F1 contra os aspones

Nico Hulkenberg
Com a efetivação de Daniel Ricciardo, Nico Hulkenberg é o único piloto reserva que treina na F1

A FIA está trabalhando intensamente para eliminar a função de aspone na F1. Caso você não faça ideia do que estou falando, essa é a vaga de piloto reserva ou piloto de testes – como quiser chamar – que, caso você não faça parte da Force India ou da Toro Rosso, sua tarefa é somente viajar a lugares como Mônaco e Cingapura, enquanto finge que participa atentamente de reuniões de avaliação da telemetria.

Depois de anunciar o retorno dos testes no meio da temporada – com uma única sessão em Mugello –, a entidade quer transformar os dois treinos livres de 1h30 em três atividades de 1h às sextas-feiras de GP. Em uma delas, apenas novatos e pilotos reservas poderiam participar.

A medida é positiva por dois bons motivos. O primeiro, óbvio, dá quilometragem a jovens pilotos na F1, o que acaba forçando a renovação do grid da categoria.

Entre 2004 e 2006 a categoria teve uma regra similar, que permitia às equipes que não terminaram a temporada anterior nas quatro primeiras colocações inscrever um carro extra para os treinos livres de sexta-feira. Nessa época, Anthony Davidson, Timo Glock, Robert Doornbos, Vitantonio Liuzzi, Scott Speed, Sakon Yamamoto, Franck Montagny, Robert Kubica, Sebastian Vettel, Markus Winkelhock e Adrian Sutil primeiro tiveram oportunidades nos treinos livres antes de conseguir uma vaga de titular na F1.

Embora a lista acima tenha alguns pagantes, muita gente impressionou na pista e por isso ganhou a vaga de titular da respectiva equipe. Kubica e Vettel, evidentemente, são os melhores exemplos, embora Glock, Doornbos e Davidson não tenham decepcionado nessa primeira oportunidade.

Sebastian Vettel
Sebastian Vettel chamou a atenção da F1 durante os treinos livres pré-GPs

O segundo motivo é acabar com o marasmo dos treinos livres da F1. Caso você seja como eu e só acompanha os treinos livres do GP da Austrália porque abrem a temporada e acontecem no início da noite da quinta-feira, saiba que isso é exceção. No primeiro GP do ano, as equipes querem usar o maior tempo possível da pista para fazer as últimas verificações no carro, além de trabalhar um ou outro novo componente desenvolvido entre o final da pré-temporada e o início do campeonato. No restante do ano, naqueles treinos que começam às 4h da manhã aqui no Brasil, ninguém vai à pista nos primeiros 50 minutos. Ok, exagerei um pouco, mas é assim que normalmente acontece.

Por outro lado, há quem discuta se a sexta-feira é o melhor dia para os novatos irem à pista. Como as equipes estão se preparando para a corrida do domingo, as equipes podem exigir que os reservas cumpram o programa de verificação de componentes – como pneus, e atualizações – nesse tempo de pista. Algo típico para um treino livre. O problema é que essas tarefas podem causar ruído em termos de desempenho.

No treino dos novatos de 2010, por exemplo, Jules Bianchi, com a Ferrari, terminou o primeiro dia de atividades atrás do carro da Hispania. Algo completamente surreal. É óbvio, claro, que o francês estava em uma configuração diferente de acerto, que não visava exclusivamente o tempo de volta. Aí algum novato pode se aproveitar para fazer voltas com pouco combustível e pneus macios – chamando a atenção de todos – enquanto as demais equipes se concentram em fazer acertos no equipamento.

A alternativa seria realizar esse treino na segunda-feira, após o GP, aproveitando que toda a logística da F1 já está instalada na pista. No entanto, é muito mais barato realizar o treino na sexta-feira que alugar todo o espaço do autódromo, manter circuitos de rua montados e pagar hospedagem para toda a equipe por mais um dia.

Embora o formato dos treinos ainda não esteja definido, a FIA sabe que precisa revitalizar a função do piloto reserva. Nesses anos sem treinos, (e sem contar a Toro Rosso) a média de idade do grid da F1 aumentou consideravelmente com a presença de piloto cada vez mais experientes como Pedro de la Rosa, Michael Schumacher, Rubens Barrichello, Jarno Trulli e Nick Heidfeld.

Assim, sem renovação, os jovens pilotos acabavam se acotovelando em funções aspônicas ou em trabalhos como piloto da Pirelli, que, embora seja uma vaga rica para o currículo dos atletas, não é o sonho de ninguém. Se essas promessas não se firmam na categoria, a F1 ainda não chega a temer uma possível concorrência de outros certames, mas nunca é ruim lembrar que a Indy está em crescimento, a Nascar está cada vez mais atrativa e as categorias de turismo e endurance tanto regionais como mundiais ganham cada vez mais espaço.

Um comentário sobre “F1 contra os aspones

  1. Legal a palavra que você utilizou, Felipe, “aspone”. Também concordo com a ideia de que novas figurinhas apareçam nos treinos de sexta-feira, mas é certo que as equipes não querem “perder” tempo no desenvolvimento das peças para a classificação e a corrida. Então, eu concordo que podem aparecer alguns resultados surreais, como sempre aparecem nas sextas-feiras da F1. Mas será que os “happy hours” no final de cada treino para marcar o melhor tempo não ajudariam os pilotos novatos, não?
    Parabéns pela Blog!

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