Lucas Di Grassi VR-01
O VR-01 podia ser muito bonito, mas não andava nada

Depois de mais um final de semana da F1, agora o GP da Turquia, já nem chama mais a atenção o fraco desempenho da Virgin. Dessa vez, apenas Jérôme D’Ambrosio participou da prova, já que o carro de Timo Glock teve um problema de câmbio antes da largada, e o piloto ficou de fora da corrida.

Para a equipe que se apresentava como ‘cool’ no início da temporada 2010, a Virgin não conseguiu emplacar na F1. Os fracos resultados e uma dupla de pilotos que tem tanta carisma e desenvoltura quanto uma tábua de madeira não ajudam a equipe de Richard Branson se destacar.

Se a equipe chegou prometendo ser a nova Red Bull, no quesito quebrando os paradigmas de comportamento na F1, o resultado até agora tem sido desastroso. Salvo a apresentação do carro 2010, o restante foi uma compilação de momentos burocráticos. Além disso, o fraco desempenho nas pistas também coloca um ponto de interrogação sobre o futuro do time na categoria.

Mas como a Virgin desandou nesse ano e meio? Por que o time que brigava de igual para igual com a Lotus de repente passou a ser vencida até mesmo pela Hispania aqui e acolá?

Em primeiro lugar, a Virgin não tem um grande carro (jura?) E isso é culpa, também, do projetista da equipe, Nick Wirth. Aliás, alguém já teve a curiosidade de ver o currículo desse cidadão, que também é um dos sócios da equipe? Resumidamente, Wirth começou na F1 pela March, ganhando notoriedade ao ser o responsável pela aerodinâmica da equipe nas temporadas 1988 e 1989. Como no primeiro ano a equipe foi bem, inclusive com Ivan Capelli subindo ao pódio, Wirth ganhou certa notoriedade.

Parece um resultado satisfatório fazer a pequena March – conhecida para nós brasileiros como o carrinho verde-água de Maurício Gugelmin – conseguir brigar pelo pódio. E com certeza é. Mas é importante atentar ao fato de que o diretor técnico da equipe nessa época era um tal de Adrian Newey.

Maurício Gugelmin March
O March não foi um carro ruim. Mas como um carro de Adrian Newey poderia ser ruim?

Depois, Wirth resolveu ajudar a fundar a Simtek em 1994, com a ajuda de Max Mosley, em um episódio bastante similar ao que levou a Manor à F1. Apoiada pela Ford e pela MTV, a Simtek fez um ano e meio de F1 antes de falir miseravelmente. O carro era bastante ruim e ficará marcado como aquele em que Roland Ratzemberger morrera no treino do GP de San Marino. Na pista, o desempenho não era bom. Embora o time se classificasse com certa folga para as corridas, o nono lugar (de Jean-Marc Gounon e de Mimo Schiattarella) foram os melhores resultados do time que ainda contou com os bons David Brabham e Jos Verstappen.

Como Wirth é uma pessoa influente, o engenheiro conseguiu arrumar uma vaga na Benetton com a saída de Rory Bryne após o bicampeonato de 1994 e 1995. Wirth foi o responsável pelos carros de 1997 a 1999, um período em que certamente todos nós sequer vamos lembrar da Benetton porque eles não fizeram nada. Tudo bem que Jean Alesi, Gerhard Berger e Alex Wurz até conseguiram bons resultados, mas ficaram muito longe do desempenho de Michael Schumacher no bicampeonato.

Vendo nesse âmbito, não surpreende o carro da Virgin não melhorar. Os pilotos e o envolvimento de Richard Branson são capítulos à parte. Em 2010, os ingleses contrataram o que tinha de melhor no mercado disponível da F1. Com a saída da Toyota, Timo Glock já era um piloto com três anos de experiência na categoria e conhecido por ser bastante rápido, constante e leal. Já Lucas Di Grassi era quase aclamado na categoria principal depois de ser um dos grandes nomes da GP2 por três anos seguidos, quando também testou pela Renault.

Lucas teve um ano muito difícil com direito a um desempenho bastante ruim nas etapas finais. Timo, por sua vez, teve tantas dificuldades quanto o brasileiro, mas foi sempre mais rápido e se destacou justamente nas últimas corridas quando fez provas memoráveis nos GPs de Cingapura e da Coreia do Sul.

Para 2011, como todos sabemos, a Virgin decidiu trocar Lucas Di Grassi por Jérôme D’Ambrosio. Apesar de o belga ser um bom piloto, a escolha foi motivada pelo dinheiro (assim como a grana também fora fundamental para a contratação de Lucas um ano antes). Essa decisão, aliás, é bastante curiosa se levarmos em conta que não só a Virgin é controlada pelo conglomerado de Richard Branson como o time também prega o corte de custos na F1, ao não usar, por exemplo, o túnel de vento.

Se a equipe quer uma categoria ‘sustentável’ como pode precisar de piloto pagante? A resposta, no caso, é o envolvimento de Branson, ou a falta dele. O magnata não parece disposto a colocar muito dinheiro na investida F1zística, assim, ele dá nome ao time, mas vê D’Ambrosios e Marussias financiando tudo. Desse jeito até parece fácil falar em teto orçamentário.

A escolha de D’Ambrosio não foi por acaso. Apesar de trazer dinheiro, o belga ficou conhecido por ser companheiro de Kamui Kobayashi na GP2 e aplicar-lhe surras homéricas. Então, se o japonês se destacou na F1, nada melhor que apostar no companheiro mais talentoso, não? Até agora, devido às circunstâncias que separam Sauber e Virgin, não é possível comparar quem levou a melhor na F1, mas dificilmente o belga chegará perto do frisson causado pelo japonês.

Se a Virgin seguir esse calvário de fracos resultados, talvez nem mesmo o cada vez maior envolvimento tanto da Manor quanto da Marussia nas categorias de acesso do automobilismo consiga manter o time na F1. E se continuarem desse jeito, quando anunciarem a saída da categoria vão receber apenas um ‘vai tarde’.