Tracy detona

O canadense Paul Tracy
O canadense Paul Tracy aproveitou os testes coletivos para detonar a Indy, que busca o sucesso longe das origens

Que a Indy vai mal das pernas não é nenhuma novidade para o fã do automobilismo. Só que desta vez, o sinal de alerta foi feito nos treinos coletivos desta semana, em Barber Motorsport Park, Alabama. Os pilotos que ficam de fora da temporada sempre são os primeiros a criticar a competição, mas agora um piloto de dentro da Indy resolveu abrir a boca, foi o sempre polêmico Paul Tracy.

Tracy disse que a crise econômica que aflige a categoria acontece por conta da queda da qualidade dos pilotos. O canadense afirmou que ao invés de bons pilotos da América do Norte, como ele, Graham Rahal, Buddy Rice e Oriol Servia (espanhol, de carreira americana), a categoria atrai apenas pilotos pagantes de qualidade horripilante. E acreditem, o ex-campeão pegou muito mais pesado na declaração.

Enquanto isso, Graham Rahal não esconde de ninguém que estuda a possibilidade de mudar-se para a Nascar, caso não consiga fazer a temporada 2010 da Indy. O assunto deste post é analisar o que aconteceu com a Indy nesses últimos anos para se tornar tão desinteressante.

O americano Graham Rahal
Graham Rahal, que venceu na estreia pela Indy, já fala em futuro na Nascar

Primeiramente, vamos observar o que aconteceu com os recentes campeões da Indy Lights, Infinity Pro e ChampCar Atlantic:

2005- Charles Zwolsman venceu a Atlantic. Correu com a bolsa de 1,5 milhão em 2006 e sumiu depois. O melhor americano foi Alfred Unser. Na Infinti, título para Wade Cunninghan, que nunca foi para a Indy. O estadunidense Jeff Simmons foi vice-campeão, fez uma temporada e meia na categoria principal, mas logo foi descartado pela RLR.  Marco Andretti também subiu.

2006- Simon Pagenaud venceu na Atlantic e assim como Zwolsman, só correu na Champ Car enquanto a bolsa durou. Graham Rahal foi o melhor americano e competiu na Newman-Haas por alguns anos. Na Infiniti, o britânico Jay Howard levantou o troféu. A aventura na Indy durou cinco provas, pela Roth, em 2008. O melhor americano foi Jonathan Klein.

2007- Rapha Matos venceu a Atlantic e se mandou para a Indy Lights. O melhor americano foi Jonathan Bomarito, que hoje alterna entre provas de GrandAM, ALMS, Atlantic e Indy Lights. O campeão da Infinti foi Alex Lloyd. O britânico correu três provas desde então, mas foi piloto de testes da Chip Ganassi, embora a equipe nunca tenha feito grandes esforços para alinhar um terceiro carro. Hideki Mutoh veio desta geração.

2008- Markus Niemela ganhou a Atlantic, mas voltou a correr nesta categoria em 2009. O melhor americano foi Jonathan Bomarito. Outros pilotos dos EUA desta geração foram Jonathan Summerton e Carl Skerlong. Na Indy Lights, título de Rapha Matos, com Richard Antinucci em segundo. Matos correu em 2009 pela Luczo Dragon Racing e Antinucci fez algumas provas pela 3G Racing.

2009- Título de J.R. Hildebrand na Indy Lights. O americano disputou uma vaga com Paul di Resta na F1, mas acabou perdendo o lugar. Sondou a Dale Coyne, mas ainda não anunciou nenhum plano para a atual temporada.

Logo de cara podemos perceber que nenhum americano foi campeão até 2009. Entre os americanos que foram novatos na Indy, entre 2005 e 2009, temos Antinucci, Rahal, Ryan Hunter-Reay, Marco Andretti, Jeff Simmons, Danica Patrick e Paul Dana.

Buddy Rice venceu uma Indy 500
Mesmo com Indy 500 e Rolex 24 no currículo, Buddy Rice ficou de fora da Indy mais uma vez

Antinucci estreou na equipe mais fraca das últimas temporadas, muito por conta do lobby feito pelo padrinho Eddie Cheever. Ryan Hunter-Reay já era um nome conhecido tendo disputado a Champ Car. Andretti e Rahal carregaram o peso do sobrenome. Danica entrou muito por conta do appeal, mas já provou ser talentosa. Paul Dana conseguiu estrear apenas aos 28 anos de idade e ia disputar primeira temporada completa somente aos 30, quando sofreu o acidente fatal em Homestead. Jeff Simmons foi quem o substituiu.

Não quero dizer que nenhum desses americanos era talentoso, entretanto todos tiveram outro motivo além da habilidade nas categorias de base para subir até a Indy. E indo ainda mais longe: se poucos americanos chegaram à Indy independente do talento e os campeões das categorias de acesso praticamente não tiveram chances na principal, de onde vieram os pilotos que estão lá? Por que eles foram os escolhidos? A crítica do Paul Tracy, lá em cima, pode ser explicada.

Mas será que um país do tamanho dos Estados Unidos não revelou nenhum grande talento em todos esses anos? Claro que sim. Por exemplo, temos A.J. Allmendinger. O californiano apoiado pela Red Bull apareceu como principal rival de Bourdais na Champ Car. Após uma boa temporada pela Forsythe, o estadunidense se mudou para a Nascar. Em 2004, a Star Mazda teve um jovem muito habilidoso como campeão. Era Michael McDowell. A incrível habilidade de adaptação rendeu a McDowell o apelido de “The Natural”. Ele estreou em 2004, pela Rocketsports, na ChampCar, mas resolveu mudar-se para a GrandAm e para a Nascar.

Parker Kligerman no Kansas
Parker Kligerman chamou atenção de Roger Penske. Logo na primeira prova juntos, na Nascar, o piloto conquistou a pole

Em 2006 apareceu outro americano quebrador de recordes. Era Parker Kligerman, que disputou 16 provas de TR Fórmula Series 1600, vencendo 11 e chegando ao pódio em todas. Kligerman chamou a atenção de Roger Penske, para quem tem contrato na Nascar.

Outra opção para os jovens pilotos americanos é tentar a carreira na Europa. Scott Speed foi o pioneiro nessa atual leva. O piloto disputou Fórmula Renault, GP2 e Fórmula 1, onde correu pela Toro Rosso. Com o fracasso no Velho Continente, seria natural que Speed continuasse nos monopostos e considerasse a Indy, mas isso nunca ocorreu. A Red Bull o colocou na ARCA e rapidamente este californiano alcançou a Nascar.

É possível dizer que a Indy não atrai mais grande parte das jovens promessas americanas. Isso acaba corroborando com a declaração de Tracy. Bem na verdade, a Indy praticamente não interessa mais a ninguém. O principal nome da história da categoria, Sam Hornish Jr, também foi para a Nascar. Agora com a transição de Danica Patrick, a Indy está para receber o maior golpe dos últimos anos. Vale lembrar que Danica é a piloto mais popular da categoria, desde 2006.

JR Hildebrand
JR Hildebrand quase chegou à Fórmula 1. Mas a perspectiva na Indy não á animadora

A Indy vive uma bola de neve em que as empresas não têm interesse em patrocinar os pilotos americanos. Sem americanos, isto é, atrativos na pista, a categoria deixou de ser exibida na ESPN (que transmite até a Nascar Nationwide Series ao vivo) e passou para a Versus Network cuja audiência é baixíssima. Sem audiência, menos empresas continuam a apostar na Indy, que acaba recorrendo aos pilotos pagantes de talento horripilante para fechar um grid que chegue perto de 20 carros. E assim Paul Tracy só não é o último a rir, pois está nesse mesmo barco.

E olha que a gente nem precisou falar de mudanças errôneas nas regras, ou abandono da tradição. Esses assuntos ainda rendem muito.

Agora resta esperarmos que pilotos habilidosos continuem enxergando a Indy. Para que a “sugestão” de Tracy em ter mais norte-americanos, seria bom que J.R. Hildebrand arrumasse um lugar para correr. Assim como John Edwards e Jonathan Summerton, vindos da Fórmula Atlantic e A1 GP. Por outro lado, a Indy Lights deve continuar a sina de não revelar um americano talentoso e campeão. Até agora apenas um piloto dos EUA foi inscrito: Charlie Kimball.

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