O retorno da Campos Racing

Adrien Tambay
Adrien Tambay conquistou a primeira vitória da Campos desde o fracasso na F1

Para muita gente, a equipe Campos ficou conhecida como aquela com quem Bruno Senna assinou, mas não correu na F1 em 2010. O time liderado pelo ex-piloto Adrián Campos, vindo da GP2, não conseguiu fechar o orçamento necessário para correr na categoria principal, e o dirigente foi obrigado a vender a equipe para o sócio, Ramon Carabante, que a rebatizou como Hispania.

A partir daí, Campos entrou no ostracismo do automobilismo, mas sempre de olho em uma possível volta. O espanhol passou o restante da temporada 2010 estudando em quais categorias poderia participar neste ano, enquanto o mal-nascido time de F1 se arrastava (e ainda se arrasta) pelas últimas colocações.

Essa triste história da participação do time espanhol na F1 não corresponde à realidade vitoriosa enfrentada pelo time em toda a história. Tão logo deixou as pistas em 1997, Adrián Campos fundou a Campos Motorsport para correr na Open Fortuna by Nissan (que hoje é a World Series by Renault, mas na época tinha uma importância menor que uma F3).

Em 1998, no ano de estreia na categoria, Campos inscreveu carros para os espanhóis Marc Gené e Antonio García (este apoiado pela Red Bull), com o primeiro conquistando o título no final do ano. Na temporada seguinte, Gené foi para a Minardi, na F1, sendo substituído por um kartista de muito talento chamado Fernando Alonso.

O atual piloto da Ferrari repetiu a conquista de Gené, em 1999, enquanto García finalmente levantou o título no ano seguinte. Nas três primeiras temporadas, além dos triunfos dos pilotos, a equipe espanhola conquistou o título em todas as oportunidades. A Campos permaneceu na categoria até 2003, mas sem voltar a levantar a taça. No entanto, vale lembrar que a partir dos anos 2000, o campeonato se tornou a World Series by Renault que conhecemos até hoje e até mesmo ambicionou fazer frente à F1. Essa evolução evidentemente aumentou o custo para competir.

Fernando Alonso Campos
Fernando Alonso competiu pela Campos quando a World Series by Renault ainda era uma F-Renault, mas sem Renault

Em 2004, a Campos começou a inscrever carros na F3 Espanhola, mas foi com o advento da GP2, no ano seguinte, que ela passou a ter destaque. Nas duas primeiras temporadas, porém, o desempenho foi bastante ruim, com um penúltimo e um último lugar na classificação de equipes. Nesses anos, os espanhóis Sergio Hernández, Adrián Vallés e Félix Porteiro, além do argentino Juan Cruz Álvarez competiram pelo time.

Os fracos resultados fizeram com que Adrián decidisse mudar o rumo da equipe. Como qualquer dirigente, o espanhol sabia que a equipe, até então financiada pelo governo espanhol e patrocinadores locais, precisava de dinheiro para expandir. Então, em 2007, o dirigente assinou com o russo Vitaly Petrov, que se mostraria bastante promissor, mas cuja família é dona de uma generosa conta bancária. O outro piloto escolhido foi já experientíssimo Giorgio Pantano, que teria como objetivo acertar o carro.

A tática deu certo. O time terminou em terceiro no campeonato, com Pantano vencendo duas vezes e Petrov, uma. O italiano também foi o terceiro na tabela de pontos.

Lucas Di Grassi Campos
Barwa, Addax, Santander. A Campos virou uma equipe rica e vitoriosa na GP2

Não é exagero dizer que 2007 foi o embrião para que a história da Campos, da Addax e da GP2 começasse a mudar no ano seguinte. Para 2008, Adrián resolveu seguir a mesma receita da temporada anterior: muito dinheiro. Petrov ficou na equipe, enquanto as principais mudanças aconteceram no lado comercial. Os patrocínios espanhóis deram lugar a um acordo com a Barwa, uma espécie de EBX do Qatar. Essa negociação fez com que a Campos se tornasse a primeira equipe com title sponsor na GP2 não ligado a nenhum piloto. Outra transação de destaque foi a assinatura de contrato com Alejandro Agag, dono da Addax, um dos homens de negócio de maior importância no continente ibérico.

O problema de 2008 ficou no lado competitivo. Embora Petrov tenha demonstrado uma evolução satisfatória, Pantano deixou a equipe para correr pela Racing Engineering. No lugar, o time trouxe o inglês Ben Hanley, que chegou a fazer parte do programa de jovens pilotos da Renault.

Após seis corridas, Hanley não agradou e foi substituído por Lucas Di Grassi, que fez uma temporada fantástica e mesmo com seis corridas a menos chegou a disputar o título ao obter três vitórias ao longo da temporada. Essa relação entre Campos e Renault Driver Development fez a equipe espanhola ser considerada uma espécie de time júnior da montadora fracesa, embora em caráter não oficial. Além de Hanley e Di Grassi, Romain Grosejan, Davide Valsecchi, Charles Pic e Giedo van der Garde foram os outros membros do RDD, que passaram pela Campos ou pela Addax, a sucessora.

Digo sucessora porque ao final de 2008, Adrián Campos vendeu a equipe a Alejandro Agag para se dedicar à F1. A história conta que a equipe fracassou na F1 e Campos precisou vendê-la antes da estreia para Carabante. Agag segue na GP2, onde conquistou o título de equipes neste ano apostando em Pic e Van der Garde, ou seja, mantendo as diretrizes tradicionais que deram certo nos últimos anos.

Após um ano no retiro, Adrián Campos voltou ao automobilismo em 2011. O espanhol inscreveu a Campos na AutoGP, dizendo que não queria mais fazer parte do mundo das categorias de acesso à F1 (embora a AutoGP faça, visto que premia pilotos com testes na GP2), e no turismo italiano. Para a atual temporada, além de inscrever um carro para o filho – que viria a perder algumas etapas em decorrência de um forte acidente – o time originalmente contaria com Marco Barba e Bruno Mendéz, ambos espanhóis com sucesso na F3 local.

Aí a história da GP2 se repetiu. O time foi muito mal no início do ano, com Mendéz obtendo o melhor resultado da equipe ao terminar em terceiro a segunda corrida em Hungaroring, disputada com o grid invertido. O que Adrián Campos fez? Colocou em prática os mesmos preceitos do sucesso na GP2. Com a situação econômica relativamente estabelecida, o dirigente promoveu as estreias dos experientes Adam Carroll e Adrien Tambay, que acumularam seis pódios e duas pole-position nas últimas oito corridas.

O time fechou o ano em alta ao vencer as duas corridas da etapa de Mugello, a última de 2011, com vitórias em ambas as corridas. Aliás, tanto o triunfo de Tambay na prova longa quanto o de Carroll na prova curta foram de ponta a ponta, demonstrando o bom momento do time espanhol. A arrancada final fez com que a Campos terminasse o ano com o vice-campeonato perdendo somente para a Dams.

Embora Adrián Campos tenha dito que o retorno ao automobilismo não tem a ver com a formação de jovens pilotos, é inegável que o time espanhol está, sim, desempenhando essa tarefa. Tambay, por exemplo, termina 2011 valorizado e não seria surpresa se ele aparecesse na GP3 na próxima temporada. As vagas da equipe espanhola, por sua vez, passam a ser cobiçadas, já que envolve um staff que provou ser competente por onde quer que passou e não tem a pressão que a Dams sofre para colocar os pilotos da Gravity.

Aos poucos, Adrián Campos vai se recuperando do fracasso na tentativa de chegar à F1 e, ironicamente, volta a se mostrar um especialista em como levar jovens pilotos para a categoria máxima.

4 comentários sobre “O retorno da Campos Racing

  1. Felipe, por acaso o Adrian Tambay tem algum parentesco com o Patrick Tambay, que (se não me engano) correu de Ligier nos anos 80?

    Curtir

  2. O Alejandro Agag é muitíssimo bem relacionado. É amigão do Flavio Briatore (isso, de certa forma, explica a presença do patrocinador Pepe Jeans nos carros da Barwa Addax) e, se não me engano, tem um ótimo relacionamento com o primeiro-ministro José Zapatero.

    A Barwa Addax me parece a única equipe da GP2 que tem possibilidade de expandir suas operações para se transformar em uma equipe de Fórmula 1. Mais até do que sua predecessora Campos Grand Prix ou a ART Grand Prix.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s