Formula Renault UK
Mesmo levando cinco pilotos à GP3, a F-Renault UK sofre com a falta de inscritos em 2011

Criticar as categorias brasileiras de acesso é algo extremamente recorrente no jornalismo automobilístico. Não é para menos. Por aqui, a F3 Sudam tem se arrastado ano após ano para conseguir colocar um grid com mais de dez carros e a F-Future – que é uma criação privada que mal teve apoio das entidades que chancelam o esporte no Brasil – começou com apenas oito participantes em 2010.

Só que a época de vacas magras não se restringe apenas ao Brasil. Surpreendentemente, a Inglaterra, um dos berços do esporte a motor, sofre em 2011 com um esvaziamento das categorias menores. A tradicional F-Renault Inglesa, que já teve gente como Kimi Raikkonen, Lewis Hamilton, Pedro de la Rosa, Antonio Pizzonia e Thomas Erdos como campeões, amargou apenas 12 carros na segunda etapa do campeonato, no dia 17 de abril, em Donington Park.

A diminuição no número de participantes acontece em um ano que a categoria foi extremamente valorizada. Dentre aqueles que disputaram a temporada 2010, cinco pilotos (Lewis Williamson, Tamás Pál Kiss, Nick Yelloly, Marlon Stockinger e Thomas Hylkema) avançaram à GP3, dois (Riki Christodoulou e Harry Tincknell) foram para a F3 Inglesa e o campeão Tom Blomqvist se transferiu para a F3 Alemã.

Com tantos pilotos tendo sucesso, a tendência natural seria a de que ainda mais jovens procurassem a categoria para dar os primeiros passos no automobilismo. No entanto, não foi isso o que aconteceu em 2011. A primeira etapa do campeonato, disputada em Brands Hatch, teve apenas 14 inscritos, sendo que Will Stevens e Felix Serralles, ambos da Fortec, vão competir apenas nas etapas que não houver conflito de data com o campeonato europeu da categoria. Por esse motivo não estiveram presentes em Donington, o que derrubou o grid para apenas 12 competidores.

Há dois motivos que podem explicar essa diminuição no grid da categoria. O primeiro é justamente o sucesso alcançado pela F-Renault, em 2010, ter inflacionado o preço das vagas pedido pelas equipes. Assim, mesmo sabendo do sucesso recente, os novos pilotos optaram por disputar campeonatos mais baratos ao invés de pagar um pouco mais.

F-Renault UK
Na etapa de Donington, a F-Renault teve mínguos 12 carros

A segunda razão é a disputa política envolvendo os dois órgãos que chancelam o esporte a motor no Reino Unido: o BRDC e a BARC. O British Racing Driver’s Club organiza a F-Renault inglesa, cuida do GP da Inglaterra da F1, do autódromo de Silverstone, e tem Damon Hill como presidente. O British Automobile Racing Club, por sua vez, também organiza uma F-Renault – chamada de F-Renault BARC -, tem o festival de Goodwood como carro chefe e, além disso, organiza o BTCC.

Como visto, acontecem existem duas F-Renault no Reino Unido. Assim, quando uma está bem a outra tem um grid enxuto e vice-versa. Com o sucesso da F-Renault Inglesa, a BARC precisou reagir e se tornar atrativa para os pilotos. Não é por acaso que em 2011 são 20 inscritos, liderados por Sean Walkinshaw, filho de Tom Walkinshaw, ex-dirigente da Arrows e um dos homens mais éticos da história da F1 (p.s: achei por bem avisar que há sarcasmo nessa frase).

Mesmo com essa rivalidade aparente, extra-oficialmente a BARC serve como categoria de acesso para a outra F-Renault. Isso porque, salvo Hywel Lloyd, que está na quarta temporada da F3 Inglesa, nenhum outro piloto vindo dessa categoria conseguiu grande sucesso. Por outro lado, a atual campeã, Alice Powell, é uma das estreantes no campeonato regido pela organização de Damon Hill.

Powell, aliás, é um bom exemplo de que mesmo com o grid esvaziado a F-Renault UK continua competitiva. Além dela, o certame conta com a presença do cipriota Tio Ellinas, destaque na F-Ford, além de Josh Hill (filho de Damon) e Oliver Rowland, que faz parte do programa de desenvolvimento de pilotos da McLaren. A eles se somam alguns destaques do campeonato como Will Stevens e Alex Lynn, que já são segundanistas na competição.

A disputa das F-Renault na Inglaterra serve para comprovar o fato de que, hoje, em nenhum lugar do mundo, é possível ter campeonatos que disputem o mesmo nicho de pilotos. O automobilismo é um esporte caro e está ficando cada vez mais evidente que aqueles que se arriscam a fazer carreira nesse esporte não estão mais dispostos a desperdiçar dinheiro. Pelo contrário. Custo-benefício se tornou uma palavra de ordem e certames tradicionais, como a F-Renault Inglesa ou a F3 Euro Series citada no outro post, estão fadados à decadência caso não se reestruturem.

Voltando ao primeiro parágrafo, quando falei da situação no Brasil, curioso como podemos falar de crise no Reino Unido, que tem duas categorias de base, enquanto deste lado do mundo nós temos… ahm.. a F-Future conta?