O basquete do Brasil. E o automobilismo do Brasil

Nelson Piquet
Título no basquete e na F1 juntos? Difícil hein..

No final da década de 1980 e início da década de 1990, a Seleção Brasileira de futebol era um traste parecido com a atual. Com o futebol empolgando tão pouco, o cidadão brasileiro arrumou tempo para outras coisas. Sem nada para fazer aos domingos, já que ligando a TV só se via perna de pau, muita gente decidiu optar por outros passatempos. As principais opções eram: sair às ruas para derrubar a ditadura, escrever uma nova Constituição, escolher a nova garota fantástica ou praticar outros esportes.

Não por coincidência, em 1987 o Brasil foi campeão pan-americano no basquete ao derrotar os Estados Unidos em Indianápolis, naquele time que tinha Oscar Schmidt, e venceu a F1 com Nelson Piquet. Depois disso, os dois esportes foram mergulhando em crise profunda (o automobilismo durou mais por conta de Senna, obviamente) e, principalmente por disputas políticas das entidades que os regem, nunca mais ganhou-se nada.

Mas tudo mudou em 2011. É verdade que o Brasil segue sem ganhar nada, mas o cenário dessas modalidades começa a melhorar. Caso você não saiba, neste sábado, dia 10, a seleção de basquete encerrou um jejum que durava desde a última era glacial e conquistou a vaga para as Olimpíadas de Sydney Atenas Beijing Londres, que será disputada no ano que vem.

Vaga olímpica não é título, mas para quem ficou tanto tempo sem conquistar nada valeu o prêmio. Participar dos jogos deixa o Brasil como um dos protagonistas do basquete mundial. Ao contrário da Copa do Mundo de futebol que, devido a 32 vagas, toda edição acaba tendo times fraquíssimos como Arábia, Nova Zelândia, China e Trinindad e Tobago e os mesmos times de sempre ganham, na disputa do basquete olímpico a América só tem direito a duas vagas.

Aí entra o problema, uma das vagas é dos Estados Unidos. A outra é disputada entre o continente inteiro. O único atalho é que o campeão do mundial se classifica direto para os Jogos, então os americanos podem ocupar esse posto. No restante, Argentina, Brasil, Uruguai, Porto Rico, Canadá e República Dominicana, entre outros, se degladiam pelo que sobrou.

Por isso que falo que é protagonista. Passar por uma disputa com essas seleções só é fácil se você estiver num patamar acima delas. A Argentina está. O Brasil mostrou que também tem vaga nesse grupo de cima. O que, aliás, não deveria ser nenhuma se levando em conta fatores históricos, econômicos e geográficos. Como esses aspectos não entram em quadra, a seleção brasileira perdeu durante anos a fio.

No automobilismo, a situação não é tão diferente. Depois de Senna, ou os pilotos brasileiros venceram na Indy (e em Indy), ou triunfaram no Japão. Na F1, que todo mundo acompanha, Rubens Barrichello não teve chance alguma tendo Michael Schumacher como companheiro de equipe e Felipe Massa teve uma chance e depois descobriu que Fernando era mais rápido.

Enquanto os dois tentavam algo na F1, o número de pilotos brasileiros que tentava a sorte na Europa foi diminuindo gradativamente ao mesmo tempo em que o investimento no esporte a motor foi cessando. Nas categorias de base, o número de títulos despencou e aquela preferências das equipes por jovens nascidos por aqui ficou restrita somente a alguns times italianos e ingleses devido à ascensão de outros países.

Bruno Senna
Se Bruno Senna se estabilizar na F1, o automobilismo brasileiro ganha novo fôlego

Se fosse para delimitar um momento como a virada no automobilismo, escolheria o título de Felipe Nasr na F-BMW, em 2009. Não que ele signifique muita coisa, mas as grandes equipes voltaram a perceber os pilotos brasileiros. Sem nenhuma relação com esse título, Cesar Ramos venceu a F3 Italiana no ano passado, JP de Oliveira, a F-Nippon e Victor Carbone, a F2000. Fora o quase vice-campeonato de Rafael Suzuki na F3 Japonesa e, em 2011, os brasileiros brigando pelo título da F3 Espanhola, sendo que Fabio Gamberini deve levar na Light, além, claro da F3 Inglesa. No Japão, JP de Oliveira segue protagonista tanto no SuperGT quando na F-Nippon e nos EUA, Tony Kanaan é um dos destaques da temporada da Indy, e JV Horto fez um bom ano na Star Mazda. Isso sem falar de Augusto Farfus sendo o primeiro brasileiro no DTM, ou a carreira vencedora de Jaime Melo.

Só que é importante destacar que, assim como no basquete, esse momento não significa muita coisa. Nos anos anteriores, Nelsinho Piquet e Rapha Matos triunfaram na Europa e nos EUA, enquanto os brasileiros seguiam com bons resultados na Inglaterra, na Itália e na GP2.

Não há grandes diferenças entre essa geração que não se estabeleceu na F1 recentemente (Piquet, Di Grassi, Luiz Razia, Diego Nunes, Alberto Valério, Xandinho Negrão e Sérgio Jimenez) para a essa que destaquei acima. Talvez na comparação a anterior seja até melhor. Só que eles não tiveram o destaque que a atual tem, justamente pela carência de ídolos no esporte e na necessidade de procurar na base alguém para poder torcer.

Esse momento um pouco melhor do automobilismo reflete na F1. Nos últimos anos, citar a apocalíptica previsão de não ter mais brasileiro na categoria virou clichê. A situação ainda é horrível e em termos estruturais nada mudou, mas o cenário é melhor desde a chegada de Bruno Senna. Ainda que ele só tenha vaga até o final do ano e lidando com a sombra de Romain Grosjean, o sobrinho chegou na categoria apenas com o dinheiro de Eike Batista e da Gillette. Supondo que ele fique mais alguns anos, dá tempo de toda aquela geração que eu citei acima tentar chegar à categoria máxima.

E foi mais ou menos isso que aconteceu no basquete. Para chegar às Olimpíadas, o treinador da seleção não pôde contar com alguns atletas da NBA, que não querem mais jogar pelo Brasil. Aí ele convocou um cara chamado Rafael Hettsheimer. Metade do país não sabe que ele existe, enquanto a outra metade não sabe falar o nome (eu copiei do Google), mas ele destruiu a Argentina e Porto Rico, deixando um caminho mais fácil na busca pela vaga olímpica.

Sem os ausentes ídolos, a seleção precisou buscar alguém debaixo (curioso falar isso sobre basquete, baixo, ahn ahn) para motivar a torcida e nisso apareceu Hettsheimer. Ao mesmo tempo, cansados de Massa e Barrichello, Felipe Nasr começou a ganhar destaque por aqui. (e NARS todo mundo acerta..)

A verdade é que tanto no basquete quanto no automobilismo o Brasil ainda tá mal. Segue sem garantias de ter piloto na F1 em um futuro próximo assim como os atletas olímpicos continuam sem títulos. Mas o cenário está melhorando isso que pode nos deixar otimistas. Incrível o que conseguimos fazer quando a Seleção de futebol está ruim, não é verdade?

7 comentários sobre “O basquete do Brasil. E o automobilismo do Brasil

  1. Parabéns pela análise. Também acho que temos razões para sermos otimistas na Formula 1 para o futuro próximo. E acredito que o Piquet só não se firmou por causa da besteira de Singapura mesmo. Abraço.

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  2. Ótimo texto!! Só um detalhe, “Nars” não parece ser tão simples… já ouvi diversas vezes esta combinação de letras cantada como ‘nasser’…
    P.S.: que as estrelas da NBA fiquem por lá e que o futebol continue afundando. Tem muita gente de valor e com talento que merece mais atenção que estes senhores…

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      1. Tá vendo como não é tão simples… hehehehe
        Eu achava que o ‘r’ final era ignorado….
        Não vou mais reclamar dos narradores e comentaristas…

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  3. Vaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii Brunooooooo, nossa última esperança para os próximos 10 anos….. ou é Bruno Senna, ou podem esperar sentados o próximo titulo

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  4. Brilhante sua analise Felipe, só acrescentaria que na verdade os pilotos brasieiros ficaram “”velhos”” – não necessariamente naidade mas sim na pilotagem….Ver hoje Barrichello, Massa, Castroneves, Vitor Meira dá vontade de mudar de canal…desde 1970 não fomos tão insignificamente representados….Aquela batida entre Massa e Weber, sem analisar produndamente, até porque eu nãoestava lá, deu pra ver dois pilotos infinitamente inferiores que seus companheiros, que venha Nasr na 1 e quem sabe Oliveira na Indy…o resto, viva o basquete brasileiro, a muitos anos não vejo tanta garra de um time brasileiro (exceto é claro o voley)

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