Danica Patrick
Uma semana depois de acertar Brad Keselowski, Danica Patrick chamou os pilotos brasileiros de batedores

Às vésperas de mudar definitivamente para a Nascar, Danica Patrick declarou guerra aos pilotos brasileiros. Em uma entrevista à agência AP – que eu recomendo que você leia na íntegra clicando aqui antes de ver os meus argumentos –, a americana disse que os atletas nascidos por aqui são inconsequentes ao volante.

“Pode parecer estranho, mas eu diria que estou ficando mais agressiva na pista conforme vou envelhecendo. Será que isso é estranho? Eu não comecei na Nascar como um piloto brasileiro, que sobe no carro, grita ‘Whoooo’, sai batendo em todo mundo e só percebe o que aconteceu depois”, disse a ainda piloto da Andretti.

Apesar de escolher mal as palavras, a declaração de Danica não foi sobre Miguel Paludo nem sobre Beto Monteiro tampouco tinha como alvo Pietro Fittipaldi. Também não era sobre Tony Kanaan, Helio Castroneves, Vitor Meira ou Bia Figueiredo. A americana falava sobre Nelsinho Piquet.

Tanto o ex-piloto da Renault quanto Danica estrearam no turismo americano na mesma corrida: a etapa da ARCA em Daytona, realizada no início de 2010 – você pode clicar aqui e relembrar como foi (tem até um vídeo). Na prova, Nelsinho não foi bem e se envolveu em uma série de acidentes, incluindo um toque justamente na adversária. Danica, porém, salvou o carro e terminou na sexta colocação ao ultrapassar Ricky Carmichael já na entrada do tri-oval.

Danica Patrick e Nelsinho Piquet ARCA
Danica Patrick e Nelsinho Piquet se estranharam na ARCA pela primeira vez

Voltando à entrevista, é possível compreender porque a piloto possa considerar Piquet como um desafeto. Ainda assim, chama a atenção esse ataque cerca de um ano e meio depois, levando em conta o histórico dela de ser companheira de Tony Kanaan por tantos anos, além de colega de profissão de Helio Castroneves e tantos outros.

Por isso mesmo, alguns elementos na fala de Danica não estão claros. O primeiro deles é o contexto em que ela cita os brasileiros. O assunto acabou ali? A frase foi editada? O dito foi colocado ali só para causar mais impacto? Ela citava todos os brasileiros ou realmente tinha endereço certo? Nada disso é possível afirmar com certeza.

Em um segundo momento, ela foi extremamente infeliz na escolha das palavras. Isto é, independente das respostas paras as perguntas acima, Danica disse que os brasileiros têm fama de inconsequentes e batedores. Se ela queria falar de Nelsinho, de Rapha Matos ou de Helio Castroneves, deveria ter citado quem é o problema. Sem especificar, ela esquece que trabalhou meia década com Tony Kanaan, na mesma equipe, e quase toda semana encontra Helio, Vitor Meira e/ou Bia.

Ainda que Danica tenha realmente criticado Nelsinho, ela foi bastante irresponsável não só em ter escondido o nome do desafeto como também de ter guardado todas as reclamações até agora. Na entrevista, a americana diz que foi paciente e respeitosa com os adversários, ao contrário dos brasileiros. No entanto, ela esquece que na etapa de Richmond da Nationwide, realizada na última sexta-feira, dia 9, ela própria se envolveu em um acidente com o atual campeão Brad Keselowski.

O piloto da Penske poderia ter saído do carro e falado que ao contrário de quem vem da Indy ele não saia batendo em qualquer um no começo da carreira, era paciente e respeitoso. Apesar disso, ele fez o contrário. É verdade que Brad colocou a culpa na americana, mas disse que não poderia ficar chateado ao ter sido alvo da batida, já que a Nationwide é considerada uma categoria-escola, onde os pilotos estão aprendendo. Portanto, os pilotos da Sprint sabem do risco que correm ao descer para correrem com o bando de jovens.

Ora, tanto Piquet quanto Danica eram novatos na etapa da ARCA. Ao contrário dela, ele fazia a primeira corrida da carreira em um oval. Se a ainda piloto da Andretti foi compreendida por Keselowski, não caberia a ela ter feito o mesmo em relação ao brasileiro?

Danica Patrick
Danica Patrick salvou o carro na estreia em Daytona, mas não as palavras

Por mais negativa que tenha sido a repercussão da entrevista, não acredito que Danica tenha destilado xenofobia nas palavras. Acho que faz mais sentido enxergar o acontecido como mais um episódio em que a piloto escolheu mal as palavras e não conseguiu montar uma frase com aquilo que queria dizer. Basta ver, por exemplo, a entrevista da americana sobre a etapa de Motegi.

Na ocasião, Danica disse que não queria correr no Japão por conta da comida japonesa. Pela estrutura da frase “The radiation seems like it’s OK, but I’m concerned about the food, to be honest.”, parece que ela não gosta de sushi, mas depois ela explicou ter lido algumas reportagens e recomendações que pedem que as pessoas evitem comer carne vinda da região de Fukushima. Ainda nessa mesma entrevista ela fala dos perigos dos fenômenos naturais em território nipônico, mas se esquece que às vésperas da corrida Baltimore a Costa Leste americana foi alvo de terremoto e furacão.

Com dois relativos foras em tão pouco tempo, parece que Danica não tem noção da repercussão que as coisas que ela fala têm. Se você vai ao bar e fala com um amigo sobre não se comportar feito um piloto brasileiro, no máximo ele pode perguntar o que você quer dizer com aquilo caso não opte apenas por virar outro copo. Mas usar essa frase em uma entrevista com uma agência de notícias internacional é óbvio que não poderia sair coisa boa.