Trevor Bayne Daytona 500
Trevor Bayne surpreendentemente (?) venceu a Daytona 500

Algumas vezes o esporte nos dá resultados que contrariam a lógica racional das coisas. Em outras, a mistura do natural com o irracional é tão grande que é impossível dizer se o acontecido já estava previsto ou não.

Se ficou difícil entender, posso dar um exemplo. A preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2006 é ilógica. Craques chegando muito acima do peso, passistas no meio da arquibancada em um treino tático – geralmente secreto – que era transmitido ao vivo pela televisão são coisas, que não pertencem ao ambiente natural de um time então atual campeão do mundo. A eliminação precoce na Copa, com um futebol xoxo mostrado durante todas as partidas, também poderia ser considerada surpreendente, mas não foi devido ao acontecido durante a preparação.

Na Nascar, aconteceu algo semelhante nesse final de semana na Daytona 500. Trevor Bayne, de apenas 20 anos, fazia a segunda corrida da carreira na Sprint Cup, a primeira em Daytona. Ele competia pela Wood Brothers, um time que não vencia há dez anos e que foi alvo de duras críticas nesse período por parar no tempo ao tentar arrumar soluções nos negócios da maneira antiga.

E eis que mesmo assim Trevor Bayne venceu a mais importante prova do calendário da Nascar e talvez o principal evento automobilístico dos Estados Unidos sem contar a Indy 500. Ilógico, não?

 

Trevor Bayne
Trevor Bayne segurou Carl Edwards para vencer a Daytona 500

Quem acompanha a Nationwide Series – categoria a qual Bayne oficialmente compete – está acostumado a ver um grande número de pilotos da Sprint correndo por lá. Por exemplo, neste mesmo final de semana em Daytona, Tony Stewart – bicampeão da Cup – conquistou a quarta vitória seguida no oval da Flórida. Ano passado, Kyle Busch venceu apenas 13 etapas (um recorde) na divisão de acesso em provas geralmente tão animadas quanto fazer um exame de curva glicêmica de oito horas de duração.

E não para por aí. Carl Edwards competiu em todas as corridas da Nationwide desde 2005. Em muitas delas era praticamente o único piloto da Sprint Cup – usando equipamento de ponta – contra um monte de garotos querendo mostrar trabalho e que ficavam mais de 10s atrás. Essas situações fogem um pouco da lógica das coisas, afinal esses pilotos não deveriam precisar descer de divisão para se afirmar. A Nationwide poderia muito bem ficar só com os garotos.

Mas com essa invasão, esses pilotos acabaram criando um monstro. Em todas as semanas Trevor Bayne já estava acostumado a ter que dividir a pista com gente da Sprint Cup. Apesar da maior dimensão, a Daytona 500 seria só mais uma corrida para ele.

Desde o treino classificatório do domingo, Bayne começou a se mostrar como o principal piloto do final de semana. Ele poderia ter tido a glória uma semana antes se ficasse com um lugar na primeira fila da tradicional corrida. Só que ele acabou sendo superado por dois pilotos da Hendrick: Dale Earnhardt Jr e Jeff Gordon. Então com 19 anos, Trevor já teria a história da vida: “o dia que eu quase larguei na primeira fila em Daytona”.

Na quinta-feira, nos Gatorade Duels, mesmo com o acidente com David Ragan (justo ele!) no final, Bayne poderia acrescentar mais um capítulo no livro “o dia que eu quase larguei na primeira fila em Daytona – e Jeff Gordon, com quem trabalhei no duelo, me elogiou”. E ótimo, poderia parar por aí. Não parou.

Trevor Bayne e Bobby Labonte
Bobby Labonte deu o empurrão que Trevor Bayne precisava na carreira

Na Daytona 500, Jeff Gordon poderia ter qualquer um dos pilotos da Hendrick como parceiro. Poderia também escolher alguém das equipes satélites do time. Só que o tetracampeão fez questão de garantir a parceria com Trevor Bayne desde o início, enquanto se encontrassem na pista. Depois, sem Gordon, Bayne trabalhou com todo mundo, mas foi com David Ragan a principal combinação. E foi a afobação do piloto do carro número 6 em trabalhar com Bayne que o eliminou da disputa pela vitória.

Bayne então poderia escrever um livro maiorzinho “O dia que eu quase larguei na primeira fila em Daytona – e Jeff Gordon, com quem trabalhei no duelo, me elogiou. Incluindo a saga: eu liderei na bandeira branca”. Esse capítulo extra, talvez seja a parte mais inesperada de todas. Trevor empurrou todo mundo na Daytona 500, mas não foi empurrado. Com a punição a Ragan, liderando na derradeira relargada, ele precisaria que alguém não se importasse com as duas imensas faixas amarelas que o indicavam como um novato. Bobby Labonte não se importou e empurrou o garoto durantes as duas últimas voltas.

A parceria Labonte/Bayne ainda que curta fez sucesso por um pouco mais que uma volta e meia. Nisso, Kurt Busch/Montoya já estavam mais velozes e poderiam alcançar o duo. Só que eles não contavam com Carl Edwards e David Gilliland aparecendo do nada. Tanto que perderam contato entre si – e velocidade – em plena curva 3. Edwards seguiu a perseguição ao líder até a entrada do tri-oval. Superou Bobby Labonte, mas, sem ter para onde ir, foi bloqueado por Bayne, que recebeu a bandeira quadriculada. Algo impensável desde o início.

Azar dos pilotos da Sprint Cup que competem na Nationwide. Alguém mais exaltado pode dizer que a vitória de Trevor Bayne na Daytona 500 foi uma espécie de vingança. Exagero. Mas certamente vai deixar um gosto amargo em Kyle Busch, Tony Stewart e Carl Edwards, que eu citei acima. Afinal, esses três ainda não conquistaram a 500, Bayne, que nunca venceu na divisão de acesso muito por conta da presença deles, conquistou.

Se você quiser ver a história da corrida, escrita por mim, basta clicar aqui. O link está consertado já.

P.S.: O Leandro Verde, que á ativista ecoambiental e que sabe todos os resultados da F2, F3000 e GP2 de cor de qualquer piloto, incluindo abandonos e curiosidades, lembrou que eu tinha feito um texto bem legal sobre o Trevor Bayne no ano passado, clique aqui para você ver.