Bruno Bonifácio
Bruno Bonifácio, coitado, corre sozinho na F3 Sudam Light em 2011 e perdeu neste sábado

Eu sou radicalmente contra qualquer categoria de acesso que tenha uma divisão menor correndo junto. A National Class da F3 Inglesa, a Copa Caixa da F3 Espanhola e a Light da F3 Sudamericana são bons exemplos desses campeonatos os quais abomino.

A maioria desses torneio foi criada anos atrás no que é chamada ‘win or win situation’, ou, em português, algo que era bom para todos. Com uma divisão menor usando carros obsoletos, os equipamentos ganharam mais tempo de vida útil, então as equipes tiveram um prejuízo menor na hora de ter que trocar de substituir os carros.

Do lado dos pilotos, eles também foram bastante beneficiados. Essas categorias foram criadas para consertar deficiências na formação de um atleta. Isto é, nas décadas passadas em locais mais distantes como a Ásia, a América Central e o Leste Europeu, principal, os pilotos não tinham como fazer aquelas fases da carreira (F-Renault ou afins, F3, F3000/GP2, F1) da maneira correta. Por mais que houvesse pequenas competições nesses locais, o pulo para uma F3 Inglesa, por exemplo, era muito grande, então por isso a National Class servia para absorver esses pilotos. Não por acaso os principais nomes dessa divisão inglesa foram Sergio Pérez, Karun Chandhok, EJ Viso e Salvador Duran.

Claro que o custo baixo também atraiu ingleses sem famílias com grandes recursos, por isso tivemos Gary Paffett, Robbie Kerr e Adam Carroll. Mas o fato de eles mal terem conseguido pagar a carreira depois de saírem da F3 explica muita coisa. Paffett, por exemplo, corre no DTM porque a Mercedes o descobriu a tempo. Carroll, por outro lado, salvo a A1GP jamais conseguiu se estabilizar. De qualquer forma, como eu disse, uma situação boa para todos.

No entanto, o mundo mudou bastante nesses últimos 20 anos. Esses locais antes distantes se tornaram razoavelmente prósperos economicamente e, para você ter ideia, na Ásia chamam esses países recentemente fortalecidos de Novos Tigres Asiáticos, que tem a Malásia como melhor exemplo no mundo do automobilismo (Alex Yoong que o diga). Aí as montadoras ficaram interessadas na expansão desses mercados, resolveram criar categorias por lá como a F-Renault, a F-BMW e os pilotos passaram a chegar melhor preparados na Europa. Jazeman Jaafar e Rio Haryanto estão aí para provar o que eu estou falando.

Sergio Pérez
Sergio Pérez conquistou o título da National Class em 2007

Com os pilotos chegando direto para a GP3, F3 Euro Series e F3 Inglesa, passar pela divisão de acesso se tornou algo desnecessário. Ainda com a National Class como exemplo, em 2008 foram seis participantes durante toda a temporada, no ano seguinte esse número caiu para quatro, então dois no ano passado para apenas Kotaro Sakurai neste ano. Evidentemente, essas categorias perderam a razão de existir.

Mas por que eu passei os últimos 2683 caracteres falando disso? Para chegar à situação brasileira, claro. Na F3 Sudamericana, a divisão Light foi criada em 1992 e durou até 2006, não sendo disputada em 1994. Desde 2009, porém, ela está de volta. Nos primeiros 14 anos, eu imagino que ela tivesse como objetivo as mesmas metas da National Class, tanto que um chileno e um uruguaio foram campeões, embora os maiores destaques tenham sido o argentino Emiliano Spataro e JP de Oliveira.

Por outro lado, o retorno da divisão em 2009 foi um erro. Lembra quando eu disse que esses campeonatos foram criados beneficiando pilotos e equipes? Nessa volta o mérito ficou apenas com os times.

Em 2009, a F3 Sudamericana adotou o Dallara F308 na divisão principal. Com algum orgulho, o campeonato daqui foi o primeiro no mundo a usar esses carros de forma oficial, já que todo ano a Dallara faz atualizações, e os campeonatos europeus as absorvem, em média, a cada três temporadas.  Só que a mudança no carro também significou um monte de ferro velho – os F301 – nas oficinas. Então, qual a ideia genial dos dirigentes? Resgatar a categoria Light e colocar esses carros.

E sabe o que era melhor ainda? Como a F3 Sudamericana era a única competição de monopostos grande por aqui, a Light – como efeito colateral – ia servir para consertar os erros de formação dos pilotos. Por isso foram quatro participantes em 2009 e em 2010, embora no último ano dois deles fossem estrangeiros. Aí criaram a F-Futuro. Ou seja, pelos mesmos RS 200 mil que custa uma temporada no ferro velho da Light, você poderia competir nos carros novos e importados da França, que ainda davam uma vaga na Academia da Ferrari e uma temporada com tudo pago na Itália. Adivinha aonde os garotos resolveram correr?

Suzane Carvalho Dallara F301
A temporada completa na divisão Light custa os mesmos R$ 200 mil que a F-Futuro, mas não tinha a vaga na Ferrari, nem a temporada completa na Itália

Mas sempre tem alguém que fica na Light. Esse ano foi o Bruno Bonifácio, de 16 anos, que parece ser bom piloto. Pois bem, o garoto compete sozinho na divisão. O que não é nenhum problema para ele, na realidade. Ele tem um bom desempenho e, na maior parte do tempo, está brigando de igual para igual com Fabiano Machado e Guilherme Silva, que são da divisão principal.

Só que onde está o erro nisso? Em vez de mudarem ele de divisão, ou então deixarem que corra sozinho e ganhe, obviamente, tentam enxertar carro toda a corrida com o único objetivo de aumentar o grid. É bizarro isso o que acontece. Como as equipes têm custos muito baixos para deixar os F301 operando, e normalmente eles tão prontos a espera de pilotos nos finais de semana de corrida, os times fazem acordo com qualquer um para correr na divisão Light.

Eu ia escrever que a gota d’água parece que é a corrida no Rio de Janeiro, mas acho que a situação vai ficar pior nas próximas etapas. Depois de chamarem – de forma acertada – os dois argentinos para Interlagos, os ‘novos’ pilotos da Light na etapa carioca, pasme, são Dorivaldo Gondra Jr, Stuart Turvey e Suzane Carvalho.

Talvez você não os conheça, ou tenha ouvido falar somente da Suzane. Dorivaldo Gondra Jr, que irei chamar de Dorival Jr – por causa do técnico do Atlético Mineiro – é um piloto pernambucano que fez carreira no kart com pouco destaque faz dez anos. Ele foi contemporâneo de Mario Romancini, que disputou a F3 Sul-americana em 2005, passou pela Europa e Estados Unidos antes de voltar ao Brasil. E esse, salvo pela semelhança atleticana, é o nome menos bizarro da lista.

Stuart Turvey não é irmão do Oliver Turvey, vice-campeão da F3 Inglesa em 2008. Ele também é inglês, mas é o telemetrista da equipe Dragão. Tudo bem que o cara tem experiência como piloto, mas ele disputou a National Class da F3 Inglesa faz dez anos, veio para o Brasil e ficou na ativa correndo de categorias muito pequenas, enquanto também fazia trabalho fora da pista. A efeito de comparação, a DPR, quando foi excluída da GP2, fez algo semelhante colocando um mecânico com experiência nas pistas para testar e foi severamente criticada por tudo e por todos. O próprio Andre Herck, dono do time, explicou que ele não estava se importando depois de ter sido chutado do campeonato. Detalhe: o cara da DPR participou de um teste, Turvey correu em uma etapa oficial valendo pontos para o campeonato da F3, desnecessário falar do risco maior.

Por fim chegamos na Suzane Carvalho. Lembra quando eu falei que a divisão Light foi criada em 1992? Então, ela foi a campeã daquele ano. Faz 20 anos, praticamente. Ela é uma piloto marcante da história do automobilismo brasileiro, mas o lugar dela – e de nenhum dos outros dois – não é na classe Light.

Aí vamos para a corrida. O Bruno, coitado, teve problemas no motor e abandonou de cara. Aí o Turvey caiu fora depois, seguido pelo Dorival Jr. Resultado: a Suzane venceu! Ela terminou a prova duas voltas atrás (!!) e ganhou porque corria sozinha (!!!), já que todos os outros abandonaram. Mas eu acho que essa ironia foi algo preparado por forças maiores. Por quê? Daí, claro, foram Suzane, Turvey e Dorival Jr ao pódio e alguém a tirou a foto para imortalizar esse vergonhoso momento das categorias de acesso no Brasil.

F3 Light pódio Rio de Janeiro
Eis o pódio, Dorival Jr, Suzane Carvalho e Stuart Turvey

Eu quero deixar bem claro que não tenho nada contra nenhum desses três pilotos. E eu acho que eles sabem que ali não é o lugar deles. É legal correr, relembrar o passado, mas não numa competição cujo objetivo deveria ser desenvolver novos talentos pro automobilismo brasileiro.

Lamentavelmente, sem esse trio, o grid, neste sábado, ia ter sete carros. Aí aparece o presidente da CBA dizendo que a gente nunca teve tanto campeonato. Depois, morre alguém em Interlagos e começa a se questionar se os pilotos que vão para esses campeonatos maiores como a Copa Montana estão preparados para neles (o que não o caso do acidente do Sondermann, que eu garanto que quem bateu ali é bom piloto). Para encerrar, a gente tem um autódromo que pateticamente tem uma curva que não pode ultrapassar, onde a bandeira amarela é permanentemente agitada. Ou seja, eu posso entender que a entidade-mor está dizendo que os pilotos não são capazes de pilotarem ali de maneira civilizada sem essa medida? Por que será que eles não confiam nos seus pilotos, né?