Kimi Raikkonen na Sauber
Kimi Raikkonen estreou em 2001 pela Sauber ao ter corrido apenas de F-Renault anteriormente

Com as temporadas das categorias de base chegando ao fim, os jovens pilotos aspirantes a F1 começam a negociar o futuro em busca de onde correr em 2011. O grande objetivo é ficar visível às grandes equipes enquanto brigam pelo título de onde competirem.

Por exemplo, as coisas estão mais agitadas na Inglaterra. Jack Harvey, vice-campeão da F-BMW europeia neste ano, trocou a Fortec pela Carlin, por quem irá competir na F3 Inglesa de 2011. O piloto assume a vaga de James Calado, que deixou a atual tricampeã britânica para acertar com a ART na GP3, substituindo o campeão Esteban Gutierrez, que muito provavelmente correrá na GP2.

Existe um mito que o ideal para um piloto é passar dois anos em cada categoria, conquistando o título no segundo, antes de chegar à F1. Voltando ao exemplo acima, Harvey saiu do kart e passou dois anos na F-BMW quando disputou o título na segunda tentativa, Calado ficou duas temporadas na F-Renault UK antes de ir para a F3 e agora se transfere GP3 onde terá todas as chances de ser campeão (veja que apesar de mudar de categoria ele continua no mesmo ‘nível’). Gutierrez fez um ano de F3 Euro Series e um de GP3 – quando foi campeão – antes de pular para a GP2.

A grande verdade é que esse mito é uma pressão cruel para os jovens. É impossível determinar quanto tempo um piloto leva para ser formado. Se tomarmos a F3 como exemplo, não seria raro encontrarmos quem precisou de mais de duas temporadas antes de se fixar na categoria, assim como quem sequer passou por ela. Desse jeito, um bom piloto que acabou levando mais tempo para estourar acaba sem chances no mercado. Mas quem disse que o mercado é justo?

Agora, para chegarmos a uma conclusão sobre o caminho ideal do kart para a F1, o único lugar onde é possível encontrar essa resposta é a própria F1. Assim, peguei os 27 pilotos que disputaram a temporada 2010, incluindo Nick Heidfeld, Christian Klien e Sakon Yamamoto para ver o que aconteceu com eles, desde que saíram do kart, com o objetivo de tentar descobrir esse ‘caminho ideal’.

A realidade é cruel para os defensores da ideia de dois anos por categoria. Apenas dois pilotos respeitaram esse princípio: Heidfeld e Sebastian Buemi. Porém, é importante lembrarmos que ambos tiveram apoio de uma equipe de F1 durante a carreira, sendo McLaren e Red Bull, respectivamente. Além disso, só o alemão conseguiu conquistar o título de cada categoria no segundo ano em que disputou. Ele passou por F-Ford, F3 Alemã e F-3000.

Nick Heidfeld na F3000 em 1999
Nick Heidfeld correu dois anos em cada categoria, vencendo sempre ao final do segundo. Na F3000, correu com a McLaren Junior, na F1, só voltou em Cingapura

Ao analisar a carreira de todos os pilotos, existem inúmeras conclusões possíveis. Por exemplo, 24 deles passaram por alguma categoria monomarca (como a F-Renault, F-Ford ou F-BMW) logo depois do kart. Os outros três foram Fernando Alonso, Jarno Trulli e Sakon Yamamoto.

Ainda nas monomarcas, oito pilotos disputaram apenas uma temporada. Onze, de 27, já vão contra a regra dos dois anos. Na realidade, foram também oito aqueles que confirmam a tese. Estes ganham o reforço de gente como Felipe Massa e Mark Webber, que apesar de gastarem três anos nesses campeonatos, começaram a carreira nos países de origem antes de se aventurarem na Europa. Ao contrário de Hamilton, que com dois anos de F-Renault, pôde dar os primeiros passos na Inglaterra, um dos pólos do automobilismo.

Para finalizar o assunto, ao analisar os dez primeiros na tabela da F1 (com Schumacher ao invés de Sutil por valores estatísticos), apenas Webber e Robert Kubica não foram campeões nas monomarcas, além de Alonso, evidentemente.

O próximo ponto é a F3. Novamente, apenas três dos 27 não disputaram a categoria: mais uma vez Fernando Alonso, além de Felipe Massa e Vitaly Petrov. Dos 24 restantes, sete ficaram três anos ou mais, incluindo Trulli e Yamamoto, que como disse anteriormente, justificam esse tempo todo por não participarem das monomarcas.

Fernando Alonso na Minardi
Fernando Alonso teve uma carreira meteórica: do kart para a World Series, depois F3000 e a difícil estreia na F1 pela Minardi

Vale atentar também a Di Grassi, que correu uma temporada de F3 Sudam antes de ir para a Europa. Dos cinco restantes, Sutil, Yamamoto e De la Rosa fizeram carreira no Japão, sendo que o caminho dos europeus foi Europa -> Japão -> F1 e o do japonês foi o contrário. Chandhok ficou três anos na F3 Inglesa, mas foi o único dos 27 a correr na National Class, enquanto Hulkenberg disputou um ano de F-3 Alemã antes dos dois de F-3 Euro Series, quando foi campeão no final. Além disso, dos 24 pilotos, nove conquistaram título.

Quanto à F-3000 e GP2 não há uma regra. Onze dos 27 não disputaram a categoria. Houve gente, como Trulli e Jenson Button, que pularam da F-3 para a F1, assim como Kubica, Vettel e Alguersuari, que vieram direto da World Series by Renault. Schumacher participou de corridas de turismo e Massa correu na F-3000 italiana – que hoje é a AutoGP.

Aqui vai um ponto importante. Somente três pilotos correram na F-3000/GP2 mais de duas temporadas: Vitaly Petrov, Karun Chandhok e Lucas Di Grassi. Não é coincidência os três serem estreantes em 2010. Isso é explicado pelo número escasso de vagas na F1 nos últimos anos, fazendo com que gente boa (ou endinheirada) tivesse que ficar mofando na GP2. É a mesma situação de Pastor Maldonado e Giorgio Pantano, por exemplo.

A última estatística analisada e a idade dos pilotos nas temporadas de estreia na F1. Entre todos, Alonso, Alguersuari e Buemi foram os mais novos ao chegarem com apenas 19 anos. O mais velho foi Pedro de la Rosa, aos 28. Voltando aos dez primeiros no campeonato, apenas Webber tinha mais de 22 anos. O australiano estreou com 25, mas é importante ficar o registro que antes da F-3000 ele já tinha abandonado a carreira nos monopostos e foi correr de esporte-protótipos. Só que acabou sofrendo um grave acidente nas 24h de Le Mans de 1999 e resolveu voltar às categorias de fórmula.

Por outro lado, ao olharmos a parte debaixo da tabela, apenas Alguersuari, Klien, Heidfeld, Trulli e Glock estrearam antes dos 23 anos. Só que é importante levarmos em conta que nem Heidfeld nem Klien estariam nas últimas posições em condições normais, enquanto a primeira passagem de Glock na F1 durou apenas seis corridas pela Jordan. Depois de competir na Champ Car e  na GP2, o alemão reestreou aos 26.  Trulli tem uma carreira feita toda em F-3, enquanto a pouca idade do espanhol (assim como a de Buemi) é explicada pelo fato de correr em um time satélite, o que não deixa de ser ainda o desenvolvimento dele como piloto.

Levando tudo isso em conta, há duas conclusões importantes. A primeira é que não existe regra na F1. Para chegar à categoria, quanto mais anormal for o caminho feito, melhor para o piloto. Se começar pular muitas categorias, como visto em Button e Alonso, a chance de correr em uma equipe de ponta aumenta. Se precisar de várias categorias, como Sutil, Kovalainen e Di Grassi, não quer dizer que a F1 esteja distante, apenas que as chances de título diminuíram.

Mark Webber
Mark Webber é a exceção em tudo. O que faz na F1?

De todos, Webber é a exceção. Ele teve bom desempenho em tudo o que disputou ao longo da carreira só que não conquistou título algum, desistiu de monopostos, retornou e é o líder do campeonato 2010. Isso apenas prova que estar no lugar certo e na hora certa é importante na F1. Ou então alguém imaginava que Jenson Button e Rubens Barrichello seriam dominantes em 2009?

Como resultado, quando virmos algum piloto fazendo equilibradas duas temporadas por categoria até a F1, é melhor desconfiar. A chance de ele ter sucesso é pouca. Nos próximos dias, repetirei essa análise, mas com a atual leva da GP2, com a Indy e com os brasileiros na Europa, para ver como anda a carreira de todos eles.