela Cerruti é uma boa pilota. Ela venceu uma corrida no campeonato italiano de turismo

Esses três servem como exemplo desses últimos treinos. Se voltarmos ao campeonato de 2011, vamos ver nomes como Thomas Hylkema, Ivan Lukashevich, Vittorio Ghirelli e Dominic Storey, que não tinham a menor condição de pilotar de forma competitiva na categoria. Ainda que o currículo desses quatro seja um pouco melhor que de Michela, Ringel e Demoustier, o resultado não foi tão diferente. Todos ficaram no fim da tabela.

Com quatro carros vagos e a qualidade discutível de alguns participantes, é possível dizer que o interesse dos pilotos pela GP3 é menor do que o imaginado pela própria categoria. Após dois anos, parece que o novo campeonato começa a enfrentar o mesmo problema que matou a F3 Euro Series: é muito caro inscrever uma equipe para perder da ART.

Assim, não é impossível dizer que a GP3 foi um fracasso – ao menos em relação às pretensões iniciais – e que nenhum piloto está interessado em correr por lá. Ou seja, o melhor para um piloto é evitar essa categoria, certo? Errado. Por pior que seja o cenário da GP3, essa ainda é a melhor opção para um jovem piloto justamente por conta da proximidade com a F1. Para quem quer avançar na carreira, uma hora ou outra precisa entrar no radar das grandes equipes da categoria principal, por isso, correr na preliminar é a maneira mais fácil.

Apesar disso, é preciso lembrar a capacidade que a GP3 tem de queimar carreiras. Por conta de grid bastante extenso, diferentes níveis de competitividade entre as equipes e calendário curto, muitos garotos não conseguem se destacar em tempo hábil. Só para citar alguns nomes, Felipe Guimarães, Michael Christensen, Gabby Chaves, Oliver Oakes e Renger Van Der Zande tiveram retrocessos enormes por não conseguirem se destacar na irmã menor da GP2.

Ethan Ringel
Ethan Ringel corria com as cores da Lotus na F-Enterprise e na F2000 CS. Alguém já tinha ouvido falar na F-Enterprise?

Quer dizer, os garotos não têm lá muita vontade de correr na GP3 pelos problemas citados acima, mas acabam sendo obrigados pela necessidade de aparecer para o paddock da F1. No entanto, caso não consigam causar uma boa impressão desde o início, acabam entrando na espiral da decadência e não só se queimam com o próprio paddock como também enfrentam dificuldades de retomar a carreira em outro lugar. Que lugar bacana não é mesmo?

Mesmo com essas críticas, a GP3 não é uma categoria ruim, mas precisa passar por alguns ajustes. A mudança de pontuação – em 2012 terá um sistema similar ao da F1 – já foi um começo, mas outros pontos ainda são bastante obscuros. Primeiro, o grid de 30 carros é um exagero, que mal consegue ser preenchido.

Falando nisso, tenho uma teoria bastante curiosa sobre esse número elevado de participantes. Sou do tipo de pessoa que acredita que a GP3, na realidade, é formada apenas por 20 pilotos ao invés de 30 que aparecem. São apenas dois por equipe, portanto. A outra vaga de cada time serve para algum jovem pagante que ajuda a equilibrar as contas no fim do mês e que ninguém está preocupado com o resultado nas pistas. Lembra da ART com Abt, Vainio e Demoustier? Então…

Se na teoria já são apenas 20 participantes, não parece algo ruim cortar dez desses carros e fazer um campeonato mais enxuto e com maiores oportunidades de visibilidade para cada piloto.

A outra mudança é quanto à desnecessária regra do grid invertido. Até 2011, os oito primeiros colocados da primeira corrida somavam pontos e largavam de forma invertida na segunda prova, onde apenas seis pontuavam. Ou seja, era praticamente impossível que um piloto que tivesse problemas mecânicos durante a classificação somasse ponto no final de semana. Como alternativa, além da diminuição do grid e a alteração no sistema de pontuação, sugiro acabar com essa regra.

A segunda corrida, portanto, passaria a ter um treino classificatório assim como a primeira, determinando as posições do grid de largada. Pode parecer algo chato, afinal o grid invertido foi criado justamente quando Lewis Hamilton dominou o campeonato da F3 Euro Series, em 2005, ao obter a pole-position para 13 das 20 corridas e vencer somente 15, mas em se tratando no desenvolvimento de um jovem piloto – que pode estar recebendo a primeira oportunidade em um carro com maior carga aerodinâmica – a aprendizagem deveria vir em primeiro lugar, antes do show.

A GP3 não é a melhor categoria do mundo e, como todas as outras, tem inúmeras falhas. Apesar disso, não se pode ignorar e a importância da categoria no cenário internacional dos campeonatos de base.

4 comentários sobre “Ninguém quer correr na GP3

  1. por um lado concordo. mas por outro não. É verdade que as GP3 queimaram algumas carreiras promissoras, mas as GP2 também já o fizeram. Olhe-se o exemplo do português Álvaro Parente, vindo de títulos na F3 Britânica e nas World Series by Renault, chegou às GP2 Series e não conseguiu ter uma equipa para fazer melhor do que 8º no final dos seus 3 campeonatos.
    O bom das GP3 Series é que há equipas como a ART, Arden, Trident ou Carlin, que podem usar o campeonato para preparar melhor os seus pilotos para a ascensão às GP2, além de terem bons contactos na F1. Fora disso, talvez de destacar a Manor Racing e as suas ligações à Marussia Virgin F1 ou a Status GP…mas o problema em si não é do campeonato, é dos pilotos…muitos preferem o caminho Fórmula Renault 2.0/F3 Britânica – World Series by Renault – GP2 – F1, não passando pelas GP3…marcas de apoio a jovens pilotos, como a Red Bull, parecem mesmo “contra” colocarem pilotos nas GP3 e GP2 Series…

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  2. Eu vou advogar pelo diabo novamente.

    Pré-temporada é uma merda. A lista de inscritos dos testes de Barcelona na GP3 não me surpreendeu por um motivo: nessa época do ano, os donos de equipe só estão interessados no dinheiro dos Demoustiers da vida. Na GP2, ocorre o mesmo. O Julian Leal testou pela Addax em Jerez, mas até a barata da vizinha sabe que o colombiano não vai correr lá e que o teste só serviu para colocar algum no bolso do Alejandro Agag.

    Portanto, a gente só vai saber se a GP3 está tão desinteressante assim em março ou abril, quando as equipes começarem a definir suas duplas. Até lá, o negócio é tirar dinheiro dos otários.

    Quanto ao tamanho do grid X domínio da ART, a F3 Euroseries sofria do mesmíssimo problema. Houve ano em que a categoria registrou grids que ultrapassavam os 30 carros, mas só ganhava quem corria na ART. E várias carreiras boas acabaram sucumbindo aí, como acontece em várias categorias.

    Acho que a GP3 está fazendo o caminho certo. É mais organizadinha, limpinha e comercialmente interessante do que qualquer Fórmula 3. Precisa, sim, de mais corridas. Umas standalones em Zandvoort, Paul Ricard ou Valência em conjunto com a GP2 não faria mal.

    PS: Sobre o Gregoire Demoustier, esse vídeo aqui diz tudo sobre seu talento: http://www.youtube.com/watch?v=cQARExz9b7o

    A cara do sujeito é uma bizarrice à parte: http://www.madeinmotorsport.com/photos/andros/2010/actu/andros-20101203203610-6510.jpg
    E, assim, Sébastien Bourdais deixa de ser o piloto mais nerd da França.

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  3. Já que falou da F-Renault ALPS, podia falar também o que são as F2000 CS e F-Enterprise. Sem muito esforço contei, dias atrás, 18 categorias na Europa, e não tenho certeza se passei da metade…

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  4. Ótimo post!
    Realmente a GP3 tá deixando a desejar. Os pilotos entram como se fossem resolver a vida e saem correndo de lá, os que não vão pra GP2, insatisfeitos.
    Nem na ART tá fácil pra ninguém, viu? Uma que não entendi: Bottas vence o campeonato e a ART sobe o Calado??? Vencer o campeonato pra que, então?
    Espero que continuem com as mudanças, pra aproximar a categoria da F1, porque pelo bem ou pelo mal, aproxima os meninos ao menos da rotina da F1.
    Sobre a inscrição de 3 carros por equipe, também acho um volume desnecessário, e acaba sendo prejudicial para todos.

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